Aquele que consagra uma mulher e sua filha, ou uma mulher e sua irmã, de uma só vez, nenhuma delas está consagrada. E houve um caso de cinco mulheres, entre as quais duas irmãs: um homem colheu um cesto de figos que eram delas e eram do sétimo ano [shevi'it], e disse: "Eis que todas vós estais consagradas a mim com este cesto" — e uma delas o recebeu em nome de todas. E disseram os sábios: as irmãs não estão consagradas. — A mishná parte de um princípio derivado do versículo de Vayicrá "e mulher com sua irmã não tomarás, para serem rivais" — entendido pelos sábios como ensinando que, no exato momento em que duas mulheres se tornariam "rivais" uma da outra por causa de um mesmo homem (como no caso de mãe e filha, ou de duas irmãs), o kidushin não se efetiva em nenhuma delas, ainda que, isoladamente, cada uma pudesse ser desposada por ele. Como a declaração de consagração foi feita para as duas ao mesmo tempo, e uma união proibida (arayot) não pode "capturar" nem sequer uma delas quando ambas seriam tornadas rivais simultaneamente, o resultado é que nenhuma das duas fica consagrada. A mishná então relata um episódio histórico real, ocorrido com cinco mulheres — proprietárias conjuntas de um campo —, entre as quais havia duas irmãs. Um homem colheu, com a permissão delas, um cesto de figos daquele campo — figos que eram propriedade coletiva das cinco e, além disso, frutos do ano sabático (quando a produção da terra é declarada livre para todos, hefker). Ele declarou então: "todas vós estais consagradas a mim com este cesto", e uma delas o recebeu em nome do grupo todo — um mecanismo válido, pois uma mulher pode servir de agente de recebimento para outras. Os sábios decidiram que as duas irmãs não ficaram consagradas (pelo princípio explicado acima), mas as outras três mulheres — que não eram parentes proibidas entre si — ficaram, cada uma, validamente consagradas ao homem.
Rambam estabelece o princípio geral (o kidushin não se efetiva nas uniões proibidas por caráter) a partir do versículo de Vayicrá, e depois extrai da mishná três princípios adicionais e independentes: primeiro, que se pode consagrar validamente com frutos do sétimo ano (shevi'it), apesar de sua santidade especial; segundo, que quem consagra com um objeto roubado não realiza kidushin válido — e é justamente por isso que a mishná precisa esclarecer que os figos eram propriedade das próprias mulheres, e frutos livres (hefker) do ano sabático, para que não houvesse problema de roubo; e terceiro, que uma mulher pode servir como agente de recebimento para outra mulher, mesmo em uma situação na qual ela mesma se torna, por meio desse ato, uma "rival" (tzara) da outra.
Bartenura desenvolve a mesma leitura do versículo de Vayicrá, e destaca o mesmo conjunto de princípios extraídos do episódio das cinco mulheres. Bartenura acrescenta uma precisão importante: a razão específica pela qual a mishná menciona que o cesto "era delas e era do sétimo ano" é que, se não fosse propriedade coletiva das próprias mulheres e fruto do ano sabático (livre para todos), o ato constituiria kidushin com objeto roubado — inválido mesmo quando o roubo é da própria noiva, salvo se o dono já houver desistido de recuperá-lo (ye'ush). E, embora normalmente uma mulher não sirva de testemunha válida para outra em situações em que se tornaria sua rival, no que diz respeito à agência (shelichut) de simplesmente receber o kidushin em nome de outra, isso é válido mesmo quando a agente se torna, ela mesma, rival da outra por meio desse ato.
Rashi precisa o que a mishná entende por "de uma só vez" (ke'achat): trata-se do caso em que o homem faz uma única declaração conjunta — "eis que vós duas estais consagradas a mim" — dirigida simultaneamente à mãe e à filha, ou às duas irmãs, sem separar o ato em duas declarações distintas e sucessivas; é essa simultaneidade formal do ato que ativa o princípio de que nenhuma das duas fica consagrada, pois ambas se tornariam rivais uma da outra no mesmíssimo instante da consagração.