Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Bet · Mishná 3

"O tiltan do segundo dízimo se come verde"

תִּלְתָּן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, תֵּאָכֵל צִמְחוֹנִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa a explicar o caso do karshin e do tiltan mencionado por Rabi Shimon: o tiltan (feno-grego) do segundo dízimo só pode ser comido verde, como verdura, enquanto o tiltan da teruma pode ser comido também depois de seco; e há uma controvérsia entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre em qual etapa do processamento do tiltan da teruma exige-se pureza ritual das mãos

O tiltan do segundo dízimo se come verde (enquanto ainda é uma verdura tenra, e não depois de seco e endurecido). Mas o da teruma — a Casa de Shamai diz: todo o seu processamento se faz em pureza, exceto sua lavagem (ou seja, requer-se lavagem das mãos antes de tocar o tiltan em cada etapa de sua preparação, menos na etapa de esfregar/lavar os grãos); e a Casa de Hilel diz: todo o seu processamento se faz em impureza, exceto seu embebimento (isto é, não se exige pureza ritual em nenhuma etapa, exceto ao embebê-lo em água).

תִּלְתָּן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, תֵּאָכֵל צִמְחוֹנִים. וְשֶׁל תְּרוּמָה, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, כָּל מַעֲשֶׂיהָ בְּטָהֳרָה, חוּץ מֵחֲפִיפָתָהּ. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, כָּל מַעֲשֶׂיהָ בְטֻמְאָה, חוּץ מִשְּׁרִיָּתָהּ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná trata de um produto marginal — o tiltan, mal considerado alimento humano pleno — sob a ótica das mesmas leis de consumo do segundo dízimo em seu modo habitual, já vistas em Maaser Sheni 2:1.

Devarim (Deuteronômio) 14:23
וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם, מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"E comerás diante do Eterno, teu D-us, no lugar que Ele escolher para ali fazer habitar Seu nome, o dízimo de teu grão" (Devarim 14:23) — como visto em Maaser Sheni 2:1, o segundo dízimo só pode ser consumido "do modo como costuma ser consumido". O tiltan (feno-grego) é um caso-limite: não é, em sentido pleno, "alimento humano", mas é comestível por algumas pessoas enquanto ainda verde e tenro. Por isso, a regra específica desta mishná — que o tiltan do dízimo só pode ser comido verde — decorre diretamente daquele princípio geral: uma vez seco, o tiltan deixa de ser adequado para o consumo humano comum, e não pode mais ser tratado como um uso legítimo do dízimo. A comparação com a teruma, que segue regras de pureza ritual distintas (por ser proibida a não-sacerdotes e mais sensível à impureza), estabelece o pano de fundo do argumento de Rabi Shimon na mishná anterior.

Por que o tiltan é tratado de forma diferente entre teruma e maaser sheni? O tiltan não é, tecnicamente, um "alimento" pleno como o trigo ou o azeite — é consumido apenas por uma minoria de pessoas, e apenas enquanto verde. Por isso as leis de teruma quanto a ele já são, em si, mais brandas do que as leis que regem grãos plenamente alimentícios: mesmo a teruma de tiltan pode, segundo a Casa de Hilel, ser manuseada em impureza na maior parte de seu processamento, algo impensável para trigo de teruma. Já quanto ao segundo dízimo, os sábios foram mais estritos: o tiltan do dízimo só pode ser comido enquanto verde — não se permite guardá-lo até secar, como se faz com outros produtos do dízimo, que podem ser guardados e consumidos mais tarde. Essa é precisamente a "leveza da teruma" e o "rigor do dízimo" a que Rabi Shimon se referia na mishná anterior: quanto ao tiltan e ao karshin, os sábios inverteram a expectativa normal, sendo mais brandos na teruma (mais severa em princípio) do que no segundo dízimo (mais brando em princípio).

Halachot · הֲלָכוֹת

A controvérsia sobre a pureza ritual do processamento do tiltan da teruma pertence propriamente ao âmbito de Hilchot Tumat Ochlin (as leis de impureza dos alimentos) e Hilchot Terumot, não a Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva. Não há, no Mishné Torá, halachá dedicada e equivalente na seção do segundo dízimo — o próprio Rambam, em seu comentário à Mishná, remete o leitor às leis de teruma e de impureza de alimentos para o detalhamento técnico deste caso.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 3:10-11 (princípio geral, já citado em 2:1)
מַעֲשֵׂר אוֹכֵל דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לְהֵאָכֵל וְשׁוֹתֶה דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לִשְׁתּוֹת.
"O dízimo come-se aquilo que costuma ser comido, e bebe-se aquilo que costuma ser bebido" (este princípio geral, já codificado no capítulo 3 a propósito da mishná 2:1, é a base halájica sobre a qual se apoia a regra específica desta mishná: como o tiltan seco não costuma ser comido por pessoas — apenas verde —, o segundo dízimo de tiltan só pode ser consumido enquanto verde, e não guardado até secar. O Rambam não formulou uma halachá redigida especificamente para o caso do tiltan dentro de Hilchot Maaser Sheni; a regra dos processos de pureza do tiltan de teruma pertence a Hilchot Terumot e Hilchot Tumat Ochlin).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:3
תֵּאָכֵל צִמְחוֹנִים. עִנְיָנוֹ שֶׁיֵּאָכְלוּ כְּשֶׁהֵן לַחִים כְּמוֹ יְרָקוֹת, וְאֵין מֻתָּר לוֹ לְהַנִּיחָם שֶׁיִּתְיַבְּשׁוּ, כִּי אִם נִתְיַבְּשׁוּ לֹא יִהְיוּ רְאוּיוֹת לַאֲכִילָה. וּבִתְרוּמָה אָסוּר לוֹ לְהַנִּיחָם עַד שֶׁיִּגְדְּלוּ.

