Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Dalet · Mishná 6 de 14

A filha do chalal varão, desqualificada para sempre

בַּת חָלָל זָכָר, פְּסוּלָה מִן הַכְּהֻנָּה לְעוֹלָם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata da transmissão, ao longo das gerações, do status de chalal (desqualificado do sacerdócio por nascimento de união sacerdotal proibida) — mostrando que ele se propaga por via masculina indefinidamente, mas se dissolve quando passa por uma filha.

A filha de um chalal varão é desqualificada do sacerdócio para sempre. Um israelita que desposou uma chalalá — sua filha é apta ao sacerdócio. Um chalal que desposou uma filha de israelita — sua filha é desqualificada do sacerdócio. Rabi Yehuda diz: a filha de um convertido varão é como a filha de um chalal varão.Se um homem descende, por linha masculina, de um chalal — mesmo depois de muitas gerações —, toda filha nascida dessa linhagem carrega a desqualificação para sempre, por mais distante que seja o chalal original. Mas o status se comporta de modo assimétrico conforme o sexo do progenitor: se é a mulher quem é chalalá e se casa com um israelita comum, a filha do casal já nasce apta ao sacerdócio — pois o status paterno (israelita íntegro) prevalece na filha. Se, ao contrário, é o homem quem é chalal e se casa com uma filha de israelita, a filha do casal já nasce desqualificada — pois o status paterno (chalal) volta a prevalecer. Rabi Yehuda estende esse mesmo raciocínio à filha de um convertido varão, equiparando-a à filha de um chalal varão.

בַּת חָלָל זָכָר, פְּסוּלָה מִן הַכְּהֻנָּה לְעוֹלָם. יִשְׂרָאֵל שֶׁנָּשָׂא חֲלָלָה, בִּתּוֹ כְשֵׁרָה לַכְּהֻנָּה. חָלָל שֶׁנָּשָׂא בַת יִשְׂרָאֵל, בִּתּוֹ פְסוּלָה לַכְּהֻנָּה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, בַּת גֵּר זָכָר כְּבַת חָלָל זָכָר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 4:6
בַּת חָלָל זָכָר פְּסוּלָה מִן הַכְּהֻנָּה לְעוֹלָם כוֹ': כְּשֶׁנָּשָׂא חָלָל לְבַת יִשְׂרָאֵל וְנוֹלַד לוֹ מִמֶּנָּה בֵּן, וְזֶה הַבֵּן נָשָׂא אֶת בַּת יִשְׂרָאֵל גַּם כֵּן וְנוֹלַד לוֹ מִמֶּנָּה בֵּן, וְנָשָׂא זֶה הַבֵּן הַשֵּׁנִי בַּת יִשְׂרָאֵל וְנוֹלַד לוֹ מִמֶּנָּה בַּת — זֹאת הַבַּת אֲסוּרָה לַכְּהֻנָּה, וַאֲפִלּוּ שֶׁתִּתְגַּלְגֵּל זֶה עַד אֶלֶף דּוֹרוֹת, וְזֶהוּ עִנְיַן מַה שֶּׁאָמְרוּ ״לְעוֹלָם״. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

Rambam ilustra com um exemplo de várias gerações: um chalal casa com uma filha de israelita e tem um filho; esse filho casa novamente com uma filha de israelita e tem outro filho; esse segundo filho casa com uma filha de israelita e tem uma filha — e essa filha, por mais distante que esteja do chalal original (ainda que “mil gerações” depois), permanece desqualificada do sacerdócio, pois a linhagem masculina segue sempre carregando o status de chalal adiante. É esse o sentido do “para sempre” da mishná. E a halachá não segue Rabi Yehuda quanto à equiparação da filha do convertido.

Bartenura · Kidushin 4:6
בַּת חָלָל זָכָר פְּסוּלָה מִן הַכְּהֻנָּה לְעוֹלָם. בַּת בְּנוֹ אוֹ בַּת בֶּן בְּנוֹ, עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת. אֲבָל בַּת בִּתּוֹ מִיִּשְׂרָאֵל כְּשֵׁרָה לַכְּהֻנָּה, דְּבַת חָלָל עַצְמָהּ מִיִּשְׂרָאֵל כְּשֵׁרָה לַכְּהֻנָּה: בַּת גֵּר זָכָר. אֲפִלּוּ מִיִּשְׂרְאֵלִית, פְּסוּלָה לַכְּהֻנָּה כְּבַת חָלָל זָכָר:

Bartenura confirma que a desqualificação de “para sempre” se refere à filha de seu filho, ou à filha do filho de seu filho, propagando-se por via masculina até o fim de todas as gerações — mas que a filha de sua filha (nascida de um israelita) já é apta ao sacerdócio, pois a própria filha do chalal, quando casada com israelita, gera filhos aptos. Sobre a posição de Rabi Yehuda, confirma que ele equipara integralmente a filha de um convertido varão — mesmo nascida de mãe israelita — à filha de um chalal varão, desqualificando-a do sacerdócio.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kiddushin 77a, s.v. מתני' בת חלל זכר; לעולם; ישראל שנשא חללה בתו כשירה לכהונה; חלל שנשא בת ישראל בתו פסולה; בת גר זכר
לְעוֹלָם — בַּת בְּנוֹ וּבַת בֶּן בְּנוֹ עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת שֶׁל חֲלָלִים, זָכָר בֶּן זָכָר, בַּת הָאַחֲרוֹן פְּסוּלָה כְּבַת הָרִאשׁוֹן, אֲבָל בַּת בִּתּוֹ מִיִּשְׂרָאֵל כְּשֵׁרָה, דְּלֹא חֲמִירָא בַּת חָלָל מֵחֲלָלָה, דְּאָמְרִינַן בִּתָּהּ שֶׁל חֲלָלָה מִיִּשְׂרָאֵל כְּשֵׁרָה לַכְּהֻנָּה: בַּת גֵּר זָכָר — וַאֲפִלּוּ מִיִּשְׂרְאֵלִית כְּבַת חָלָל זָכָר וּפְסוּלָה לַכְּהֻנָּה, אֲבָל בַּת גִּיּוֹרֶת מִיִּשְׂרָאֵל כְּשֵׁרָה:

Rashi esclarece que a expressão “para sempre” se refere especificamente à cadeia de descendência masculina — filho de chalal seguido de filho de chalal, sucessivamente —, cuja última filha nascida permanece tão desqualificada quanto a primeira. Mas ressalva que a filha de uma chalalá (quando casada com israelita), diferentemente, já é apta, pois a filha de uma chalalá não é tratada com mais severidade do que a própria chalalá — e a filha desta, quando nascida de israelita, é apta ao sacerdócio. Sobre a posição de Rabi Yehuda quanto à filha do convertido varão, confirma que ele a desqualifica mesmo quando nascida de mãe israelita, exatamente como a filha do chalal varão — mas ressalva que a filha de uma convertida, quando nascida de pai israelita, permanece apta.