Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Hei · Mishná 5 de 9

Os trabalhos da esposa

אֵלּוּ מְלָאכוֹת שֶׁהָאִשָּׁה עוֹשָׂה לְבַעְלָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná enumera as sete tarefas domésticas devidas pela esposa ao marido, e explica como o número de escravas que ela traz ao casamento a isenta progressivamente de algumas delas — mas nunca de todas —, encerrando com a disputa entre Rabi Eliezer e Rabán Shimon ben Gamliel sobre o valor do trabalho manual como remédio contra a ociosidade.

Estes são os trabalhos que a esposa faz para o marido: mói, e assa, e lava, cozinha, e amamenta o filho, arruma-lhe a cama, e trabalha com lã. Se trouxe para ele uma escrava, não mói, não assa e não lava. Duas, não cozinha e não amamenta o filho. Três, não lhe arruma a cama e não trabalha com lã. Quatro, senta-se na cadeira. Rabi Eliezer diz: mesmo que tenha trazido cem escravas, obriga-a a trabalhar com lã, pois a ociosidade leva à promiscuidade. Rabán Shimon ben Gamliel diz: também quem, por voto, impede sua esposa de trabalhar deve divorciá-la e pagar-lhe a ketubá, pois a ociosidade leva à insensatez.A mishná lista sete tarefas básicas devidas pela esposa: moer o grão, assar o pão, lavar as roupas, cozinhar, amamentar o filho, arrumar a cama do marido e fiar lã. À medida que ela traz escravas para o casamento, ela vai sendo dispensada de duas em duas tarefas — a primeira escrava a isenta das três primeiras (moer, assar, lavar), a segunda a isenta de mais duas (cozinhar, amamentar), a terceira de mais duas (arrumar a cama, fiar lã) — e com quatro escravas ela já não precisa realizar nenhuma delas, podendo sentar-se ociosamente como uma senhora. Mas Rabi Eliezer discorda quanto ao trabalho com lã especificamente: mesmo com cem escravas, ele obriga-a a continuar fiando, pois considera que a ociosidade completa leva à promiscuidade. Rabán Shimon ben Gamliel acrescenta um princípio ainda mais amplo: mesmo que o marido, por um voto, a proíba de trabalhar completamente — algo que poderia parecer um benefício para ela — isso na verdade a prejudica, pois a ociosidade total leva à insensatez, e por isso ele deve divorciá-la e pagar-lhe a ketubá.

אֵלּוּ מְלָאכוֹת שֶׁהָאִשָּׁה עוֹשָׂה לְבַעְלָהּ, טוֹחֶנֶת, וְאוֹפָה, וּמְכַבֶּסֶת, מְבַשֶּׁלֶת, וּמֵנִיקָה אֶת בְּנָהּ, מַצַּעַת לוֹ הַמִּטָּה, וְעוֹשָׂה בַצֶּמֶר. הִכְנִיסָה לוֹ שִׁפְחָה אַחַת, לֹא טוֹחֶנֶת, וְלֹא אוֹפָה וְלֹא מְכַבֶּסֶת. שְׁתַּיִם, אֵינָהּ מְבַשֶּׁלֶת וְאֵינָהּ מֵנִיקָה אֶת בְּנָהּ. שָׁלֹשׁ, אֵינָהּ מַצַּעַת לוֹ הַמִּטָּה וְאֵינָהּ עוֹשָׂה בַצֶּמֶר. אַרְבָּעָה, יוֹשֶׁבֶת בַּקַּתֶּדְרָא. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אֲפִלּוּ הִכְנִיסָה לוֹ מֵאָה שְׁפָחוֹת, כּוֹפָהּ לַעֲשׂוֹת בַּצֶּמֶר, שֶׁהַבַּטָּלָה מְבִיאָה לִידֵי זִמָּה. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, אַף הַמַּדִּיר אֶת אִשְׁתּוֹ מִלַּעֲשׂוֹת מְלָאכָה, יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתֻבָּתָהּ, שֶׁהַבַּטָּלָה מְבִיאָה לִידֵי שִׁעֲמוּם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Assim como a mishná anterior, esta mishná se apoia na obrigação mútua entre marido e esposa: em contrapartida ao sustento, vestimenta e relação conjugal que ele lhe deve, ela lhe deve o trabalho doméstico — mas os sábios limitam esse trabalho às tarefas necessárias, evitando tanto a sobrecarga quanto a ociosidade prejudicial.

Shemot (Êxodo) 21:10
שְׁאֵרָהּ כְּסוּתָהּ וְעֹנָתָהּ לֹא יִגְרָע
Seu sustento, sua vestimenta e sua relação conjugal ele não diminuirá.

