Rabi Yehuda diz: um solteiro não deve pastorear gado, e dois solteiros não devem dormir sob uma única capa. Mas os Sábios permitem. Todo aquele cujo ofício é entre as mulheres não deve se recluir com as mulheres. E um homem não deve ensinar a seu filho um ofício entre as mulheres. — Rabi Yehuda propõe duas restrições adicionais para solteiros — não pastorear gado sozinho, e não dividir uma única capa com outro solteiro ao dormir —, por preocupação com transgressões, mas os Sábios discordam e permitem ambas as práticas. A mishná estabelece então um princípio mais amplo: qualquer homem cujo próprio ofício o coloca em contato constante e íntimo com mulheres — por exemplo, certos artesãos que atendem clientela predominantemente feminina — não deve, ainda assim, se recluir com elas, precisamente porque essa familiaridade cotidiana reduz a vigilância natural contra a transgressão. E, pela mesma razão, um pai não deve ensinar ao filho um ofício que o coloque estruturalmente entre mulheres.
Rabi Meir diz: sempre ensine o homem a seu filho um ofício limpo e leve, e ore Àquele a quem pertencem a riqueza e os bens — pois não há ofício que não tenha nele pobreza e riqueza, que não é da pobreza vinda do ofício, nem da riqueza vinda do ofício, mas tudo conforme seu mérito. — Rabi Meir aconselha que, ao escolher um ofício para o filho, prefira-se sempre um trabalho limpo — livre de sujeira ou de contato constante com o proibido — e leve, sem exigir esforço físico extenuante. Mas ele ressalva que, no fundo, o próprio ofício é indiferente para determinar riqueza ou pobreza: uma vez que o sustento de cada pessoa depende, em última instância, do seu mérito diante do Céu, e não do ofício especificamente escolhido, cabe orar diretamente Àquele a quem toda riqueza e todo bem pertencem, em vez de depositar a confiança apenas na escolha profissional.
Rabi Shimon ben Elazar diz: já viste, em toda a tua vida, um animal ou uma ave que tivesse um ofício? E, no entanto, eles se sustentam sem sofrimento. E não foram eles criados senão para me servir, e eu fui criado para servir a Quem me formou — não seria justo que eu me sustentasse sem sofrimento? Mas eu corrompi minhas ações e cortei meu próprio sustento. — Rabi Shimon ben Elazar observa que animais e aves, que não têm ofício algum, ainda assim se sustentam sem angústia — e conclui, a fortiori, que o ser humano, criado para um propósito ainda mais elevado (servir seu Criador, enquanto os animais foram criados apenas para servir o próprio ser humano), deveria, por lógica, sustentar-se com ainda menos esforço. Se isso não ocorre — se o ser humano precisa trabalhar arduamente pelo pão —, a causa não está na ordem natural das coisas, mas no próprio pecado humano, que corrompeu essa relação original e tornou necessário o esforço penoso do trabalho.
Abba Guryan, homem de Tzadyan, diz em nome de Abba Guryah: não ensine o homem a seu filho a ser condutor de asnos, condutor de camelos, barbeiro, marinheiro, pastor ou merceeiro, pois o ofício deles é ofício de assaltantes. Rabi Yehuda diz em seu nome: a maioria dos condutores de asnos são ímpios; e a maioria dos condutores de camelos são íntegros; a maioria dos marinheiros são piedosos; o melhor dos médicos vai para o Guehinom; e o mais íntegro dos açougueiros é sócio de Amalek. — Abba Guryan enumera seis ocupações que, por sua própria natureza — o contato com estradas isoladas, mercadorias alheias, ou a possibilidade constante de enganar clientes —, tendem estruturalmente a arrastar quem as exerce ao roubo ou à fraude, e por isso recomenda não ensiná-las ao filho. Rabi Yehuda, transmitindo em nome do mesmo Abba Guryah, refina essa avaliação com julgamentos mais específicos sobre o caráter típico de cada ofício: os condutores de asnos, majoritariamente ímpios; os condutores de camelos, que enfrentam o perigo do deserto e por isso costumam orar fervorosamente, majoritariamente íntegros; os marinheiros, expostos ao perigo constante do mar, majoritariamente piedosos; e, em contraste severo, mesmo o melhor dos médicos e o mais íntegro dos açougueiros são vistos com desconfiança moral extrema — o primeiro por vezes negligenciando vidas sem o devido cuidado, o segundo por lidar cotidianamente com o abate e a exploração de animais de um modo que pode embrutecer o caráter.
