A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Abre-se o segundo perek com os três usos permitidos do segundo dízimo — comer, beber e untar — restritos ao modo habitual de cada produto; proíbe-se aromatizar o azeite do dízimo, mas permite-se aromatizar o vinho; e estabelece-se a regra do hishbach: quando o produto do dízimo se mistura com outro e ganha valor, esse ganho de valor se reparte proporcionalmente ou pertence inteiramente ao dízimo, conforme seja ou não perceptível
O segundo dízimo é dado para comer, para beber e para untar (estes são os três usos permitidos, e nenhum outro): para comer aquilo que costuma ser comido, para untar aquilo que costuma ser untado (ou seja, cada produto só pode ser usado conforme seu uso natural e comum). Não deve untar-se com vinho e vinagre, mas unta-se com o azeite (pois só o azeite é habitualmente usado para untar o corpo). Não se aromatiza o azeite do segundo dízimo (misturando-lhe especiarias, o que desperdiçaria parte do azeite), e não se compra com o dinheiro do segundo dízimo azeite aromatizado (pois é um produto de luxo, e não um bem acessível a todos), mas aromatiza-se o vinho (pois o vinho aromatizado não perde substância no processo, apenas ganha sabor). Se caiu nele mel e especiarias e ele aumentou de valor, o aumento se divide proporcionalmente (entre o valor original do dízimo e o valor do que foi acrescentado). Peixes que foram cozidos com alho-poró do segundo dízimo e aumentaram de valor, o aumento se divide proporcionalmente (pelo mesmo princípio). Massa do segundo dízimo que foi assada e aumentou de valor, o aumento pertence ao segundo dízimo (por inteiro, sem divisão). Esta é a regra: tudo cujo aumento é perceptível, o aumento se divide proporcionalmente; e tudo cujo aumento não é perceptível, o aumento pertence ao segundo dízimo (por inteiro).
מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, נִתָּן לַאֲכִילָה וְלִשְׁתִיָּה וּלְסִיכָה, לֶאֱכֹל דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לֶאֱכֹל, לָסוּךְ דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לָסוּךְ. לֹא יָסוּךְ יַיִן וְחֹמֶץ, אֲבָל סָךְ הוּא אֶת הַשֶּׁמֶן. אֵין מְפַטְּמִין שֶׁמֶן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, וְאֵין לוֹקְחִין בִּדְמֵי מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁמֶן מְפֻטָּם, אֲבָל מְפַטֵּם הוּא אֶת הַיַּיִן. נָפַל לְתוֹכוֹ דְבַשׁ וּתְבָלִין וְהִשְׁבִּיחוֹ, הַשֶּׁבַח לְפִי חֶשְׁבּוֹן. דָּגִים שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ עִם הַקַּפְלוֹטוֹת שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהִשְׁבִּיחוּ, הַשֶּׁבַח לְפִי חֶשְׁבּוֹן. עִסָּה שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁאֲפָאָהּ וְהִשְׁבִּיחַ, הַשֶּׁבַח לַשֵּׁנִי. זֶה הַכְּלָל, כָּל שֶׁשִּׁבְחוֹ נִכָּר, הַשֶּׁבַח לְפִי הַחֶשְׁבּוֹן. וְכָל שֶׁאֵין שִׁבְחוֹ נִכָּר, הַשֶּׁבַח לַשֵּׁנִי:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Com esta mishná abre-se o segundo perek de Massechet Maaser Sheni, dedicado aos usos permitidos do dízimo consumido em Jerusalém e às regras de câmbio (chilul) de seu dinheiro.
Devarim (Deuteronômio) 14:23, 26
וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם, מַעְשַׂר דְּגָנְךָ תִּירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ... וְנָתַתָּה הַכֶּסֶף בְּכֹל אֲשֶׁר תְּאַוֶּה נַפְשְׁךָ בַּבָּקָר וּבַצֹּאן וּבַיַּיִן וּבַשֵּׁכָר וּבְכֹל אֲשֶׁר תִּשְׁאָלְךָ נַפְשֶׁךָ, וְאָכַלְתָּ שָּׁם לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ וְשָׂמַחְתָּ אַתָּה וּבֵיתֶךָ.
