Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Dalet · Mishná 14 de 14 — encerrando o tratado e a Seder Nashim

Hadran: o ofício a ensinar ao filho, e o encerramento de Massechet Kidushin

לֹא יִרְעֶה רַוָּק בְּהֵמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do tratado abre com a posição de Rabi Yehuda sobre restrições adicionais para solteiros, rejeitada pelos Sábios, e prossegue com o princípio de que quem trabalha em contato constante com mulheres não deve se recluir com elas — nem ensinar ao filho um ofício que o coloque entre mulheres.

Rabi Yehuda diz: um solteiro não deve pastorear gado, e dois solteiros não devem dormir sob uma única capa. Mas os Sábios permitem. Todo aquele cujo ofício é entre as mulheres não deve se recluir com as mulheres. E um homem não deve ensinar a seu filho um ofício entre as mulheres.Rabi Yehuda propõe duas restrições adicionais para solteiros — não pastorear gado sozinho, e não dividir uma única capa com outro solteiro ao dormir —, por preocupação com transgressões, mas os Sábios discordam e permitem ambas as práticas. A mishná estabelece então um princípio mais amplo: qualquer homem cujo próprio ofício o coloca em contato constante e íntimo com mulheres — por exemplo, certos artesãos que atendem clientela predominantemente feminina — não deve, ainda assim, se recluir com elas, precisamente porque essa familiaridade cotidiana reduz a vigilância natural contra a transgressão. E, pela mesma razão, um pai não deve ensinar ao filho um ofício que o coloque estruturalmente entre mulheres.

רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, לֹא יִרְעֶה רַוָּק בְּהֵמָה, וְלֹא יִישְׁנוּ שְׁנֵי רַוָּקִים בְּטַלִּית אֶחָת. וַחֲכָמִים מַתִּירִין. כָּל שֶׁעִסְקוֹ עִם הַנָּשִׁים, לֹא יִתְיַחֵד עִם הַנָּשִׁים. וְלֹא יְלַמֵּד אָדָם אֶת בְּנוֹ אֻמָּנוּת בֵּין הַנָּשִׁים:
Sobre a escolha do ofício em si, Rabi Meir recomenda um ofício limpo e fácil, confiando que o sustento vem, em última análise, do mérito de cada um — e não do ofício escolhido.

Rabi Meir diz: sempre ensine o homem a seu filho um ofício limpo e leve, e ore Àquele a quem pertencem a riqueza e os bens — pois não há ofício que não tenha nele pobreza e riqueza, que não é da pobreza vinda do ofício, nem da riqueza vinda do ofício, mas tudo conforme seu mérito.Rabi Meir aconselha que, ao escolher um ofício para o filho, prefira-se sempre um trabalho limpo — livre de sujeira ou de contato constante com o proibido — e leve, sem exigir esforço físico extenuante. Mas ele ressalva que, no fundo, o próprio ofício é indiferente para determinar riqueza ou pobreza: uma vez que o sustento de cada pessoa depende, em última instância, do seu mérito diante do Céu, e não do ofício especificamente escolhido, cabe orar diretamente Àquele a quem toda riqueza e todo bem pertencem, em vez de depositar a confiança apenas na escolha profissional.

רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, לְעוֹלָם יְלַמֵּד אָדָם אֶת בְּנוֹ אֻמָּנוּת נְקִיָּה וְקַלָּה, וְיִתְפַּלֵּל לְמִי שֶׁהָעשֶׁר וְהַנְּכָסִים שֶׁלּוֹ, שֶׁאֵין אֻמָּנוּת שֶׁאֵין בָּהּ עֲנִיּוּת וַעֲשִׁירוּת, שֶׁלֹּא עֲנִיּוּת מִן הָאֻמָּנוּת וְלֹא עֲשִׁירוּת מִן הָאֻמָּנוּת, אֶלָּא הַכֹּל לְפִי זְכוּתוֹ:
Rabi Shimon ben Elazar reforça, por meio da imagem dos animais e das aves, que o trabalho humano não é o que garante o sustento — mas é a própria condição humana, decaída pelo pecado, que exige o esforço do trabalho.

