Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Heh · Mishná 10

"Na minchá do último dia de festa, confessavam-se"

בַּמִּנְחָה בְיוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן הָיוּ מִתְוַדִּין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrado o biur, a mishná abre o terceiro e último bloco temático do perek e do tratado: o viduy maasrot, a confissão ritual que o dono fazia depois de ter removido de sua casa todos os presentes agrícolas devidos. Esta mishná apresenta o momento exato da confissão e começa a expor, frase por frase, o texto bíblico da confissão (Devarim 26:13), identificando a que presente específico cada expressão se refere

Na oração de minchá do último dia de festa (de Pessach do quarto ou sétimo ano do ciclo sabático — não no primeiro dia, mas apenas ao final da festa, dando tempo para que o dono ainda pudesse consumir parte do segundo dízimo remanescente durante os dias intermediários), confessavam-se (recitavam o texto da confissão do dízimo, viduy maasrot, prescrito em Devarim 26:13-15). Como era a confissão? "Removi o sagrado da casa" (Devarim 26) — isto é o segundo dízimo e a plantação de quarto ano (a primeira frase da confissão bíblica refere-se especificamente aos dois presentes chamados "kodesh" — sagrado — ao longo deste tratado: o segundo dízimo e a plantação de quarto ano, cujo tratamento na época do biur, como visto na mishná 6, era justamente a remoção, e não a entrega a um destinatário externo). "Dei-o ao levita" — isto é o dízimo do levita (a segunda frase refere-se ao primeiro dízimo, entregue ao levita, chamado aqui simplesmente "dízimo do levita" para distingui-lo dos demais tipos de dízimo mencionados nas frases seguintes). "E também dei" — isto é teruma e teruma do dízimo (a palavra "também" (וְגַם), segundo a leitura dos sábios, indica um acréscimo além do que já foi mencionado — sinalizando que esta frase se refere a presentes adicionais, entregues além do dízimo do levita já citado: a teruma comum entregue ao cohen, e a teruma do dízimo que o próprio levita, por sua vez, separa de seu dízimo e entrega ao cohen). "Ao converso, ao órfão e à viúva" — isto é o dízimo do pobre (a frase final da citação identifica claramente, por seus destinatários explícitos, o dízimo do pobre — maasar ani —, devido especificamente no terceiro e sexto ano do ciclo sabático, os mesmos anos em que ocorre o biur descrito nesta mishná).

בַּמִּנְחָה בְיוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן הָיוּ מִתְוַדִּין. כֵּיצַד הָיָה הַוִּדּוּי, בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת (דברים כו), זֶה מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְנֶטַע רְבָעִי. נְתַתִּיו לַלֵּוִי, זֶה מַעְשַׂר לֵוִי. וְגַם נְתַתִּיו, זוֹ תְּרוּמָה וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר. לַגֵּר לַיָּתוֹם וְלָאַלְמָנָה, זֶה מַעֲשַׂר עָנִי:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná abre o bloco final do tratado com o texto bíblico central do viduy maasrot — a confissão que o dono da produção agrícola recitava depois de completar a separação de todos os presentes devidos.

Devarim (Deuteronômio) 26:13
וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת, וְגַם נְתַתִּיו לַלֵּוִי וְלַגֵּר לַיָּתוֹם וְלָאַלְמָנָה, כְּכָל מִצְוָתְךָ אֲשֶׁר צִוִּיתָנִי, לֹא עָבַרְתִּי מִמִּצְוֹתֶיךָ וְלֹא שָׁכָחְתִּי.
"E dirás diante do Eterno, teu D-us: removi o sagrado da casa, e também o dei ao levita, ao converso, ao órfão e à viúva, conforme todo o mandamento que me ordenaste; não transgredi teus mandamentos, nem me esqueci" (Devarim 26:13) — este versículo é o texto integral da confissão que a mishná decompõe frase por frase, identificando o presente agrícola específico ao qual cada expressão corresponde. Note-se que a mishná lê "e também o dei ao levita" como duas afirmações distintas e sucessivas — "dei-o ao levita" (referindo-se ao primeiro dízimo) e "e também dei" (referindo-se a presentes adicionais, teruma e teruma do dízimo) — antes de retomar a lista de destinatários finais (converso, órfão e viúva) como referência ao dízimo do pobre, demonstrando como um único versículo condensado pode, por meio de uma leitura atenta a cada palavra, corresponder a quatro categorias distintas de presentes agrícolas.