Rabi Nehorai diz: abandono todo ofício que há no mundo, e não ensino a meu filho senão Torá — pois o homem come de sua recompensa neste mundo, e o capital permanece para o Mundo Vindouro. E todos os demais ofícios não são assim: quando o homem chega à doença, ou à velhice, ou a sofrimentos, e não pode se ocupar de seu trabalho, eis que morre de fome. Mas a Torá não é assim — ela o guarda de todo mal em sua juventude, e lhe dá futuro e esperança em sua velhice. — Rabi Nehorai leva o argumento de Rabi Shimon ben Elazar ao seu extremo: se todo ofício traz consigo o risco de abandonar o trabalhador justamente quando ele mais precisa — na doença, na velhice, no sofrimento —, então o único investimento verdadeiramente seguro é a própria Torá, cujo estudo rende frutos imediatos (dos quais a pessoa já usufrui nesta vida) sem jamais consumir o capital principal, reservado integralmente para o Mundo Vindouro. Diferentemente de qualquer ofício, a Torá pode ser estudada em qualquer condição física, e por isso continua a sustentar espiritualmente a pessoa mesmo quando o corpo já não permite mais trabalhar.
Em sua juventude, o que ela diz? “Mas os que esperam no Eterno renovarão as forças” (Yeshayahu 40:31). Em sua velhice, o que ela diz? “Ainda darão frutos na velhice” (Tehilim 92:15). E assim se diz sobre Avraham nosso pai, que a paz esteja sobre ele: “E Avraham era velho, avançado em dias, e o Eterno abençoou Avraham em tudo” (Bereshit 24:1). E encontramos que Avraham nosso pai cumpriu toda a Torá antes mesmo de ela ter sido dada, como está dito: “Porquanto Avraham ouviu Minha voz, e guardou Minha guarda, Meus mandamentos, Meus estatutos e Minhas leis” (Bereshit 26:5).
A mishná encerra o tratado citando estes quatro versículos como prova de que o estudo da Torá — diferente de qualquer ofício mundano — sustenta a pessoa tanto na juventude quanto na velhice, tomando Avraham Avinu como exemplo vivo de alguém que, tendo guardado toda a Torá antes mesmo de ela ser dada no Sinai, foi abençoado “em tudo” em sua velhice avançada.
Rambam esclarece que, mesmo diante da necessidade de sustento, um homem cujo ofício o coloca constantemente entre mulheres não pode, de forma alguma, usar essa necessidade econômica como justificativa para se recluir com elas — a proibição de yichud não cede diante do argumento da subsistência. Confirma o dever de ensinar ao filho um ofício limpo, como o de barbeiro, entre os exemplos elencados. E, reafirmando um princípio já estabelecido, conclui que a halachá não segue Rabi Yehuda quanto às restrições adicionais para solteiros, já que o povo de Israel não é suspeito de relações proibidas com animais ou de pederastia. Com esta linha, Rambam encerra formalmente seu Perush haMishnayot para todo o tratado Kidushin.
Bartenura confirma que a halachá segue os Sábios contra Rabi Yehuda, pois o povo de Israel não é suspeito de relações homossexuais. Explica que “aquele cujo ofício é entre as mulheres” se refere a alguém cujo trabalho é voltado à clientela feminina, que por isso precisa dele com frequência — e justamente essa familiaridade constante torna o yichud com elas mais perigoso do que o normal, mesmo com várias mulheres ao mesmo tempo, pois elas se sentem à vontade com ele e podem encobri-lo. Sobre os ofícios listados por Abba Guryan, explica que todos eles envolvem oportunidade estrutural de furto — como os condutores que, ao pernoitar nas estradas, aproveitam para colher lenha e frutas de vinhedos alheios — e que o merceeiro, em especial, é “treinado na fraude”, habituado a diluir vinho com água e misturar pedrinhas ao trigo vendido — razão pela qual todo homem tem o dever de ensinar a seu filho um ofício limpo.
Com esta décima quarta mishná do Perek Dalet, encerra-se o Perek “הָאִישׁ מְקַדֵּשׁ” — e com ele, toda a Massechet Kidushin. A fórmula tradicional de encerramento, “hadran alach” (“voltaremos a ti”), expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado, mesmo depois de concluído — e é seguida da declaração “vessalika lah massechet Kidushin”, “e assim se encerra o tratado Kidushin”.
Ao longo de seus quatro perakim e quarenta e sete mishnayot, Kidushin tratou dos modos de efetivar o noivado (com dinheiro, documento ou relação conjugal), dos limites do agenciamento e da condição no casamento, das uniões proibidas e da linhagem de seus filhos, da disputa sobre a purificação da descendência mamzer, e — neste último perek — das dez linhagens trazidas por Ezra da Babilônia, do dever de investigar a ascendência de uma noiva, e das leis de reclusão (yichud) e do ofício a ensinar ao filho, encerrando com o elogio do estudo da Torá como o único “ofício” que não abandona o homem na velhice.
Com a conclusão de Massechet Kidushin, completa-se também a Seder Nashim inteira da Mishná — os sete tratados que regem as leis do casamento e da vida familiar em Israel: Yevamot, Ketubot, Nedarim, Nazir, Sotá, Guitin e, agora, Kidushin. O estudo da Mishná prossegue agora nas demais Ordens.