Rabi Shimon ben Elazar diz: já viste, em toda a tua vida, um animal ou uma ave que tivesse um ofício? E, no entanto, eles se sustentam sem sofrimento. E não foram eles criados senão para me servir, e eu fui criado para servir a Quem me formou — não seria justo que eu me sustentasse sem sofrimento? Mas eu corrompi minhas ações e cortei meu próprio sustento.Rabi Shimon ben Elazar observa que animais e aves, que não têm ofício algum, ainda assim se sustentam sem angústia — e conclui, a fortiori, que o ser humano, criado para um propósito ainda mais elevado (servir seu Criador, enquanto os animais foram criados apenas para servir o próprio ser humano), deveria, por lógica, sustentar-se com ainda menos esforço. Se isso não ocorre — se o ser humano precisa trabalhar arduamente pelo pão —, a causa não está na ordem natural das coisas, mas no próprio pecado humano, que corrompeu essa relação original e tornou necessário o esforço penoso do trabalho.

רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר, רָאִיתָ מִיָּמֶיךָ חַיָּה וָעוֹף שֶׁיֵּשׁ לָהֶם אֻמָּנוּת, וְהֵן מִתְפַּרְנְסִין שֶׁלֹּא בְצַעַר. וַהֲלֹא לֹא נִבְרְאוּ אֶלָּא לְשַׁמְּשֵׁנִי, וַאֲנִי נִבְרֵאתִי לְשַׁמֵּשׁ אֶת קוֹנִי, אֵינוֹ דִין שֶׁאֶתְפַּרְנֵס שֶׁלֹּא בְצַעַר. אֶלָּא שֶׁהֲרֵעוֹתִי מַעֲשַׂי וְקִפַּחְתִּי אֶת פַּרְנָסָתִי:
A mishná lista, em nome de Abba Guryan de Tzadyan, seis ofícios que o pai não deve ensinar ao filho, por serem estruturalmente propensos ao roubo, e prossegue, em nome de Rabi Yehuda, com uma avaliação moral mais detalhada de vários ofícios.

Abba Guryan, homem de Tzadyan, diz em nome de Abba Guryah: não ensine o homem a seu filho a ser condutor de asnos, condutor de camelos, barbeiro, marinheiro, pastor ou merceeiro, pois o ofício deles é ofício de assaltantes. Rabi Yehuda diz em seu nome: a maioria dos condutores de asnos são ímpios; e a maioria dos condutores de camelos são íntegros; a maioria dos marinheiros são piedosos; o melhor dos médicos vai para o Guehinom; e o mais íntegro dos açougueiros é sócio de Amalek.Abba Guryan enumera seis ocupações que, por sua própria natureza — o contato com estradas isoladas, mercadorias alheias, ou a possibilidade constante de enganar clientes —, tendem estruturalmente a arrastar quem as exerce ao roubo ou à fraude, e por isso recomenda não ensiná-las ao filho. Rabi Yehuda, transmitindo em nome do mesmo Abba Guryah, refina essa avaliação com julgamentos mais específicos sobre o caráter típico de cada ofício: os condutores de asnos, majoritariamente ímpios; os condutores de camelos, que enfrentam o perigo do deserto e por isso costumam orar fervorosamente, majoritariamente íntegros; os marinheiros, expostos ao perigo constante do mar, majoritariamente piedosos; e, em contraste severo, mesmo o melhor dos médicos e o mais íntegro dos açougueiros são vistos com desconfiança moral extrema — o primeiro por vezes negligenciando vidas sem o devido cuidado, o segundo por lidar cotidianamente com o abate e a exploração de animais de um modo que pode embrutecer o caráter.

אַבָּא גֻרְיָן אִישׁ צַדְיָן אוֹמֵר מִשּׁוּם אַבָּא גֻרְיָא, לֹא יְלַמֵּד אָדָם אֶת בְּנוֹ, חַמָּר, גַּמָּל, סַפָּר, סַפָּן, רוֹעֶה, וְחֶנְוָנִי, שֶׁאֻמָּנוּתָן אֻמָּנוּת לִסְטִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מִשְּׁמוֹ, הַחַמָּרִין, רֻבָּן רְשָׁעִים, וְהַגַּמָּלִין, רֻבָּן כְּשֵׁרִים. הַסַּפָּנִין, רֻבָּן חֲסִידִים. טוֹב שֶׁבָּרוֹפְאִים, לְגֵיהִנֹּם. וְהַכָּשֵׁר שֶׁבַּטַּבָּחִים, שֻׁתָּפוֹ שֶׁל עֲמָלֵק:
Rabi Nehorai encerra a discussão sobre ofícios com a mais radical das posições: abandona todo ofício mundano em favor do estudo exclusivo da Torá, cujo sustento — diferente de qualquer profissão — não abandona a pessoa na velhice ou na doença.