Por que a confissão é estruturada como uma lista de presentes já entregues? O viduy maasrot tem uma estrutura peculiar entre as confissões bíblicas: em vez de admitir pecados cometidos, ele declara, com formalidade solene "diante do Eterno", o cumprimento integral de uma obrigação específica — a separação e entrega de todos os presentes agrícolas devidos sobre a produção dos três anos anteriores do ciclo sabático. Essa estrutura reflete a própria natureza do viduy maasrot como culminação do processo que atravessou toda a segunda metade deste perek: primeiro o biur (mishnayot 6-9), que exige a remoção física e a distribuição efetiva de cada presente a seu destinatário correto; e só depois, uma vez que "não resta mais nenhum dos presentes" (como formulará o Rambam, citado a seguir), torna-se possível pronunciar essa declaração de cumprimento. A mishná, seguindo o próprio texto bíblico, ensina que a confissão não é genérica, mas detalhada — exige que o dono seja capaz de dar conta, presente por presente, de exatamente onde cada porção de sua produção foi parar.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica a mitzvá do viduy maasrot e o momento exato de sua recitação em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 11, halachot 1 e 3.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 11:1, 11:3
מִצְוַת עֲשֵׂה לְהִתְוַדּוֹת לִפְנֵי ה' אַחַר שֶׁמּוֹצִיאִין כָּל הַמַּתָּנוֹת שֶׁבְּזֶרַע הָאָרֶץ, וְזֶהוּ הַנִּקְרָא וִדּוּי מַעֲשֵׂר... אֵימָתַי מִתְוַדִּין, בְּמִנְחָה בְּיוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן שֶׁל פֶּסַח שֶׁל רְבִיעִית וְשֶׁל שְׁבִיעִית.
"É preceito positivo confessar-se diante do Eterno depois de retirar todos os presentes que há na semente da terra, e isso se chama viduy maasrot (confissão do dízimo)... Quando se confessam? Na oração de minchá do último dia de festa de Pessach do quarto e do sétimo ano" (o Rambam formaliza como mitzvá independente — preceito positivo próprio, distinto do biur que a precede — a própria recitação da confissão, e fixa seu momento exato exatamente como esta mishná, confirmando-a como norma halachica vigente enquanto o Templo estava de pé).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que o Rambam diz sobre esta mishná, que abre o bloco final de Massechet Maaser Sheni.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 5:10
כְּבָר בֵּאַרְנוּ כִּי בְּכָל מָקוֹם מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְנֶטַע רְבָעִי קֹדֶשׁ, וּמַעֲשַׂר לֵוִי הוּא מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן. וְאָמְרוֹ וְגַם נְתַתִּיו לַלֵּוִי, יוֹרֶה עַל מַעֲלָה שְׁנִיָּה קָדְמָה לוֹ, לְפִי שֶׁמִּלַּת וְגַם אֶצְלָם תּוֹסֶפֶת, כְּמוֹ הַנּוֹסָף עָלָיו. וּמַעֲשַׂר עָנִי וְלֶקֶט וְשִׁכְחָה וּפֵאָה הֵם חֻקֵּי גֵּר יָתוֹם וְאַלְמָנָה. מִן הַבַּיִת, זוֹ חַלָּה, לְפִי שֶׁאֵין שָׁם חֹק יִהְיֶה בְּמַה שֶּׁבַּבַּיִת בִּלְבַד, אֶלָּא הַחַלָּה הַחַיֶּבֶת בָּעִסָּה.

Já explicamos que em todo lugar "kodesh" refere-se ao segundo dízimo e à plantação de quarto ano, e "dízimo do levita" é o primeiro dízimo. E o que disse "e também o dei ao levita" indica que uma segunda categoria precedeu esta — pois a palavra "também" (וְגַם), entre eles, significa um acréscimo, como algo adicionado sobre o que já foi dito (o Rambam explica a lógica hermenêutica exata pela qual a mishná extrai duas categorias distintas — dízimo do levita e teruma/teruma do dízimo — de uma única frase bíblica que, à primeira vista, poderia parecer redundante). E o dízimo do pobre, a espiga esquecida (leket), o esquecimento (shichechá) e o canto do campo (peá) são os preceitos do converso, do órfão e da viúva. "Da casa": isto é a chalá (nota do Rambam sobre uma expressão adicional do mesmo versículo, não citada explicitamente nesta mishná, mas relevante ao contexto mais amplo do viduy: a palavra "bait", casa, é entendida como referência à chalá — a porção da massa separada e dada ao cohen —, pois é o único presente entre todos os mencionados que se separa especificamente "na casa", da massa já preparada, e não diretamente do campo), pois não há ali nenhum preceito que se aplique apenas ao que está na casa, exceto a chalá, que é obrigatória sobre a massa.

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Bartenura não comenta explicitamente esta mishná em seu texto conforme preservado nas edições correntes, dado o caráter já suficientemente detalhado do comentário do Rambam sobre o mesmo versículo. Abre-se com esta mishná o terceiro e último bloco temático do quinto perek: o viduy maasrot, a confissão ritual do cumprimento da separação de presentes agrícolas, decomposta aqui frase por frase a partir do texto de Devarim 26:13 — mishná 10.