Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Bet · Mishná 6

"Um sela do segundo dízimo e um comum que se misturaram"

סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְשֶׁל חֻלִּין שֶׁנִּתְעָרְבוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Um caso mais complexo do que o anterior: dois selaim indistinguíveis, um do segundo dízimo e um comum, se misturaram. O procedimento é resgatar o valor de um sela sobre moedas de cobre — tornando tudo comum —, e então escolher a melhor das duas moedas de prata originais e resgatar essas moedas de cobre novamente sobre ela, restaurando a santidade do dízimo à moeda escolhida

Um sela do segundo dízimo e um comum que se misturaram (sem que se saiba mais qual dos dois selaim é o do dízimo): traz-se moedas equivalentes a um sela e diz-se: o sela do segundo dízimo, onde quer que esteja, está resgatado sobre este dinheiro (um ato de resgate condicional, que transfere a santidade do dízimo — esteja ela em qual das duas moedas estiver — para as moedas de cobre trazidas), e escolhe-se a melhor das duas (das duas moedas de prata originais, agora ambas presumivelmente comuns após o primeiro resgate), e resgata-se sobre ela (as moedas de cobre usadas no primeiro resgate, devolvendo agora a santidade do dízimo à moeda escolhida), porque disseram: resgata-se prata sobre cobre em caso de necessidade (embora normalmente o dízimo só devesse ser resgatado em moeda de prata, permite-se excepcionalmente resgatá-lo sobre cobre quando não há alternativa), mas não para que assim permaneça, senão que se volta a resgatá-las sobre a prata (o uso do cobre é apenas uma etapa intermediária e temporária; a santidade deve, ao final do procedimento, repousar novamente sobre uma moeda de prata).

סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְשֶׁל חֻלִּין שֶׁנִּתְעָרְבוּ, מֵבִיא בְסֶלַע מָעוֹת וְאוֹמֵר, סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, בְּכָל מָקוֹם שֶׁהִיא, מְחֻלֶּלֶת עַל הַמָּעוֹת הָאֵלּוּ, וּבוֹרֵר אֶת הַיָּפָה שֶׁבָּהּ, וּמְחַלְּלָן עָלֶיהָ, מִפְּנֵי שֶׁאָמְרוּ, מְחַלְּלִין כֶּסֶף עַל נְחֹשֶׁת מִדֹּחַק, וְלֹא שֶׁיִּתְקַיֵּם כֵּן, אֶלָּא חוֹזֵר וּמְחַלְּלָם עַל הַכָּסֶף:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná desenvolve o mecanismo do chilul (resgate/deschulinização), pelo qual a santidade de um objeto sagrado é transferida para outro.

Devarim (Deuteronômio) 14:25
וְנָתַתָּה בַכֶּסֶף, וְצַרְתָּ הַכֶּסֶף בְּיָדְךָ, וְהָלַכְתָּ אֶל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ בּוֹ.
"E o darás em dinheiro, e amarrarás o dinheiro em tua mão, e irás ao lugar que o Eterno, teu D-us, escolher" (Devarim 14:25) — o verbo "e darás" (venatatá) é a base do princípio do chilul: o dono transfere ativamente a santidade dos frutos do dízimo para o dinheiro, que passa então a "ser" o dízimo para todos os efeitos. Esse mesmo mecanismo — transferir santidade de um objeto para outro por meio de uma declaração — é usado nesta mishná para resolver a mistura de selaim: primeiro transfere-se a santidade, esteja ela onde estiver ("em qualquer lugar que se encontre"), para moedas de cobre novas e neutras, e depois se transfere novamente dessas moedas de cobre para a moeda de prata escolhida, restaurando o dízimo a uma forma estável e identificável.

Por que o procedimento passa por duas etapas, em vez de resolver diretamente? Poder-se-ia perguntar: por que não simplesmente pegar um dos dois selaim, dizer "se este é o do dízimo, ótimo; se não, o outro está resgatado sobre este" e resolver a questão de uma vez? O Bartenura explica que os sábios temeram que, se fosse permitido tomar diretamente uma das duas moedas originais com essa condição, a pessoa acabaria pegando uma delas sem sequer fazer a condição — por displicência ou pressa —, arriscando usar indevidamente dinheiro sagrado como se fosse comum. Por isso, exige-se o procedimento indireto: primeiro transferir a santidade para moedas de cobre completamente novas, que obviamente exigem uma declaração formal (pois ninguém confundiria cobre novo com o sela original), e só depois, com a santidade já "estacionada" com segurança nas moedas de cobre, devolvê-la deliberadamente à melhor das duas moedas de prata. Este é também mais um exemplo do princípio de que o resgate deve normalmente ser feito em prata — daí a etapa final de retornar a santidade à prata, e não deixá-la permanentemente sobre o cobre, usado apenas "em caso de necessidade" (mi-dochak).