Rabi Nehorai diz: abandono todo ofício que há no mundo, e não ensino a meu filho senão Torá — pois o homem come de sua recompensa neste mundo, e o capital permanece para o Mundo Vindouro. E todos os demais ofícios não são assim: quando o homem chega à doença, ou à velhice, ou a sofrimentos, e não pode se ocupar de seu trabalho, eis que morre de fome. Mas a Torá não é assim — ela o guarda de todo mal em sua juventude, e lhe dá futuro e esperança em sua velhice.Rabi Nehorai leva o argumento de Rabi Shimon ben Elazar ao seu extremo: se todo ofício traz consigo o risco de abandonar o trabalhador justamente quando ele mais precisa — na doença, na velhice, no sofrimento —, então o único investimento verdadeiramente seguro é a própria Torá, cujo estudo rende frutos imediatos (dos quais a pessoa já usufrui nesta vida) sem jamais consumir o capital principal, reservado integralmente para o Mundo Vindouro. Diferentemente de qualquer ofício, a Torá pode ser estudada em qualquer condição física, e por isso continua a sustentar espiritualmente a pessoa mesmo quando o corpo já não permite mais trabalhar.

רַבִּי נְהוֹרַאי אוֹמֵר, מַנִּיחַ אֲנִי כָּל אֻמָּנוּת שֶׁבָּעוֹלָם וְאֵינִי מְלַמֵּד אֶת בְּנִי אֶלָּא תוֹרָה, שֶׁאָדָם אוֹכֵל מִשְּׂכָרָהּ בָּעוֹלָם הַזֶּה וְקֶרֶן קַיֶּמֶת לָעוֹלָם הַבָּא. וּשְׁאָר כָּל אֻמָּנוּת אֵינָן כֵּן. כְּשֶׁאָדָם בָּא לִידֵי חֹלִי אוֹ לִידֵי זִקְנָה אוֹ לִידֵי יִסּוּרִין וְאֵינוֹ יָכוֹל לַעֲסֹק בִּמְלַאכְתּוֹ, הֲרֵי הוּא מֵת בְּרָעָב. אֲבָל הַתּוֹרָה אֵינָהּ כֵּן, אֶלָּא מְשַׁמַּרְתּוֹ מִכָּל רָע בְּנַעֲרוּתוֹ וְנוֹתֶנֶת לוֹ אַחֲרִית וְתִקְוָה בְזִקְנוּתוֹ:
A mishná — e com ela todo o tratado Kidushin — encerra citando quatro versículos que sustentam essa promessa: a renovação de forças na juventude, os frutos na velhice, e o próprio exemplo de Avraham Avinu, que guardou toda a Torá antes mesmo de ela ser dada.

Em sua juventude, o que ela diz? “Mas os que esperam no Eterno renovarão as forças” (Yeshayahu 40:31). Em sua velhice, o que ela diz? “Ainda darão frutos na velhice” (Tehilim 92:15). E assim se diz sobre Avraham nosso pai, que a paz esteja sobre ele: “E Avraham era velho, avançado em dias, e o Eterno abençoou Avraham em tudo” (Bereshit 24:1). E encontramos que Avraham nosso pai cumpriu toda a Torá antes mesmo de ela ter sido dada, como está dito: “Porquanto Avraham ouviu Minha voz, e guardou Minha guarda, Meus mandamentos, Meus estatutos e Minhas leis” (Bereshit 26:5).

