Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Bet · Mishná 4

"O karshin do segundo dízimo se come verde, e entra e sai de Jerusalém"

כַּרְשִׁינֵי מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, יֵאָכְלוּ צִמְחוֹנִים, וְנִכְנָסִין לִירוּשָׁלַיִם וְיוֹצְאִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema da mishná anterior, agora com o karshin (favas usadas como forragem): como o tiltan, come-se verde; mas, diferentemente da regra geral do segundo dízimo, pode sair de Jerusalém depois de entrar. Se ficar impuro, Rabi Tarfon e os sábios discordam sobre resgatá-lo ou distribuí-lo em massas; e segue-se uma nova controvérsia entre Bet Shamai, Bet Hilel, Shamai e Rabi Akiva sobre o processamento do karshin da teruma

O karshin do segundo dízimo se come verde, e entra e sai de Jerusalém (excepcionalmente, pois a regra geral é que o produto do dízimo que entrou em Jerusalém não pode mais sair de lá). Se ficaram impuros, Rabi Tarfon diz: devem ser distribuídos em massas (misturando pequenas porções, abaixo da medida mínima que transmite impureza, em várias massas de pão do segundo dízimo puro); e os sábios dizem: devem ser resgatados (como qualquer outro produto do segundo dízimo que ficou impuro). E o da teruma — a Casa de Shamai diz: embebem-se e esfregam-se em pureza, mas alimentam-se com eles em impureza (a etapas de embeber e esfregar exigem pureza ritual, mas dá-los de comer ao gado pode ser feito mesmo em impureza). E a Casa de Hilel diz: embebem-se em pureza, mas esfregam-se e alimentam-se com eles em impureza (a Casa de Hilel exige pureza apenas na etapa de embeber, sendo mais permissiva que a Casa de Shamai quanto ao esfregar). Shamai diz: devem ser comidos secos (sem serem embebidos em água, evitando torná-los suscetíveis à impureza). Rabi Akiva diz: todo o seu processamento se faz em impureza (posição ainda mais permissiva — nenhuma etapa exige pureza).

כַּרְשִׁינֵי מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, יֵאָכְלוּ צִמְחוֹנִים, וְנִכְנָסִין לִירוּשָׁלַיִם וְיוֹצְאִין. נִטְמְאוּ, רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, יִתְחַלְּקוּ לְעִסּוֹת, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יִפָּדוּ. וְשֶׁל תְּרוּמָה, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, שׁוֹרִין וְשָׁפִין בְּטָהֳרָה, וּמַאֲכִילִין בְּטֻמְאָה. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, שׁוֹרִין בְּטָהֳרָה, וְשָׁפִין וּמַאֲכִילִין בְּטֻמְאָה. שַׁמַּאי אוֹמֵר, יֵאָכְלוּ צָרִיד. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, כָּל מַעֲשֵׂיהֶן בְּטֻמְאָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O caso do karshin ilustra, mais uma vez, o princípio de que só se consome do dízimo aquilo que é próprio para consumo humano, e do modo em que costuma ser consumido.

Devarim (Deuteronômio) 14:23
וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם, מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"E comerás diante do Eterno, teu D-us, no lugar que Ele escolher para ali fazer habitar Seu nome, o dízimo de teu grão" (Devarim 14:23) — o karshin (favas ou vícia, usadas normalmente como forragem para animais) só é considerado "alimento" apto ao dízimo em situações de necessidade, quando também é comido por seres humanos em tempos de escassez. Por isso, assim como o tiltan da mishná anterior, o karshin do dízimo só pode ser comido verde — o único estado em que é minimamente palatável para pessoas. A permissão excepcional de tirá-lo de Jerusalém depois de entrar reflete precisamente seu status marginal como alimento: por não ser um produto agrícola pleno como o grão, o vinho ou o azeite, os sábios não aplicaram a ele a rigorosa restrição territorial que protege os demais produtos do segundo dízimo.

