Bens que têm responsabilidade (imóveis) são adquiridos por dinheiro, por contrato e por chazaká. E os que não têm responsabilidade (móveis) não são adquiridos senão por tração (meshichá). Bens que não têm responsabilidade são adquiridos junto com bens que têm responsabilidade por dinheiro, por contrato e por chazaká. E os bens que não têm responsabilidade obrigam os bens que têm responsabilidade a jurar sobre eles. — "Bens com responsabilidade" são as propriedades imóveis — a terra —, chamadas assim porque permanecem no lugar e servem de garantia (achrayut) para dívidas: um credor pode recuperá-las das mãos de terceiros compradores caso o devedor não tenha outros meios de pagar. Esses bens são adquiridos pelos mesmos três modos vistos para o escravo cananeu: dinheiro, contrato ou chazaká. Já os "bens sem responsabilidade" — os móveis — não oferecem essa mesma garantia, e por isso só são adquiridos por tração (meshichá), o ato físico de puxá-los para si. Quando, porém, um móvel é vendido junto com um imóvel numa única transação, ele "carona" na aquisição do imóvel — sendo adquirido pelos mesmos três modos, mesmo sem tração própria, num mecanismo chamado agav karka ("por meio da terra"). Por fim, a mishná ensina uma regra processual notável: se alguém reivindica de outro tanto bens móveis quanto imóveis, e o réu é obrigado a jurar por ter admitido parcialmente a dívida quanto aos móveis, essa obrigação de juramento se estende, por um mecanismo de "extensão do juramento" (gilgul shevuá), também aos imóveis reivindicados na mesma ação — ainda que, isoladamente, não se jure sobre bens imóveis.
A aquisição de terra por dinheiro é fundamentada no relato de Yirmiáhu sobre o resgate do campo em Anatot, e a chazaká, no versículo de Devarim sobre a posse da própria Terra de Israel.
Rambam explica o mecanismo do agav karka e a origem do gilgul shevuá a partir da sotá; Bartenura detalha os atos concretos de chazaká sobre a terra.
Rambam explica que, se alguém vende um saco de pimenta junto com determinada casa por certo preço, assim que o comprador adquire a casa por um dos três modos, adquire também a pimenta junto com ela — mesmo sem tê-la fisicamente tracionado, e mesmo que ela estivesse, no momento da venda, numa cidade diferente — desde que o vendedor diga explicitamente "adquire isto agav (por meio) da terra". Sobre o gilgul shevuá — a extensão do juramento dos móveis aos imóveis reivindicados na mesma ação —, Rambam explica que ele é aprendido do duplo "amém, amém" que a sotá declara diante do sacerdote, ensinando que um juramento formal pode, por extensão, abranger também outras afirmações not originalmente sujeitas a ele.
Bartenura detalha os atos válidos de chazaká sobre a terra: cavar um pouco no solo, trancar o portão, erguer uma cerca, ou abrir uma brecha na cerca existente — qualquer um desses atos, realizado na presença do vendedor, completa a aquisição; se realizado na ausência do vendedor, este precisa antes autorizar explicitamente, dizendo "vai, toma posse e adquire".
Rashi sobre a Guemará (Kidushin 26a) explica a chazaká por meio de feixes de galhos e a base do gilgul shevuá; Bartenura completa com a distinção entre venda e doação por contrato.
Rashi explica que "bens com responsabilidade" são as terras, sobre as quais todo credor conta e se apoia justamente por serem estáveis e permanentes; e detalha os atos de chazaká — cavar um pouco, demarcar os limites com marcos, trancar, ou abrir uma brecha, ainda que mínima. Confirma o funcionamento do agav karka: se alguém vende móveis junto com terra, assim que o comprador adquire a terra por um dos três modos, os móveis são adquiridos automaticamente junto com ela. E explica o gilgul shevuá: embora, isoladamente, não se jure sobre reivindicações de terra, quando a mesma ação reivindica móveis e imóveis, e o réu é obrigado a jurar sobre os móveis, essa obrigação de juramento "prende" também os imóveis, por meio da extensão do juramento.
Bartenura observa uma distinção importante sobre o modo por contrato: escrever num papel ou caco "meu campo está dado a ti" ou "meu campo está vendido a ti" e entregar o documento diante de testemunhas adquire a terra por contrato apenas quando se trata de uma doação. Numa venda comum, o contrato sozinho não basta — é necessário também o pagamento do dinheiro —, a menos que o vendedor esteja se desfazendo do campo por insatisfação com ele, caso em que o contrato isolado já é suficiente.