Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Zayin · Mishná 5 de 10

Quem impõe voto proibindo a esposa de ir à casa de luto ou de festa

הַמַּדִּיר אֶת אִשְׁתּוֹ שֶׁלֹּא תֵלֵךְ לְבֵית הָאֵבֶל אוֹ לְבֵית הַמִּשְׁתֶּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do voto que veda a participação da esposa em casas de luto ou de festa — proibido de imediato, salvo justificativa legítima — e acrescenta três exigências degradantes que, se impostas por meio de condição, também obrigam o marido a divorciá-la.

Quem impõe voto à sua esposa, proibindo-a de ir à casa de luto ou à casa de festa, deve divorciá-la e pagar-lhe a ketubá, porque tranca diante dela. E se ele alegasse por causa de outro motivo, tem permissão. Se ele lhe disse, "com a condição de que digas a fulano o que me disseste, ou o que te disse", ou "que sejas uma que enche e derrama no lixo", deve divorciá-la e pagar-lhe a ketubá.Este voto é tratado com máxima severidade — sem qualquer prazo de tolerância — porque ele "tranca uma porta diante dela": impede-a de participar dos momentos essenciais da vida social e comunitária, tanto a partilha do luto de um vizinho quanto a alegria de uma celebração, isolando-a completamente. Mas a mishná reconhece uma exceção: se o marido justifica o voto por outro motivo legítimo — por exemplo, temendo que naquela casa específica haja pessoas de conduta imprópria — ele tem permissão para mantê-lo, pois nesse caso o voto não visa isolá-la gratuitamente, mas protegê-la. A mishná então acrescenta dois exemplos extremos de exigências degradantes que, mesmo formuladas como condição do casamento e não como voto propriamente dito, também obrigam o divórcio: exigir que ela repita a um terceiro palavras íntimas ditas entre o casal — quebrando a confiança conjugal —, ou exigir que ela realize um ato sem sentido e humilhante, como encher um recipiente de água e derramá-lo no lixo, fazendo-a parecer insana aos olhos dos outros.

הַמַּדִּיר אֶת אִשְׁתּוֹ שֶׁלֹּא תֵלֵךְ לְבֵית הָאֵבֶל אוֹ לְבֵית הַמִּשְׁתֶּה, יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתֻבָּה, מִפְּנֵי שֶׁנּוֹעֵל בְּפָנֶיהָ. וְאִם הָיָה טוֹעֵן מִשּׁוּם דָּבָר אַחֵר, רַשָּׁאי. אָמַר לָהּ, עַל מְנָת שֶׁתֹּאמְרִי לִפְלוֹנִי מַה שֶּׁאָמַרְתְּ לִי אוֹ מַה שֶּׁאָמַרְתִּי לָךְ, אוֹ שֶׁתְּהֵא מְמַלְּאָה וּמְעָרָה לָאַשְׁפָּה, יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתֻבָּה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O dever de acompanhar o próximo em seu luto e de participar de sua alegria integra o mandamento de amar o próximo como a si mesmo — um princípio ético cuja violação forçada, por voto do marido, é tratada pela mishná como motivo suficiente para o divórcio.

Vayikrá (Levítico) 19:18
וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ, אֲנִי ה'
E amarás a teu próximo como a ti mesmo; Eu sou o Eterno.

A Guemará, sobre esta mishná, ensina que aquele que não comparece à casa do luto é "como quem se afasta e não faz caridade" — vinculando explicitamente a visita à casa de luto ao princípio geral de amor ao próximo e caridade que este versículo estabelece. Privar a esposa dessa participação social e comunitária não é apenas uma restrição pessoal, mas um impedimento a um dever ético fundamental; por isso a mishná não concede ao voto nenhum prazo de tolerância, salvo quando há uma razão legítima e concreta, como o receio de más companhias no local.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, esclarece o que conta como "outro motivo" legítimo para o voto, e explica o sentido preciso das duas exigências degradantes mencionadas ao final da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 7:5
טוֹעֵן מִשּׁוּם דָּבָר אַחֵר, פֵּרְשׁוּ בּוֹ מִשּׁוּם בְּנֵי אָדָם הַפְּרוּצִים הַמְּצוּיִין שָׁם... וְאָמְרוּ שֶׁתֹּאמַר לִפְלוֹנִי מַה שֶּׁאָמַרְתְּ לִי, הוּא שֶׁיַּכְרִיחֶנָּה שֶׁתֹּאמַר לְאֶחָד מִבְּנֵי אָדָם דָּבָר שֶׁאִי אֶפְשָׁר לָהּ שֶׁתֹּאמַר אוֹתוֹ כִּי אִם לְבַעְלָהּ מֵעִנְיְנֵי הַתַּשְׁמִישׁ... אֲבָל שֶׁתְּהֵא מְמַלֵּא וּמְעָרֶה לָאַשְׁפָּה הוּא מַעֲשֶׂה מִמַּעֲשֵׂה הַשּׁוֹטִים וְהַמְּשֻׁגָּעִים

