Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Bet · Mishná 2

"Rabi Shimon diz: não se unta com azeite do segundo dízimo em Jerusalém"

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין סָכִין שֶׁמֶן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Shimon restringe o uso da untura em Jerusalém, receando que alguém lucre com o dinheiro do dízimo ao cobrar pela untura; os sábios discordam. Rabi Shimon defende sua posição com um argumento a fortiori: se mesmo na teruma — mais rigorosa — os sábios foram rigorosos quanto ao karshin e ao tiltan, não deveriam ser mais leves no segundo dízimo — mais leve — justamente onde eles próprios não foram rigorosos com esses mesmos produtos

Rabi Shimon diz: não se unta com azeite do segundo dízimo em Jerusalém (pois isso equivaleria a lucrar com o dinheiro sagrado, já que a mão de quem unta se beneficia do próprio ato). Mas os sábios permitem (por não considerarem esse benefício residual como um lucro proibido). Disseram a Rabi Shimon: se foram leves quanto à teruma, mais rigorosa, não seremos leves quanto ao segundo dízimo, mais leve? (a lógica normal seria: se algo é permitido no que é mais estrito, com mais razão deveria ser permitido no que é mais brando). Disse-lhes: não é assim — se foram leves quanto à teruma, mais rigorosa, no ponto em que foram leves quanto ao karshin e ao tiltan, seremos leves quanto ao segundo dízimo, mais leve, no ponto em que não foram leves quanto ao karshin e ao tiltan? (Rabi Shimon inverte o argumento: já que os próprios sábios trataram o karshin e o tiltan de forma mais rigorosa no segundo dízimo do que na teruma, não faz sentido ser leve quanto à untura no dízimo, pois essa leveza não seria coerente com o rigor que eles mesmos aplicam em outros pontos).

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין סָכִין שֶׁמֶן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם. וַחֲכָמִים מַתִּירִין. אָמְרוּ לוֹ לְרַבִּי שִׁמְעוֹן, אִם הֵקֵל בִּתְרוּמָה חֲמוּרָה, לֹא נָקֵל בְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי הַקַּל. אָמַר לָהֶם, מַה, לֹא, אִם הֵקֵל בִּתְרוּמָה הַחֲמוּרָה מְקוֹם שֶׁהֵקֵל בְּכַרְשִׁינִים וּבְתִלְתָּן, נָקֵל בְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי הַקַּל מְקוֹם שֶׁלֹּא הֵקֵל בְּכַרְשִׁינִים וּבְתִלְתָּן:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná discute o mesmo uso de sikhá (untura) apresentado na mishná anterior, com base no mesmo princípio bíblico.

Devarim (Deuteronômio) 14:23
וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם, מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
"E comerás diante do Eterno, teu D-us, no lugar que Ele escolher para ali fazer habitar Seu nome, o dízimo de teu grão, teu mosto e teu azeite" (Devarim 14:23) — a controvérsia entre Rabi Shimon e os sábios não é sobre se untar é, em princípio, um uso permitido do azeite do dízimo (ambos concordam que é, como visto na mishná anterior), mas sobre um detalhe específico: se, precisamente em Jerusalém — o único lugar onde o dízimo é legitimamente consumido — a untura pode envolver um benefício indireto que se assemelha a extrair lucro do dinheiro sagrado, o que tocaria a proibição geral de tratar o segundo dízimo como propriedade comercializável (já estudada em Maaser Sheni 1:1).