Por que o karshin pode sair de Jerusalém, ao contrário da regra geral? A regra geral do segundo dízimo é que, uma vez que os frutos entram dentro dos limites de Jerusalém, eles não podem mais ser retirados de lá — devem ser consumidos ali. O karshin é uma exceção porque, sendo primariamente forragem animal e apenas secundariamente alimento humano (em tempos de necessidade), os sábios entenderam que não é razoável prender esse produto dentro da cidade como se fosse um alimento pleno destinado à "refeição sagrada" do dízimo. Da mesma forma, o debate sobre o que fazer se o karshin ficar impuro reflete seu status ambíguo: Rabi Tarfon sustenta que, por não ser plenamente "alimento", não vale a pena resgatá-lo formalmente (não se resgatam coisas sagradas apenas para alimentar animais), preferindo distribuí-lo em pequenas porções dentro de massas de pão puras, onde, por serem inferiores à medida mínima (kabeitza), não transmitem nem recebem impureza; os sábios, por outro lado, tratam-no como qualquer outro produto do segundo dízimo, sujeito a resgate.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá segue os sábios contra Rabi Tarfon quanto ao resgate do karshin impuro; as regras específicas de processamento do karshin da teruma pertencem a Hilchot Terumot e Hilchot Tumat Ochlin, sem uma seção dedicada equivalente em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 3:3 (princípio geral do resgate do dízimo impuro)
כְּבָר בֵּאַרְנוּ שֶׁהַמַּעֲשֵׂר שֶׁנִּטְמָא אֲפִלּוּ בִּירוּשָׁלַיִם פּוֹדִין וְיֵאָכֵל.
"Já explicamos que o dízimo que ficou impuro, mesmo em Jerusalém, resgata-se e come-se (seu valor resgatado)" (este é o princípio geral que fundamenta a posição dos sábios nesta mishná — de que o karshin impuro deveria, como qualquer outro produto do dízimo, ser resgatado. O Rambam não dedica uma halachá específica ao caso do karshin dentro de Hilchot Maaser Sheni; a posição de Rabi Tarfon, de distribuí-lo em massas por não valer a pena resgatá-lo dada sua condição marginal como alimento, não foi codificada como norma, prevalecendo a posição dos sábios de resgatá-lo normalmente).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:4
הַכַּרְשִׁינִין הֵם נִקְרָאִין בְּעַרְבִי כרסנא, וְאֵינָם מַאֲכַל אָדָם, וְגַם כֵּן הִקְפִּיד עֲלֵיהֶם שֶׁיֵּאָכְלוּ צִמְחוֹנִים מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי קֹדֶם שֶׁיִּתְיַבְּשׁוּ וְיִפָּסְלוּ מֵאוֹכֶל אָדָם, וּמֻתָּר לְהוֹצִיאָם מִירוּשָׁלַיִם אַחַר שֶׁיַּגִּיעוּ לְשָׁם, לְפִי שֶׁאֵינָם פֵּרוֹת.

O karshin é chamado em árabe de kirsanna, e não é alimento humano (no sentido pleno). E por isso também foi rigoroso quanto a ele, exigindo que seja comido verde do dinheiro do segundo dízimo, antes que sequem e se tornem impróprios para o consumo humano. E é permitido tirá-los de Jerusalém depois de chegarem lá, porque não são propriamente "frutos" (no sentido técnico da restrição territorial, que se aplica apenas a produtos agrícolas plenos, destinados centralmente ao consumo humano — não a uma forragem eventualmente comestível).

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה (continuação — Rabi Tarfon e o resgate de coisas sagradas)
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:4
וְרַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר אֵין פּוֹדִין קָדָשִׁים לְהַאֲכִילָן לַכְּלָבִים, וְהַמַּעֲשֵׂר קֹדֶשׁ, וּלְפִיכָךְ אוֹמֵר שֶׁיִּתְחַלֵּק לְעִסּוֹת עַד שֶׁיִּתֵּן מִמֶּנָּה לְכָל עִסָּה פָּחוֹת מִכַּבֵּיצָה.

E Rabi Tarfon diz que não se resgatam coisas sagradas para dá-las de comer aos cães, e o dízimo é sagrado; por isso diz que deve ser distribuído em massas, até que se coloque em cada massa menos do que o volume de um ovo (esta medida — kabeitza — é o limiar mínimo abaixo do qual um alimento não transmite nem recebe impureza, tornando seguro incluir o karshin impuro nas massas puras sem contaminá-las).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:4
כַּרְשִׁינֵי. בִּלְשׁוֹן עֲרָבִי כרסנ"א, וְאֵינָם מַאֲכַל אָדָם אֶלָּא מִדֹּחַק בִּשְׁנוֹת רְעָבוֹן. וְנִכְנָסִים לִירוּשָׁלַיִם וְיוֹצְאִים. אַף עַל גַּב דְּבִשְׁאָר פֵּרוֹת קַיְמָא לָן דְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי הַנִּכְנַס לִירוּשָׁלַיִם אֵין יְכוֹלִין לְהוֹצִיאוֹ מִשָּׁם, בְּכַרְשִׁינִין הֵקֵלּוּ. יֵאָכְלוּ צָרִיד. לְשׁוֹן יֹבֶשׁ... כְּלוֹמַר יֵאָכְלוּ יְבֵשִׁים, שֶׁלֹּא יְהֵא עֲלֵיהֶם מַשְׁקֶה בִּשְׁעַת אֲכִילָה, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִהְיֶה נִכָּר שֶׁהֻכְשְׁרוּ לְקַבֵּל טֻמְאָה.

"Karshin": em árabe, kirsanna, e não é alimento humano, exceto por necessidade em anos de fome. "Entram em Jerusalém e saem": embora quanto aos demais frutos estabelecemos que o segundo dízimo que entrou em Jerusalém não pode mais sair de lá, quanto ao karshin foram leves (dada sua condição marginal como alimento). "Devem ser comidos secos" (posição de Shamai): expressão que significa "seco" (referindo-se ao lugar da oferenda de farinha onde o óleo não chegou)... isto é, devem ser comidos secos, sem que haja líquido sobre eles no momento de comer, para que não seja perceptível que foram tornados aptos a receber impureza (pois a água ativa a suscetibilidade à impureza, e Shamai prefere evitar até essa aparência).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. A halachá segue os sábios (não Rabi Tarfon) quanto ao resgate do karshin impuro, e segue os sábios (não Shamai, nem Rabi Akiva) quanto ao processamento do karshin da teruma.