Rambam explica que "outro motivo" refere-se especificamente ao receio de que naquele local haja pessoas de conduta imprópria — e desde que essa suspeita seja de conhecimento público, o marido tem permissão para manter o voto sem que isso o obrigue a divorciá-la. Quanto à exigência de "dizer a fulano o que disseste", Rambam esclarece que se trata de forçá-la a revelar a um terceiro assuntos íntimos da relação conjugal que só poderiam ser ditos ao próprio marido — uma violação de sua dignidade. E quanto a "encher e derramar no lixo", ele explica tratar-se de um ato próprio de loucos e insensatos, que expõe a esposa ao ridículo público.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura acrescenta que a casa do luto amanhã pode ser a própria, tornando a solidariedade recíproca; Rashi, sobre a Guemará, traz as duas interpretações tradicionais do ato de "encher e derramar".

Bartenura · רע"ב
Ketubot 7:5
שֶׁנּוֹעֵל בְּפָנֶיהָ. דֶּלֶת שֶׁל שִׂמְחָה וַהֲסָרַת יָגוֹן. וּלְבֵית הָאֵבֶל נוֹעֵל בְּפָנֶיהָ, שֶׁלְּמָחָר הִיא מֵתָה וְאֵין אָדָם סוֹפְדָהּ. מֵחֲמַת דָּבָר אַחֵר. כְּגוֹן דְּאִתְחַזַּק שֶׁבְּנֵי אָדָם פְּרוּצִים מְצוּיִין שָׁם

Bartenura desdobra a imagem da mishná: com relação à casa de festa, o voto tranca diante da esposa a porta da alegria e do alívio da tristeza cotidiana; e com relação à casa de luto, ele tranca diante dela a porta da solidariedade recíproca — pois amanhã ela mesma poderá vir a falecer, e ninguém a lamentará se ela nunca compareceu ao luto alheio. Bartenura confirma que "outro motivo" refere-se a um receio já estabelecido de que haja pessoas de conduta imprópria naquele lugar específico.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 71b-72a
אִיכָּא נוֹעֵל בְּפָנֶיהָ — דֶּלֶת שֶׁל שִׂמְחָה וּפִקּוּחַ צַעַר. סוֹפְנָהּ — קוֹבְרָהּ, כְּשֵׁם שֶׁלֹּא גָמְלָה חֶסֶד כָּךְ לֹא יִגְמְלוּ עִמָּהּ. שֶׁתְּהֵא מְמַלְּאָה וְנוֹפֶצֶת — לְאַחַר שֶׁתְּשַׁמֵּשׁ וְיִמָּלֵא רַחְמָהּ שִׁכְבַת זֶרַע, תָּרוּץ בְּרַגְלֶיהָ וּתְנַפְּצֶנּוּ שֶׁלֹּא יִקְלֹט וְתִתְעַבֵּר

Rashi confirma a leitura da porta trancada como a porta da alegria e do alívio da dor, e detalha o princípio de reciprocidade: quem não comparece ao luto alheio arrisca-se a não ser lamentado quando ela mesma partir, já que não praticou esse gesto de bondade para com os outros. Sobre "encher e derramar no lixo", Rashi traz uma primeira interpretação — mais grave — segundo a qual o marido a forçaria, logo após a relação conjugal, a correr e sacudir o corpo para expelir a semente antes que pudesse conceber, um ato cruel que a impede de ter filhos; a mishná trata tal exigência como motivo automático de divórcio.