Qual é exatamente a preocupação de Rabi Shimon? Segundo a tradição interpretativa, o cenário por trás desta mishná é o seguinte: alguém em Jerusalém quer untar-se com azeite do segundo dízimo, mas não tem as próprias mãos livres ou prefere que outra pessoa faça a untura por ele. Se paga a essa pessoa pelo serviço — mesmo que o pagamento seja apenas o próprio azeite que gruda na mão de quem unta — isso constituiria, para Rabi Shimon, uma forma de tirar proveito comercial do dinheiro do dízimo, o que é proibido (como visto em Maaser Sheni 1:1, sobre mamon gavoah). Os sábios discordam porque não veem esse resíduo de azeite na mão como um "pagamento" real — é um subproduto incidental do próprio ato de untar, sem valor comercial relevante. O argumento a fortiori que se segue é técnico: normalmente, se algo é permitido na teruma (regida por proibições mais severas, já que é proibida a não-sacerdotes), seria natural presumir que também é permitido no segundo dízimo (regido por proibições mais brandas, pois pode ser consumido por qualquer israelita em Jerusalém). Mas Rabi Shimon nota uma exceção notável: no caso específico do karshin (favas usadas como forragem) e do tiltan (feno-grego), os sábios foram mais leves quanto à pureza ritual na teruma do que no segundo dízimo — como será detalhado nas próximas duas mishnayot. Por isso, argumenta ele, não se pode aplicar automaticamente ao dízimo a leveza da teruma quanto à untura, já que em outros pontos os sábios já demonstraram que tratam o dízimo com mais rigor, não menos.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam decide a halachá conforme os sábios (não conforme Rabi Shimon) em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 3.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 3:16
מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אַף עַל פִּי שֶׁנִּתָּן לְסִיכָה אֵין נוֹתְנִין אוֹתוֹ לֹא עַל גַּבֵּי צִינִית וְלֹא עַל גַּבֵּי חֲזָזִית. וְאֵין עוֹשִׂין מִמֶּנּוּ קָמֵעַ וְכַיּוֹצֵא בּוֹ שֶׁהֲרֵי לֹא נִתַּן לִרְפוּאָה.
"O segundo dízimo, ainda que seja dado para untura, não se coloca sobre uma frieira nem sobre uma erupção cutânea. E não se faz dele amuleto nem coisa semelhante, pois não foi dado para cura" (o Rambam não decide explicitamente entre Rabi Shimon e os sábios quanto ao caso específico de Jerusalém, mas a halachá segue os sábios, que permitem a untura comum; a restrição do Rambam aqui é de outra ordem — traça o limite entre untura normal, permitida, e uso medicinal ou mágico, proibido, reafirmando que os únicos usos legítimos do dízimo são os três da mishná anterior: comer, beber e untar no sentido comum).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:2
רַבִּי שִׁמְעוֹן אֵינוֹ חוֹלֵק עַל דִּבְרֵי הַקּוֹדֵם, לְפִי שֶׁמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי נִתָּן לְסִיכָה כְּמוֹ שֶׁסָּבַר מִי שֶׁלֹּא הֵבִין דִּבְרֵי רַבִּי שִׁמְעוֹן וּמַחֲלָקְתּוֹ... אֶלָּא שֶׁדִּבְרֵי רַבִּי שִׁמְעוֹן, וְהוּא שֶׁהוּא אוֹמֵר: אָסוּר לָאָדָם שֶׁיֹּאמַר לַחֲבֵרוֹ בִּירוּשָׁלַיִם, שֶׁהוּא מָקוֹם מְיֻחָד לְהוֹצָאַת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, שֶׁיִּמְשַׁח אוֹתוֹ בְּשֶׁמֶן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְשֶׁתִּמְשַׁח יַד הַמּוֹשְׁחוֹ וְתִהְיֶה שְׂכָרוֹ עַל הַמְּשִׁיחָה שֶׁמְּשָׁחוֹ, וְזֶה אֵינוֹ מֻתָּר.

Rabi Shimon não discorda do que foi dito antes (na mishná anterior), pois o segundo dízimo é dado para untura, como pensou quem não entendeu bem as palavras de Rabi Shimon e sua controvérsia... mas o que Rabi Shimon realmente diz é isto: é proibido a alguém dizer ao seu companheiro em Jerusalém — que é o lugar específico para o consumo do segundo dízimo — que o unte com azeite do segundo dízimo, de modo que a mão de quem unta também se unte, e que isso seja seu pagamento pelo ato de untá-lo; e isso não é permitido (o Rambam esclarece que a disputa não é sobre o princípio geral da untura, mas sobre este caso muito específico em que a untura funciona disfarçadamente como forma de pagamento a um terceiro).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:2
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר אֵין סָכִין. קָסָבַר לֹא נִתָּן שֶׁמֶן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי לְסִיכָה אֶלָּא לַאֲכִילָה בִּלְבָד. אִם הֵקֵל בִּתְרוּמָה. שֶׁאַתָּה מוֹדֶה דְּמֻתֶּרֶת בְּסִיכָה, כְּדִתְנַן בְּפֶרֶק שְׁמִינִי דִּשְׁבִיעִית וְכֵן בִּתְרוּמָה וְכֵן בְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וְלֹא קָא מִפְלָגַת בִּתְרוּמָה. שֶׁהֵקֵל בְּכַרְשִׁינִין וּבְתִלְתָּן. שֶׁל תְּרוּמָה יוֹתֵר מִבְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, כִּדְבָעִינַן לְמֵימַר לְקַמָּן, הִלְכָּךְ דִּין הוּא נַמִּי שֶׁנָּקֵל בְּסִיכָה גַּבֵּי תְרוּמָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

"Rabi Shimon diz: não se unta": ele entende que o azeite do segundo dízimo não é dado para untura, mas apenas para comer (nota do Bartenura: esta é uma leitura alternativa, mais literal, da posição de Rabi Shimon — diferente da interpretação mais matizada do Rambam). "Se foram leves quanto à teruma": pois tu concordas que ela é permitida para untura, como ensinamos no oitavo perek de Sheviit, e o mesmo vale para a teruma e para o segundo dízimo, e não há distinção quanto à teruma. "Que foram leves quanto ao karshin e ao tiltan": da teruma, mais do que no segundo dízimo, como precisamos dizer adiante; portanto é lógico também sermos leves quanto à untura em relação à teruma. E a halachá não segue Rabi Shimon (a decisão final favorece os sábios, que permitem a untura em Jerusalém sem restrição).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.