בְּנַעֲרוּתוֹ, מַה הוּא אוֹמֵר, וְקֹוֵי ה' יַחֲלִיפוּ כֹחַ. בְּזִקְנוּתוֹ, מַהוּ אוֹמֵר, עוֹד יְנוּבוּן בְּשֵׂיבָה. וְכֵן הוּא אוֹמֵר בְּאַבְרָהָם אָבִינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, וְאַבְרָהָם זָקֵן, וַה' בֵּרַךְ אֶת אַבְרָהָם בַּכֹּל. מָצִינוּ שֶׁעָשָׂה אַבְרָהָם אָבִינוּ אֶת כָּל הַתּוֹרָה כֻּלָּהּ עַד שֶׁלֹּא נִתְּנָה, שֶׁנֶּאֱמַר, עֵקֶב אֲשֶׁר שָׁמַע אַבְרָהָם בְּקֹלִי וַיִּשְׁמֹר מִשְׁמַרְתִּי מִצְוֹתַי חֻקּוֹתַי וְתוֹרֹתָי:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Os quatro versículos citados na mishná, no hebraico bíblico original.
Yeshayahu 40:31
וְקוֹיֵ י־הוה יַחֲלִיפוּ כֹחַ יַעֲלוּ אֵבֶר כַּנְּשָׁרִים יָרוּצוּ וְלֹא יִיגָעוּ יֵלְכוּ וְלֹא יִיעָפוּ.
“Mas os que esperam no Eterno renovarão as forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão.”
Tehilim 92:15
עוֹד יְנוּבוּן בְּשֵׂיבָה דְּשֵׁנִים וְרַעֲנַנִּים יִהְיוּ.
“Ainda darão frutos na velhice; viçosos e verdejantes serão.”
Bereshit 24:1
וְאַבְרָהָם זָקֵן בָּא בַּיָּמִים וַה' בֵּרַךְ אֶת־אַבְרָהָם בַּכֹּל.
“E Avraham era velho, avançado em dias, e o Eterno abençoou Avraham em tudo.”
Bereshit 26:5
עֵקֶב אֲשֶׁר־שָׁמַע אַבְרָהָם בְּקֹלִי וַיִּשְׁמֹר מִשְׁמַרְתִּי מִצְוֹתַי חֻקּוֹתַי וְתוֹרֹתָי.
“Porquanto Avraham ouviu Minha voz, e guardou Minha guarda, Meus mandamentos, Meus estatutos e Minhas leis.”

A mishná encerra o tratado citando estes quatro versículos como prova de que o estudo da Torá — diferente de qualquer ofício mundano — sustenta a pessoa tanto na juventude quanto na velhice, tomando Avraham Avinu como exemplo vivo de alguém que, tendo guardado toda a Torá antes mesmo de ela ser dada no Sinai, foi abençoado “em tudo” em sua velhice avançada.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 4:14 (encerrando o tratado)
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר לֹא יִרְעֶה רַוָּק בְּהֵמָה וְלֹא יִישְׁנוּ שְׁנֵי רַוָּקִים כוֹ': מַה שֶּׁאָמַר ״כָּל שֶׁאֻמָּנָתוֹ בֵּין הַנָּשִׁים לֹא יִתְיַחֵד עִם הַנָּשִׁים״ — רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁאֵינוֹ מֻתָּר זֶה בִּשְׁבִיל פַּרְנָסָתוֹ בְּשׁוּם פָּנִים. וְחַיָּב אָדָם שֶׁיְּלַמֵּד אֶת בְּנוֹ אֻמָּנוּת נְקִיָּה, לְכָךְ אָסוּר שֶׁיַּעֲשֶׂה סַפָּר כוֹ'. וּכְבָר בֵּאַרְנוּ שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל מִשְׁכַּב זָכוּר וְעַל הַבְּהֵמָה, וּלְכָךְ אֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. סָלִיק פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָיוֹת לְהָרַמְבַּ״ם לְמַסֶּכֶת קִדּוּשִׁין בְּסִיַּעְתָּא דִּשְׁמַיָּא

Rambam esclarece que, mesmo diante da necessidade de sustento, um homem cujo ofício o coloca constantemente entre mulheres não pode, de forma alguma, usar essa necessidade econômica como justificativa para se recluir com elas — a proibição de yichud não cede diante do argumento da subsistência. Confirma o dever de ensinar ao filho um ofício limpo, como o de barbeiro, entre os exemplos elencados. E, reafirmando um princípio já estabelecido, conclui que a halachá não segue Rabi Yehuda quanto às restrições adicionais para solteiros, já que o povo de Israel não é suspeito de relações proibidas com animais ou de pederastia. Com esta linha, Rambam encerra formalmente seu Perush haMishnayot para todo o tratado Kidushin.

