Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Bet · Mishná 5

"Moedas comuns e moedas do segundo dízimo que se espalharam"

מְעוֹת חֻלִּין וּמְעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּתְפַּזְּרוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A partir daqui a mishná passa ao tema do dinheiro do segundo dízimo: o caso de moedas comuns (chulin) e moedas do dízimo que se espalham juntas no chão. Se foram recolhidas uma a uma, tudo o que se recolhe é considerado do dízimo até completar a soma original; se foram misturadas e apanhadas às mãos cheias, a divisão é proporcional ao valor original de cada parte

Moedas comuns e moedas do segundo dízimo que se espalharam (no chão, misturando-se sem que se saiba mais quais eram de cada tipo): o que se recolheu, recolheu-se para o segundo dízimo, até completar (a soma original das moedas do dízimo), e o restante é comum (pois presume-se que, ao recolher uma a uma, o dono designa cada moeda recolhida como pertencente ao dízimo, até atingir a quantia que originalmente possuía como dízimo). Se misturou e apanhou às mãos cheias, a divisão é proporcional (quando não se recolhe uma a uma, mas em punhados que misturam moedas de ambos os tipos, a divisão entre dízimo e comum se faz na mesma proporção em que existiam originalmente). Esta é a regra: o que se recolhe pertence ao segundo dízimo; e o que se mistura, é proporcional (resumo dos dois casos: recolher individualmente favorece o dízimo; misturar e apanhar em conjunto exige cálculo proporcional).

מְעוֹת חֻלִּין וּמְעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּתְפַּזְּרוּ, מַה שֶּׁלִּקֵּט, לִקֵּט לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, עַד שֶׁיַּשְׁלִים, וְהַשְּׁאָר חֻלִּין. אִם בָּלַל וְחָפַן, לְפִי חֶשְׁבּוֹן. זֶה הַכְּלָל, הַמִּתְלַקְּטִים, לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי. וְהַנִּבְלָלִים, לְפִי חֶשְׁבּוֹן:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná trata do dinheiro resultante do resgate (pidyon) do segundo dízimo, que assume a santidade do produto original.

Devarim (Deuteronômio) 14:25
וְנָתַתָּה בַכֶּסֶף, וְצַרְתָּ הַכֶּסֶף בְּיָדְךָ, וְהָלַכְתָּ אֶל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ בּוֹ.
"E o darás em dinheiro, e amarrarás o dinheiro em tua mão, e irás ao lugar que o Eterno, teu D-us, escolher" (Devarim 14:25) — a Torá permite que o produto do dízimo, quando distante demais de Jerusalém para ser transportado in natura, seja convertido em dinheiro, que assume então toda a santidade do produto original. Esse dinheiro do dízimo, uma vez misturado fisicamente com dinheiro comum, levanta a questão prática tratada nesta mishná: como recuperar a santidade específica sem poder mais distinguir fisicamente as moedas, já que a Torá exige "amarrar o dinheiro na mão" — um ato de posse e designação consciente que pressupõe identificação clara do que é sagrado.

Por que recolher uma a uma favorece o dízimo, mas misturar exige proporção? A lógica desta mishná repousa sobre a intenção presumida (chazaká) de quem recolhe moedas espalhadas. Quando alguém recolhe as moedas uma a uma, do chão, é razoável presumir — segundo o Bartenura — que a pessoa tem em mente completar primeiro a quantia que sabe pertencer ao segundo dízimo (por ser mais valiosa e sagrada, requerendo atenção especial), e só depois completa o que sobra como comum; por isso, cada moeda recolhida individualmente é atribuída ao dízimo até que a soma originalmente perdida como dízimo seja restaurada. Mas se a pessoa não recolhe com esse cuidado individual — se mistura tudo e pega às mãos cheias, sem poder direcionar a intenção para nenhuma moeda específica —, não há mais base para presumir que o dízimo foi "completado" primeiro; nesse caso, a lei recorre a uma divisão puramente proporcional, calculada pela razão original entre a quantia de dízimo e a quantia de dinheiro comum que havia se espalhado.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná quase literalmente em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 6, halachá 1, que abre a seção dedicada aos casos de moedas espalhadas, perdidas ou de identidade duvidosa.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 6:1
מְעוֹת חֻלִּין וּמְעוֹת מַעֲשֵׂר שֶׁנִּתְפַּזְּרוּ וְלִקֵּט מִיכַּן וּמִיכַּן. מַה שֶּׁלִּקֵּט לִקֵּט לְמַעֲשֵׂר עַד שֶׁיַּשְׁלִים. וְהַשְּׁאָר חֻלִּין. וְאִם בָּלַל וְחָפַן אוֹ שֶׁלִּקֵּט בְּעֵינַיִם עֲצוּמוֹת לְפִי חֶשְׁבּוֹן.
"Moedas comuns e moedas do dízimo que se espalharam, e recolheu daqui e dali — o que recolheu, recolheu para o dízimo, até completar, e o restante é comum. E se misturou e apanhou às mãos cheias, ou recolheu de olhos fechados, a divisão é proporcional" (o Rambam acrescenta um terceiro caso não explícito na mishná — recolher "de olhos fechados" —, esclarecendo que o critério decisivo não é apenas o modo físico de recolher moeda a moeda, mas a possibilidade real de direcionar a intenção para cada moeda individualmente; sem essa possibilidade, mesmo recolhendo uma a uma, a divisão volta a ser proporcional).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:5
עַד שֶׁיַּשְׁלִים. עִנְיָנוֹ עַד שֶׁיַּשְׁלִים מִנְיַן הַזָּהָב שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וְהַשְּׁאָר חֻלִּין, וְאִם נֶאֱבַד מֵהֶם דָּבָר מִשֶּׁל חֻלִּין נֶאֱבַד.

