Quem sustenta sua esposa por meio de um terceiro não pode dar-lhe menos que dois cabim de trigo, ou quatro cabim de cevada. Disse Rabi Yosei: não estabeleceu cevada para ela senão Rabi Yishmael, que morava perto de Edom. E dá-lhe meio cab de legumes e meio log de azeite, e um cab de figos secos, ou um maneh de bolo de figos prensados. E se não tem, estabelece em seu lugar frutas de outro tipo. E dá-lhe uma cama, um tapete de junco e uma esteira. E dá-lhe um véu para a cabeça, e um cinto para a cintura, e sapatos de festa a festa, e utensílios de cinquenta zuz de ano em ano. E não se dá a ela roupas novas nos dias de calor, nem roupas gastas nos dias de chuva; mas dá-lhe utensílios de cinquenta zuz nos dias de chuva, e ela se cobre com os gastos nos dias de calor, e os gastos ficam para ela. — Quando o marido opta por não conviver diretamente com a esposa, sustentando-a através de um administrador terceiro (apotropos), a mishná fixa quantidades mínimas obrigatórias: dois cabim de trigo por semana, ou o dobro em cevada (uma vez que o trigo produz mais farinha proporcionalmente), além de legumes, azeite e frutas secas para completar a dieta. Ela também tem direito a mobília básica — cama, tapete e esteira — e a itens de vestuário renovados periodicamente: um véu e cinto anuais, sapatos a cada festa de peregrinação, e roupas no valor de cinquenta zuz por ano. A mishná esclarece uma regra prática e humana sobre a distribuição das roupas ao longo do ano: roupas novas são desconfortáveis no calor (por serem mais quentes) mas agradáveis no frio, enquanto roupas já usadas são o oposto; por isso o marido deve dar-lhe as roupas novas de cinquenta zuz justamente na época chuvosa e fria, e ela guarda as roupas antigas — que continuam sendo dela mesmo depois de receber as novas — para usar no calor.
Esta mishná traduz em quantidades concretas o dever bíblico de sustento e vestimenta — mostrando como os sábios transformaram um princípio geral em uma obrigação mensurável e exigível.
As duas primeiras obrigações do versículo — sustento ("she'erah") e vestimenta ("kesutah") — são detalhadas nesta mishná com precisão quantitativa. Os sábios estabeleceram quantidades mínimas que o marido não pode reduzir, mesmo quando delega o sustento a um terceiro administrador em vez de prover diretamente — garantindo assim que o dever bíblico não se torne uma obrigação vaga e inexequível, mas um padrão concreto e verificável, ajustável apenas para melhor, segundo os costumes e a posição social do casal, como se verá na conclusão da mishná seguinte.
Rambam, no Perush HaMishná, observa que os valores fixados aqui são uma referência geral, e que o critério final deve se adequar aos costumes locais e às circunstâncias do casal.
Rambam esclarece que a proporção de dois para um entre trigo e cevada (e não a proporção habitual de igualdade) é específica da opinião de Rabi Yishmael, que morava numa região onde a cevada era de qualidade inferior — daí exigir uma quantidade duas vezes maior de cevada para equivaler nutricionalmente ao trigo. E conclui que, em última análise, o critério aplicado pelo juiz deve se ajustar às circunstâncias específicas de cada caso e aos costumes locais, sendo os valores da mishná uma referência de base, não um teto absoluto.
Bartenura detalha o significado de cada item da lista; Rashi, sobre a Guemará, explica os termos técnicos dos utensílios e a lógica da distribuição sazonal das roupas.
Bartenura explica que "quem sustenta a esposa por meio de um terceiro" refere-se a um marido que entrega o sustento dela a um administrador, sem que ela coma diretamente com ele. Ele detalha os itens: o bolo de figos prensados é vendido por peso, não por medida; o "mafatz" é um tecido mais macio que a esteira comum; a "kipá" é um véu para a cabeça. E explica a razão de as roupas gastas permanecerem propriedade dela mesmo depois de receber as novas: porque ela precisa delas para se cobrir durante os dias de sua impureza ritual (nidá), quando certas restrições de contato tornam preferível usar roupas que já são suas, reservadas para esse fim.
Rashi liga a expressão "mashre" (sustentar por meio de terceiro) à raiz da palavra "kirá" (banquete) em Melachim II 6:23 — o sentido é o de alguém que provê o sustento de outra pessoa sem conviver diretamente com ela. Ele confirma que as quantidades citadas são semanais, e explica a lógica prática por trás da distribuição das roupas: roupas novas são desconfortáveis no calor por serem mais quentes, e agradáveis no frio; por isso o marido deve entregar as roupas novas justamente na estação fria. A Guemará discute ainda para que finalidade específica as roupas gastas permanecem sendo dela.