Bartenura · Kidushin 4:14
וַחֲכָמִים מַתִּירִין. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים, שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל הַזָּכוּר: כָּל שֶׁאֻמָּנוּתוֹ בֵּין הַנָּשִׁים. שֶׁמְּלֶאכֶת אֻמָּנוּתוֹ נַעֲשֵׂית לְנָשִׁים, וְהַנָּשִׁים צְרִיכוֹת לוֹ: לֹא יִתְיַחֵד עִם הַנָּשִׁים. וַאֲפִלּוּ עִם הַרְבֵּה נָשִׁים, לְפִי שֶׁלִּבָּן גַּס בּוֹ וּמְחַפּוֹת עָלָיו... חַמָּר גַּמָּל וְסַפָּן. כָּל אֵלּוּ אֻמָּנוּת לִסְטוּת, כְּשֶׁלָּנִין בַּדְּרָכִים נִכְנָסִים וְלוֹקְטִים עֵצִים וּפֵרוֹת מִן הַכְּרָמִים... חֶנְוָנִי. מְלֻמָּד בְּאוֹנָאָה, לְהָטִיל מַיִם בְּיַיִן, וּצְרוֹרוֹת בְּחִטִּין, שֶׁחַיָּב אָדָם לְלַמֵּד אֶת בְּנוֹ אֻמָּנוּת נְקִיָּה:

Bartenura confirma que a halachá segue os Sábios contra Rabi Yehuda, pois o povo de Israel não é suspeito de relações homossexuais. Explica que “aquele cujo ofício é entre as mulheres” se refere a alguém cujo trabalho é voltado à clientela feminina, que por isso precisa dele com frequência — e justamente essa familiaridade constante torna o yichud com elas mais perigoso do que o normal, mesmo com várias mulheres ao mesmo tempo, pois elas se sentem à vontade com ele e podem encobri-lo. Sobre os ofícios listados por Abba Guryan, explica que todos eles envolvem oportunidade estrutural de furto — como os condutores que, ao pernoitar nas estradas, aproveitam para colher lenha e frutas de vinhedos alheios — e que o merceeiro, em especial, é “treinado na fraude”, habituado a diluir vinho com água e misturar pedrinhas ao trigo vendido — razão pela qual todo homem tem o dever de ensinar a seu filho um ofício limpo.

Encerrando o tratado · הֲדָרָן עֲלָךְ

הֲדַרָן עֲלָךְ הָאִישׁ מְקַדֵּשׁ, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת קִדּוּשִׁין

Com esta décima quarta mishná do Perek Dalet, encerra-se o Perek “הָאִישׁ מְקַדֵּשׁ” — e com ele, toda a Massechet Kidushin. A fórmula tradicional de encerramento, “hadran alach” (“voltaremos a ti”), expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado, mesmo depois de concluído — e é seguida da declaração “vessalika lah massechet Kidushin”, “e assim se encerra o tratado Kidushin”.

Ao longo de seus quatro perakim e quarenta e sete mishnayot, Kidushin tratou dos modos de efetivar o noivado (com dinheiro, documento ou relação conjugal), dos limites do agenciamento e da condição no casamento, das uniões proibidas e da linhagem de seus filhos, da disputa sobre a purificação da descendência mamzer, e — neste último perek — das dez linhagens trazidas por Ezra da Babilônia, do dever de investigar a ascendência de uma noiva, e das leis de reclusão (yichud) e do ofício a ensinar ao filho, encerrando com o elogio do estudo da Torá como o único “ofício” que não abandona o homem na velhice.

Com a conclusão de Massechet Kidushin, completa-se também a Seder Nashim inteira da Mishná — os sete tratados que regem as leis do casamento e da vida familiar em Israel: Yevamot, Ketubot, Nedarim, Nazir, Sotá, Guitin e, agora, Kidushin. O estudo da Mishná prossegue agora nas demais Ordens.