Do mesmo princípio de reciprocidade conjugal que obriga o marido a sustentar a esposa, os sábios derivaram a contrapartida: o dever dela de trabalhar para ele em casa. Mas essa contrapartida tem limites — nossa tradição não considera positivo que a esposa fique completamente ociosa, ainda que tecnicamente ela pudesse ser dispensada de todo trabalho por meio de escravas ou por vontade do marido. O princípio de que "a ociosidade leva à promiscuidade" e "a ociosidade leva à insensatez" reflete uma visão mais ampla sobre a importância da ocupação produtiva para o bem-estar da pessoa, independentemente da necessidade econômica.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, detalha o significado de cada tarefa e confirma que a lei segue Rabi Eliezer quanto à obrigação de continuar fiando lã.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 5:5
וְאֵלּוּ מְלָאכוֹת שֶׁהָאִשָּׁה עוֹשָׂה לְבַעְלָהּ כוּ': בֵּין שֶׁיֵּשׁ לָהּ שְׁפָחוֹת כְּפִי זֶה הַמִּנְיָן בֵּין שֶׁהִכְנִיסָה לוֹ מָמוֹן שֶׁיִּקַּח מֵהֶם אֵלּוּ הַשְּׁפָחוֹת, הַדִּין אֶחָד, וּמְחֻיָּב עָלֶיהָ לַעֲשׂוֹת עַל כָּל פָּנִים שֶׁתִּהְיֶה רוֹחֶצֶת פָּנָיו יָדָיו וְרַגְלָיו וּמוֹזֶגֶת לוֹ אֶת הַכּוֹס וּמַצַּעַת לוֹ אֶת הַמִּטָּה, אֲפִלּוּ הָיוּ אֶצְלָהּ אֶלֶף שְׁפָחוֹת... וְהֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

Rambam explica que, independentemente de a esposa ter trazido as escravas em espécie ou em dinheiro para comprá-las, a regra é a mesma. E há certas tarefas — lavar o rosto, as mãos e os pés do marido, servir-lhe a bebida e arrumar-lhe a cama — que ela nunca é dispensada de fazer, mesmo com mil escravas, porque a tradição não permite que um homem seja servido nesses aspectos por outra mulher que não a sua própria esposa. Sobre a disputa final, Rambam decide que a lei segue Rabi Eliezer: mesmo com cem escravas, o marido pode obrigá-la a continuar fiando lã, pois a ociosidade total leva à promiscuidade.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha o significado de "sentar-se na cadeira" e a raiz da disputa sobre a ociosidade; Rashi, sobre a Guemará, esclarece termos técnicos das tarefas domésticas.

Bartenura · רע"ב
Ketubot 5:5
יוֹשֶׁבֶת בַּקַּתֶּדְרָא. עַל כִּסֵּא מְנוּחָה וְאֵינָהּ הוֹלֶכֶת בִּשְׁלִיחוּתוֹ לְכָאן וּלְכָאן, וְאַף עַל פִּי כֵן מוֹזֶגֶת לוֹ אֶת הַכּוֹס וּמַצַּעַת לוֹ אֶת הַמִּטָּה וְרוֹחֶצֶת לוֹ פָּנָיו יָדָיו וְרַגְלָיו, שֶׁמְּלָאכוֹת אֵלּוּ אֵין מִשְׁתַּמְּשִׁים בָּהֶם בְּאִשָּׁה אֶלָּא בְּאִשְׁתּוֹ בִּלְבָד... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

Bartenura explica que "sentar-se na cadeira" significa que ela se torna uma senhora de descanso, sem precisar ir e vir a mando do marido — mas mesmo assim continua realizando certos serviços pessoais, como servir-lhe a bebida, arrumar-lhe a cama e lavar-lhe o rosto, as mãos e os pés, porque esses serviços tradicionalmente só podem ser prestados pela própria esposa, não por outra mulher. Sobre a disputa final entre Rabi Eliezer e Rabán Shimon ben Gamliel, Bartenura observa que ela se refere especificamente ao caso de uma esposa que não está simplesmente ociosa, mas que se distrai com jogos e brincadeiras — situação em que existe o risco de promiscuidade, mas não o de insensatez, pois esta última só ocorre quando a pessoa fica sentada sem fazer absolutamente nada. E a lei segue Rabi Eliezer.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 59b
מַתְנִי' אוֹפָה — פַּת. שְׁתַּיִם אֵינָהּ מְבַשֶּׁלֶת כוּ' — בַּגְּמָרָא פָּרִיךְ אַמַּאי לֹא אִפְטְרָה מִכֻּלְּהוּ בְּחַדָא שִׁפְחָה שֶׁהִכְנִיסָה בִּמְקוֹמָהּ. יוֹשֶׁבֶת בַּקַּתֶּדְרָא — לֹא תִטְרַח בִּשְׁבִילוֹ לֵילֵךְ בִּשְׁלִיחוּת לְהָבִיא לוֹ חֵפֶץ מִבַּיִת לַעֲלִיָּה. שִׁעֲמוּם — שִׁגָּעוֹן

Rashi esclarece termos práticos: "assar" refere-se a assar o pão; sobre por que ela não é dispensada de todas as tarefas de uma só vez com uma única escrava, a Guemará questiona e discute a razão de essa dispensa ser gradual. "Sentar-se na cadeira" significa que ela não precisa mais se esforçar em ir buscar objetos de um andar a outro da casa a mando do marido. E "sheamum" — a palavra traduzida por "insensatez" — significa, segundo Rashi, uma forma de loucura ou desequilíbrio mental causado pela inatividade completa.