Quem tinha frutos distantes de si (na época do biur, impossibilitado de estar fisicamente junto a eles para separar e entregar os presentes da maneira costumeira), precisa chamá-los pelo nome (fazer uma declaração verbal, à distância, atribuindo formalmente porções específicas dos frutos a cada tipo de presente devido, cumprindo assim a obrigação de separação mesmo sem contato físico). Aconteceu com Rabban Gamliel e os sábios, que vinham em um barco (durante uma viagem marítima, distantes de seus respectivos campos e produtos na época do biur). Disse Rabban Gamliel: o dízimo que ainda vou medir (referindo-se ao primeiro dízimo que ele ainda precisava separar de seus produtos, em algum momento futuro, de volta em terra), está dado a Yehoshua (Rabi Yehoshua, um levita, tornando-se assim o destinatário designado por antecipação daquele primeiro dízimo), e seu lugar está arrendado a ele (Rabban Gamliel arrenda formalmente a Rabi Yehoshua o próprio local físico onde os produtos se encontravam, permitindo que o dízimo fosse "adquirido" por Rabi Yehoshua por meio da aquisição do espaço que o contém — um mecanismo jurídico chamado "kinyan agav karka", aquisição de bens móveis por meio do imóvel que os contém). Outro dízimo que ainda vou medir (desta vez referindo-se ao dízimo do pobre, devido naquele ano específico do ciclo sabático), está dado a Akiva ben Yossef (Rabi Akiva, que atuava como administrador responsável pela distribuição de fundos aos pobres), para que os pobres adquiram por meio dele (o próprio Rabi Akiva funcionava como agente intermediário, recebendo formalmente em nome dos pobres o dízimo do pobre), e seu lugar está arrendado a ele (o mesmo mecanismo de arrendamento do espaço físico é aplicado aqui). Disse Rabi Yehoshua: o dízimo que preciso medir (o dízimo do dízimo — teruma do dízimo — que Rabi Yehoshua, como levita que já recebera o primeiro dízimo de Rabban Gamliel, precisava agora separar dele para o cohen), está dado a Elazar ben Azariá (um cohen), e seu lugar está arrendado a ele. E receberam pagamento uns dos outros (cada um dos três sábios pagou aos demais uma taxa simbólica pelo arrendamento do respectivo local, formalizando juridicamente cada uma das três transações de aquisição por meio do imóvel).
Esta mishná combina a exigência de separação efetiva de presentes agrícolas — que está no centro do biur, como visto nas mishnayot anteriores — com um mecanismo técnico de aquisição de propriedade que permite cumprir essa exigência mesmo à distância.
Por que "chamar pelo nome" é suficiente mesmo sem contato físico? A mishná ensina um princípio de direito civil aplicado ao contexto religioso: uma vez que a Torá exige que os presentes sejam efetivamente entregues a seus destinatários, e uma vez que o direito rabínico reconhece que a propriedade de bens móveis pode ser transferida por meio da aquisição do espaço que os contém, a combinação desses dois princípios resolve o problema prático de quem está longe de seus frutos na hora do biur. O episódio do barco ilustra isso de modo particularmente elegante: três sábios, viajando juntos, resolvem simultaneamente três obrigações distintas de dízimo (primeiro dízimo, dízimo do pobre, e teruma do dízimo) por meio de um único mecanismo repetido três vezes — cada um arrendando ao próximo o "lugar" de seus respectivos frutos distantes, e todos pagando uns aos outros uma taxa simbólica que formaliza juridicamente cada transação. A mishná demonstra, por meio de uma história vívida e memorável, que a lei do biur não exige o impossível: mesmo em alto-mar, distante de qualquer campo, era possível cumprir integralmente as obrigações da Torá relativas aos dízimos.
O Rambam codifica esta regra em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 11, halachá 11, mantendo o princípio geral sem repetir o episódio narrativo específico.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que encerra o bloco temático do biur.
Rabi Akiva era administrador dos pobres (o responsável comunitário por receber e distribuir fundos e dízimos destinados aos necessitados), e Rabi Yehoshua era levita, e Rabi Elazar ben Azariá era cohen, décimo descendente de Ezra (indicando sua linhagem sacerdotal de prestígio). E o princípio conhecido entre nós é que um imóvel se adquire por dinheiro, por documento ou por posse... E há ainda outro princípio entre nós: assim como um imóvel se adquire por dinheiro, documento ou posse, também o arrendamento de um imóvel se adquire por dinheiro, documento ou posse; e parte da força pela qual se adquirem bens móveis é o arrendamento do lugar onde eles se encontram, pois aquele imóvel é considerado como se fosse domínio do arrendatário, e os bens móveis nele contidos são como se estivessem penhorados e colocados em seu domínio... Por isso, cada um destes arrendou ao seu companheiro o lugar do dízimo por dinheiro, e o companheiro adquiriu o dízimo que estava naquele lugar, como se tivesse chegado ao seu domínio. E Rabban Gamliel fez isso porque chegara a hora do biur, e ele era obrigado, como já explicamos, a fazer chegar às mãos de seus donos cada presente específico dos dízimos e da teruma, depois que seus frutos amadureceram completamente (o Rambam explica o mecanismo jurídico técnico por trás do episódio: a aquisição de bens móveis "agav karka", por meio do arrendamento do imóvel que os contém, permite que a mera palavra e o pagamento simbólico completem legalmente a transferência de propriedade dos frutos distantes, mesmo sem qualquer contato físico direto com eles).
"Quem tinha frutos distantes de si": e já haviam sido preparados (teruma gedolá já separada), e chegou o momento do biur. "Precisa chamá-los pelo nome": para transferi-los formalmente a seus donos, como no episódio de Rabban Gamliel e os sábios. "O dízimo que ainda vou medir": o primeiro dízimo que ainda vou dar dos frutos que tenho em casa. "Está dado a Yehoshua": era levita. E teruma gedolá não deu agora, porque a teruma se separa na eira, pois é impossível que a eira seja esvaziada sem que se separe primeiro a teruma gedolá, e ele já a havia separado na eira (explicando por que Rabban Gamliel só precisou lidar, no episódio, com o dízimo — a teruma comum já havia sido resolvida anteriormente). "E seu lugar está arrendado a ele": e o lugar do dízimo está arrendado a ele, e ele adquire o dízimo por meio do imóvel. "Outro dízimo": o dízimo do pobre. "Está dado a Akiva ben Yossef": era administrador dos pobres. "O dízimo que ainda vou medir" (disse Rabi Yehoshua): o dízimo do dízimo, que eu preciso dar ao cohen do dízimo que Rabban Gamliel me deu. "Está dado a Elazar ben Azariá": era cohen, décimo descendente de Ezra. "E receberam pagamento uns dos outros": Rabban Gamliel recebeu o pagamento do lugar do primeiro dízimo de Rabi Yehoshua, e o pagamento do lugar do dízimo do pobre de Rabi Akiva. E Rabi Yehoshua recebeu o pagamento do lugar do dízimo do dízimo de Rabi Elazar ben Azariá. E cada um adquiriu o lugar do dízimo apropriado a ele pelo dinheiro que deu ao arrendador, pois o arrendamento de um imóvel se adquire por dinheiro.