"E comerás diante do Eterno, teu D-us, no lugar que Ele escolher para ali fazer habitar Seu nome, o dízimo de teu grão, teu mosto e teu azeite... e darás o dinheiro por tudo que tua alma desejar, por gado e por rebanho, e por vinho e por bebida forte, e por tudo que tua alma pedir, e comerás ali diante do Eterno, teu D-us, e te alegrarás, tu e tua casa" (Devarim 14:23, 26) — a Torá menciona explicitamente "comer" (akhilá) e, ao listar vinho e bebida forte entre os itens que podem ser adquiridos com o dinheiro do dízimo resgatado, os sábios incluem também "beber" (shetiyá) como uso legítimo. A "untura" (sikhá) é equiparada à bebida por analogia com Tehilim 109:18, onde a unção com óleo é descrita em paralelo à ingestão de água — "e entrou como água em suas entranhas, e como azeite em seus ossos" — mostrando que untar o corpo é, para efeitos halájicos, um modo de "consumir" o produto tão legítimo quanto comê-lo ou bebê-lo.
Por que apenas três usos, e por que restritos ao modo habitual? A Torá é explícita: o segundo dízimo deve ser consumido "diante do Eterno" — ou seja, para a alegria e o sustento do dono, não para qualquer finalidade material. Comer, beber e untar esgotam as formas pelas quais um alimento ou líquido é fisicamente incorporado e desfrutado pelo corpo; qualquer outro uso — por exemplo, aplicar azeite do dízimo como remédio tópico ou fazer dele um amuleto — extrapola essa finalidade e é vedado, como os próprios sábios ensinam alhures. E a exigência de que cada produto seja consumido "do modo como costuma ser consumido" garante que ninguém force o segundo dízimo a um uso atípico e desperdiçador — como comer pão mofado ou beber vinho estragado — sob o pretexto de que, afinal, "está escrito para comer". A proibição de aromatizar o azeite (mas não o vinho) decorre de uma diferença prática: as raízes e especiarias usadas para perfumar azeite absorvem parte do próprio azeite e o fazem perder-se, sem que o dono possa recuperá-lo — um desperdício real do dinheiro sagrado — ao passo que o vinho aromatizado permanece integralmente líquido e consumível.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica os princípios desta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 3, halachot 10 a 15, que tratam dos usos permitidos do segundo dízimo e da regra do hishbach.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 3:10-11
מַעֲשֵׂר שֵׁנִי נִתָּן לַאֲכִילָה וּשְׁתִיָּה שֶׁנֶּאֱמַר "וְאָכַלְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ". וְסִיכָה כִּשְׁתִיָּה. וְאָסוּר לְהוֹצִיאוֹ בִּשְׁאָר צְרָכָיו כְּגוֹן לִקַּח בּוֹ סְפָרִים אוֹ כֵּלִים... מַעֲשֵׂר אוֹכֵל דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לְהֵאָכֵל וְשׁוֹתֶה דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לִשְׁתּוֹת וְסָךְ דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לָסוּךְ. וְלֹא יָסוּךְ יַיִן וְחֹמֶץ אֲבָל סָךְ הוּא אֶת הַשֶּׁמֶן.