"Até completar": significa até completar o número de moedas de ouro (ou de qualquer metal) do segundo dízimo, e o restante é comum; e se algo se perdeu delas, presume-se que o que se perdeu foi do comum (pois se atribui ao dízimo prioridade na recuperação, e ao comum, prioridade na perda — princípio que favorece consistentemente a preservação da santidade).

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה (continuação — o cálculo proporcional)
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:5
וְהַנִּבְלָלִים לְפִי חֶשְׁבּוֹן. כֵּיצַד, כְּגוֹן שֶׁיִּהְיוּ מְעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי מֵאָה סְלָעִים וְשֶׁל חֻלִּין מָאתַיִם, וּבָלַל וְעֵרֵב הַשְּׁלֹשׁ מֵאוֹת סְלָעִים וְנִתְפַּזְּרוּ, וְנֶאֱבַד מֵהֶם בְּדֶרֶךְ הַדִּמְיוֹן שְׁלֹשִׁים סְלָעִים, נֹאמַר שֶׁאוֹתָן שְׁלֹשִׁים סְלָעִים שֶׁנֶּאֶבְדוּ יִהְיוּ עֶשְׂרִים שֶׁל חֻלִּין וַעֲשָׂרָה מִמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי, לְפִי חֶשְׁבּוֹן הַמָּמוֹן.

"E o que se mistura, é proporcional": como assim? Por exemplo, se havia cem selaim de dinheiro do dízimo e duzentos selaim de dinheiro comum, e misturou e mesclou os trezentos selaim, e se espalharam, e se perderam deles, digamos, trinta selaim, diríamos que desses trinta selaim perdidos, vinte são do comum e dez são do segundo dízimo, na proporção do valor original de cada parte (um terço do total era dízimo, dois terços era comum — e assim se calcula sempre em qualquer proporção).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:5
מַה שֶּׁלִּקֵּט לִקֵּט לְמַעֲשֵׂר. כָּל מַה שֶׁמְּלַקֵּט הַכֹּל לְמַעֲשֵׂר, עַד שֶׁיַּשְׁלִים דְּמֵי מַעֲשֵׂר. וְיַתְנֶה וְיֹאמַר, אִם כָּל מַה שֶּׁלִּקַּטְתִּי הֵם מְעוֹת מַעֲשֵׂר מוּטָב, וְאִם לָאו אוֹתָם שֶׁל מַעֲשֵׂר שֶׁנִּשְׁאֲרוּ יִהְיוּ מְחֻלָּלִין עַל אֵלּוּ. וְאִם בָּלַל וְחָפַן. וְאִם לֹא לִקֵּט אוֹתָן אֶחָד אֶחָד מִכָּאן וּמִכָּאן, אֶלָּא שֶׁהָיוּ בְלוּלִין וּמְעֹרָבִים וְלִקֵּט אוֹתָם מְלֹא חָפְנָיו.

"O que se recolheu, recolheu-se para o dízimo": tudo o que se recolhe é para o dízimo, até completar o valor do dízimo. E deve fazer uma condição, dizendo: "se tudo o que recolhi são moedas do dízimo, ótimo; e se não, que as moedas do dízimo que restaram sejam resgatadas sobre estas" (uma cláusula de segurança que cobre o caso de a suposição inicial estar errada). "Se misturou e apanhou às mãos cheias": e se não as recolheu uma a uma, daqui e dali, mas estavam misturadas e mescladas, e as recolheu às mãos cheias (neste caso não há como presumir que se dirigiu deliberadamente ao dízimo primeiro, pois cada punhado necessariamente contém uma mistura aleatória de ambos os tipos).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.