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 6, halachá 2, na sequência direta do caso de moedas espalhadas.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 6:2
סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְשֶׁל חֻלִּין שֶׁנִּתְעָרְבוּ מֵבִיא בַּסֶּלַע מָעוֹת וַאֲפִלּוּ מְעוֹת נְחשֶׁת וְאוֹמֵר סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בְּכָל מָקוֹם שֶׁהִיא מְחֻלֶּלֶת עַל אֵלּוּ, וּבוֹרֵר אֶת הַיָּפָה שֶׁבִּשְׁתֵּיהֶן וּמְחַלֵּל עָלֶיהָ אֶת הַמָּעוֹת.
"Um sela do segundo dízimo e um comum que se misturaram — traz-se moedas equivalentes a um sela, e mesmo moedas de cobre, e diz-se: o sela do segundo dízimo, onde quer que esteja, está resgatado sobre estas; e escolhe-se a melhor das duas, e resgata-se sobre ela as moedas (de cobre usadas no primeiro passo, restaurando ao final a santidade do dízimo para a moeda de prata mais valiosa, tal como ensina a mishná)."
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 4:7
בִּשְׁעַת הַדְּחָק מֻתָּר לְחַלֵּל מָעוֹת הַכֶּסֶף עַל שֶׁל נְחשֶׁת. לֹא שֶׁיְּקַיֵּם כֵּן אֶלָּא עַד שֶׁיִּמְצָא רֶוַח. וְיַחֲזֹר וִיחַלֵּל מָעוֹת הַנְּחשֶׁת עַל מָעוֹת הַכֶּסֶף.
"Em caso de necessidade, é permitido resgatar dinheiro de prata sobre dinheiro de cobre — não para que assim permaneça, mas até que encontre alívio, e então volta a resgatar as moedas de cobre sobre moedas de prata" (o Rambam codifica separadamente, no capítulo 4, o princípio geral por trás desta mishná — que resgatar prata sobre cobre é sempre uma medida temporária e excepcional, nunca uma solução definitiva).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:6
הַסֶּלַע הוּא מִכֶּסֶף וְהַמָּעוֹת מִנְּחֹשֶׁת מְפֻתָּח, וְאוֹמֵר בְּכָאן שֶׁכְּשֶׁנִּתְעָרְבוּ שְׁנֵי סְלָעִים שֶׁיָּבִיא חִלּוּפֵי סֶלַע אַחַת מִמְּעוֹת סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְיִהְיֶה הַכֹּל חֻלִּין, וְאַחַר כָּךְ יִקַּח אֶת הַיָּפֶה שֶׁבִּשְׁנֵי הַסְּלָעִים וִיחַלֵּל עָלָיו הַמָּעוֹת וְיַחֲזִיר אוֹתָהּ הַסֶּלַע מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וְיֵצְאוּ הַמָּעוֹת לְחֻלִּין.

O sela é de prata, e as moedas são de cobre cunhado. E diz aqui que, quando dois selaim se misturaram, deve trazer o equivalente a um sela em moedas do dinheiro de um sela do segundo dízimo, e tudo se torna comum. E depois toma a melhor das duas moedas de prata e resgata sobre ela as moedas (de cobre), e devolve àquele sela a condição de segundo dízimo, e as moedas de cobre saem para o uso comum (completando o ciclo: a santidade que estava "flutuando" entre os dois selaim originais termina fixada de forma segura e identificável na moeda escolhida).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:6
וְאִי קַשְׁיָא וְלָמָּה מֵבִיא בְסֶלַע מָעוֹת, יִקַּח אֶחָד מִשְּׁנֵי סְלָעִים שֶׁנִּתְעָרְבוּ וְיֹאמַר אִם זוֹ הִיא שֶׁל מַעֲשֵׂר מוּטָב וְאִם לָאו הֲרֵי הַשֵּׁנִי שֶׁהִיא שֶׁל מַעֲשֵׂר מְחֻלֶּלֶת עָלֶיהָ. אִי שָׁרֵית לֵיהּ לִקַּח אַחַת מֵהֶן וּלְהַתְנוֹת, חַיְשִׁינַן דִּלְמָא אָתֵי לְמִשְׁקָל חַד מִנַּיְהוּ בְּלֹא תְנַאי.

E se perguntares por que traz moedas equivalentes a um sela — em vez de simplesmente tomar um dos dois selaim misturados e dizer "se este é o do dízimo, ótimo, e se não, eis que o segundo, que é do dízimo, está resgatado sobre este" (um procedimento mais direto) — a resposta é: se lhe fosse permitido tomar uma das duas moedas e fazer essa condição, receamos que ele viesse a pegar uma delas sem fazer a condição (por esquecimento, pressa ou descuido) (e assim usasse indevidamente uma moeda potencialmente sagrada como se fosse comum, sem o devido resgate formal).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.