"Come-se verde": significa que se coma enquanto ainda estão úmidos, como verduras, e não é permitido deixá-los secar, pois, se secarem, não serão mais adequados para o consumo (no caso do segundo dízimo — pois, uma vez seco, o tiltan deixa de ser "algo que costuma ser comido" no seu estado atual). E na teruma, é proibido deixá-los até crescerem (ou seja, mesmo na teruma há uma restrição de tempo, embora distinta: não se pode esperar que cresçam demais e endureçam, ainda que a teruma seca possa ser comida em outras condições).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:3
תֵּאָכֵל צִמְחוֹנִים. כְּשֶׁהֵן יְרָקוֹת לַחִין, וְלֹא יְנִיחֵם עַד שֶׁיִּגְדְּלוּ וְלֹא יִהְיוּ רְאוּיוֹת לַאֲכִילָה. אֲבָל בִּתְרוּמָה תֵּאָכֵל בֵּין צִמְחוֹנִין בֵּין יְבֵשִׁים. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים כָּל מַעֲשֶׂיהָ בְּטָהֳרָה. אַף עַל גַּב דְּתִלְתָּן לָאו אֹכֶל גָּמוּר הוּא, וְאֵין תְּרוּמָה נוֹהֶגֶת בּוֹ אֶלָּא לְפִי שֶׁנֶּאֱכָל לִקְצַת בְּנֵי אָדָם, הִלְכָּךְ נֶאֱכָל בְּטֻמְאָה, מִכָּל מָקוֹם לְבֵית שַׁמַּאי צָרִיךְ שֶׁיִּהְיוּ כָּל מַעֲשֶׂיהָ בְּטָהֳרָה וּבִנְטִילַת יָדַיִם. חוּץ מֵחֲפִיפָתָהּ. שֶׁבְּלֹא נְטִילַת יָדַיִם יְכוֹלִים לָחוֹף בָּהֶן רֹאשָׁן.

"Come-se verde": quando são verduras úmidas, e não deve deixá-las até crescerem, pois deixariam de ser próprias para o consumo. Mas na teruma, come-se tanto verde quanto seco. "A Casa de Shamai diz: todo o seu processamento se faz em pureza": embora o tiltan não seja um alimento pleno, e a teruma só se aplica a ele porque é comido por algumas pessoas — por isso é comido na teruma mesmo em impureza (regra normalmente aplicada a alimentos secundários) —, ainda assim a Casa de Shamai exige que todo o seu processamento se faça em pureza e com lavagem das mãos, como qualquer outro alimento de teruma, onde quem o toca precisa antes lavar as mãos (a razão é para que as pessoas saibam que se trata de teruma e não o comam sendo não-sacerdotes). "Exceto sua lavagem": pois, sem lavar as mãos, ainda podem lavar a cabeça com ele — e assim costumavam lavar a cabeça com tiltan.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא (continuação — a posição de Bet Hilel)
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:3
כָּל מַעֲשֶׂיהָ בְטֻמְאָה חוּץ מִשְּׁרִיָּתָהּ. בְּמַיִם, שֶׁצָּרִיךְ לִשְׁרוֹתָן בְּטָהֳרָה. שֶׁאִם שׁוֹרֶה אוֹתָן בְּלֹא נְטִילַת יָדַיִם שְׁרִיָּתָן מַכְשִׁירָתָן לְקַבֵּל טֻמְאָה, וְהוּא מְטַמְּאָן מִיָּד בְּיָדָיו. וְאָסְרוּ זֶה בִּלְבָד מִשּׁוּם הֶכֵּר כְּדֵי שֶׁיֵּדְעוּ שֶׁהִיא תְּרוּמָה.

"Todo o seu processamento se faz em impureza, exceto seu embebimento": em água, pois é necessário embebê-lo em pureza. Porque, se o embebe sem lavar as mãos, o próprio embebimento os torna aptos a receber impureza (a água ativa a suscetibilidade à impureza), e ele os torna impuros imediatamente com suas próprias mãos (que, sem lavagem, são consideradas ritualmente "segundas" e transmitem impureza leve à teruma). E proibiram apenas esta etapa, como sinal distintivo, para que se saiba que se trata de teruma (mesmo que todo o resto do processo seja permitido em impureza, exige-se pureza nesse único momento, para que não se esqueça que o produto é sagrado).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.