"O segundo dízimo é dado para comer e beber, como está dito: 'e comerás diante do Eterno, teu D-us'. E untar é como beber. E é proibido gastá-lo em outras necessidades, como comprar com ele livros ou utensílios (pois isso extrapola os três usos permitidos)... O dízimo come-se aquilo que costuma ser comido, e bebe-se aquilo que costuma ser bebido, e unta-se aquilo que costuma ser untado. E não deve untar-se com vinho e vinagre, mas unta-se com o azeite" (o Rambam amplia a mishná ao esclarecer, já no início, que os três usos permitidos são exaustivos — qualquer aplicação do dízimo fora de comer, beber ou untar é proibida, mesmo que também traga proveito ao dono).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 3:13-14
יַיִן שֶׁל מַעֲשֵׂר שֶׁנָּפַל לְתוֹכוֹ דְּבַשׁ וְהַתַּבְלִין וְהִשְׁבִּיחוּ הַשֶּׁבַח לְפִי חֶשְׁבּוֹן. וְכֵן דָּגִים שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ עִם קַפְלוֹטוֹת שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהִשְׁבִּיחוּ הַשֶּׁבַח לְפִי חֶשְׁבּוֹן. עִסָּה שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁאֲפָאָהּ וְהִשְׁבִּיחָה הַשֶּׁבַח לַשֵּׁנִי. זֶה הַכְּלָל כָּל שֶׁשִּׁבְחוֹ נִכָּר אִם הוֹתִיר בְּמִדָּה הַשֶּׁבַח לְפִי חֶשְׁבּוֹן. וְאִם לֹא הוֹתִיר הַמִּדָּה הַשֶּׁבַח לַשֵּׁנִי.
"Vinho do dízimo em que caiu mel e especiarias e aumentou de valor, o aumento se divide proporcionalmente. E do mesmo modo, peixes cozidos com alho-poró do segundo dízimo que aumentaram de valor, o aumento se divide proporcionalmente. Massa do segundo dízimo que foi assada e aumentou de valor, o aumento pertence ao segundo dízimo. Esta é a regra: tudo cujo aumento é perceptível, se acrescentou em medida, o aumento se divide proporcionalmente; e se não acrescentou em medida, o aumento pertence ao segundo dízimo" (o Rambam esclarece o critério prático: "aumento perceptível" significa que o ingrediente acrescentado é mensurável fisicamente — em volume ou peso —, e não apenas em sabor).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que abre o segundo perek de Massechet Maaser Sheni.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:1
הַתּוֹרָה אָמְרָה שֶׁיִּהְיֶה מַעֲשֵׂר שֵׁנִי לֶאֱכֹל שֶׁנֶּאֱמַר וְנָתַתָּה הַכֶּסֶף בְּכֹל אֲשֶׁר תְּאַוֶּה נַפְשְׁךָ, אֲבָל שֶׁיִּהְיֶה מֻתָּר לָסוּךְ בּוֹ הוּא דָּבָר נִסְמָךְ לְאָמְרוֹ יִתְעַלֶּה בְּמַעֲשֵׂר וְלֹא נָתַתִּי מִמֶּנּוּ לְמֵת... אֵיזֶהוּ דָּבָר שֶׁמֻּתָּר לְחַי וְאָסוּר לְמֵת, זוֹ סִיכָה.
A Torá disse que o segundo dízimo é para comer, como está dito "e darás o dinheiro por tudo que tua alma desejar". Mas que seja permitido untar-se com ele é algo apoiado no versículo "e não dei dele ao morto" (Devarim 26:14 — a declaração de quem separou os dízimos corretamente)... qual é a coisa que é permitida ao vivo e proibida ao morto? É a untura (pois um cadáver não é untado com óleo — logo, ao dizer que não deu do dízimo "ao morto", o versículo pressupõe que a untura é um uso normal e permitido para os vivos, donde se aprende que untar é um dos usos legítimos do segundo dízimo).
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:1 (continuação)
קַפְלוֹטוֹת. הֶחָצִיר הַנַּעֲשֶׂה בְּאֶרֶץ הַצְּבִי. וְהַמָּשָׁל בְּאָמְרוֹ הַשֶּׁבַח לְפִי חֶשְׁבּוֹן, שֶׁיִּהְיוּ פֵּרוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שָׁוֶה סֶלַע, וְהַחֻלִּין שֶׁנִּתְעָרְבוּ עִמָּהֶם אוֹ נִתְבַּשְּׁלוּ עִמָּהֶם שָׁוִים שְׁלֹשָׁה סְלָעִים, וּכְשֶׁיִּתְבַּשֵּׁל הַכֹּל אוֹ נִתְעָרֵב יִשְׁוֶה הַכֹּל חֲמִשָּׁה סְלָעִים, נִמְצָא שֶׁהַסֶּלַע הַנּוֹסָף יֵשׁ בּוֹ לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי הָרְבִיעַ.
"Kaflotot": o alho-poró que cresce na Terra de Israel (um vegetal comum, usado para dar sabor a caldos e cozidos). E o exemplo do que significa "o aumento se divide proporcionalmente": se os produtos do segundo dízimo valiam um sela, e os produtos comuns que se misturaram ou foram cozidos junto valiam três selaim, e depois de cozido ou misturado tudo o conjunto passa a valer cinco selaim, conclui-se que do sela adicional (o aumento de valor) um quarto pertence ao segundo dízimo (pois um sela era um quarto do valor total original de quatro selaim, então um quarto do ganho também lhe pertence — e assim se calcula, na mesma proporção, em qualquer outro caso).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:1
לֶאֱכֹל דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לֶאֱכֹל. שֶׁאִם קָנָה בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר פַּת וְנִתְעַפְּשָׁה, יַיִן וְהִקְרִים, תַּבְשִׁיל וְנִבְאַשׁ, אֵין מְחַיְּבִין אוֹתוֹ לֶאֱכֹל דָּבָר שֶׁאֵין דַּרְכּוֹ לֶאֱכֹל כְּדֵי שֶׁלֹּא יִפָּסְדוּ מָעוֹת שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי... אֵין מְפַטְּמִין אֶת הַשֶּׁמֶן. לָשִׂים בְּתוֹכוֹ עִקָּרִין וְרָאשֵׁי בְשָׂמִים, מִשּׁוּם דְּבָלְעֵי הַשֶּׁמֶן וְאָזֵיל לְאִבּוּד, שֶׁהַשָּׁרָשִׁים אֵינָן נֶאֱכָלִין. הַשֶּׁבַח לַשֵּׁנִי. וּפוֹדֶה אֶת הַפַּת בְּשָׁוְיוֹ, וְאֵין חוֹלְקִין הַשֶּׁבַח לָעֵצִים שֶׁל חֻלִּין, אֶלָּא כָּל הַשֶּׁבַח לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, לְפִי שֶׁאֵין שְׁבַח עֵצִים נִכָּר בַּפַּת.
"Para comer aquilo que costuma ser comido": pois, se comprou com dinheiro do dízimo pão e ele mofou, ou vinho e ele azedou, ou um cozido e ele apodreceu, não o obrigam a comer algo que não costuma ser comido (nesse estado deteriorado), para que não se perca o dinheiro do segundo dízimo (pois, embora estragado, o alimento ainda mantém alguma santidade e algum valor residual, que deve ser resgatado, não simplesmente comido à força)... "Não se aromatiza o azeite": colocando nele raízes e pontas de especiarias, pois estas absorvem o azeite e o fazem perder-se, já que as raízes não são comestíveis (o azeite absorvido pelas raízes é desperdiçado, pois não pode mais ser recuperado nem comido). "O aumento pertence ao segundo dízimo": e resgata-se o pão pelo seu valor (a lenha usada para assar), e não se divide o aumento com a lenha comum, mas todo o aumento pertence ao segundo dízimo, pois o aumento de valor devido à lenha não é perceptível no pão (a lenha se consome no forno e desaparece — seu efeito no pão é apenas o de cozê-lo, sem acrescentar-lhe substância mensurável).
Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Este segundo perek trata dos usos do dízimo (comer, beber e untar) e da regra do hishbach (mishná 1), da controvérsia entre Rabi Shimon e os sábios sobre untar-se em Jerusalém (mishná 2), do tiltan e do karshin do dízimo e da teruma (mishnayot 3-4), das misturas de moedas de chulin e maaser sheni (mishná 5), do resgate (chilul) de selaim misturados (mishná 6), da conversão em dinrei zahav (mishná 7), do câmbio de selaim em Jerusalém e fora dela (mishnayot 8-9), e encerra com o caso dos filhos parcialmente tmeim que bebem do mesmo jarro (mishná 10).