Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Hei · Mishná 2 de 9

Os doze meses da noiva

נוֹתְנִין לִבְתוּלָה שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do intervalo de tempo entre o noivado e o casamento efetivo: quanto tempo a noiva (e o noivo) têm para se preparar depois que um deles reivindica a realização do casamento, e o que acontece se esse prazo passar sem que as núpcias se concretizem — incluindo o direito da noiva de um cohen de comer da terumá nesse ínterim.

Dá-se à virgem doze meses a partir do momento em que o marido a reivindicou, para que se prepare. E assim como se dá à mulher, dá-se também ao homem, para que se prepare. Mas à viúva, trinta dias. Se chegou o prazo e não se casaram, ela come do que é dele; e se ele é cohen, ela come da terumá. Rabi Tarfon diz: dão-lhe tudo em terumá. Rabi Akiva diz: metade em não-sagrado e metade em terumá.Depois de noivos, a virgem tem direito a um ano inteiro para reunir seu enxoval e se preparar emocionalmente para o casamento, e o mesmo vale simetricamente para o noivo, que também precisa de tempo para se organizar; já a viúva, que geralmente já possui os utensílios de uma vida conjugal anterior, recebe apenas trinta dias. Se o prazo combinado chega e o casamento não se realiza por atraso do marido, ele já deve começar a sustentá-la; e se ele é um cohen casando-se com uma mulher israelita, ela adquire, desde o noivado, o direito bíblico de comer da terumá, pois já é "aquisição de seu dinheiro" — mas há divergência entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva sobre se ela deve receber todo o sustento em terumá ou apenas metade, reservando a outra metade para os dias de impureza ritual, quando ela não pode consumir terumá.

נוֹתְנִין לִבְתוּלָה שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ מִשֶּׁתְּבָעָהּ הַבַּעַל לְפַרְנֵס אֶת עַצְמָהּ. וּכְשֵׁם שֶׁנּוֹתְנִין לָאִשָּׁה, כָּךְ נוֹתְנִין לָאִישׁ לְפַרְנֵס אֶת עַצְמוֹ. וְלָאַלְמָנָה, שְׁלֹשִׁים יוֹם. הִגִּיעַ זְמַן וְלֹא נִשָּׂאוּ, אוֹכְלוֹת מִשֶּׁלּוֹ וְאוֹכְלוֹת בַּתְּרוּמָה. רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, נוֹתְנִין לָהּ הַכֹּל תְּרוּמָה. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, מֶחֱצָה חֻלִּין וּמֶחֱצָה תְּרוּמָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O prazo de doze meses é instituição rabínica, mas o direito da noiva de um cohen de comer da terumá desde o noivado é bíblico, fundado na expressão "aquisição de seu dinheiro".

Vayikrá (Levítico) 22:11
וְכֹהֵן כִּי יִקְנֶה נֶפֶשׁ קִנְיַן כַּסְפּוֹ הוּא יֹאכַל בּוֹ
E o cohen, quando adquirir uma pessoa por aquisição de seu dinheiro, esta comerá dele.

A Torá concede à esposa (ou, no caso da mulher noiva por dinheiro, à noiva) de um cohen o direito de comer da terumá pelo simples fato de ela ser "aquisição de seu dinheiro" — e o noivado por dinheiro (kessef) já constitui essa aquisição. Por isso, do ponto de vista estritamente bíblico, uma israelita noiva de um cohen já poderia comer da terumá desde o momento do noivado. Os sábios, porém, decretaram uma restrição a esse direito por receio de que a noiva, ainda morando na casa paterna e não instruída sobre as leis de pureza, pudesse servir da terumá a seus irmãos e irmãs não-cohanim — daí a instituição do prazo de doze meses e a exigência prática de que ela já esteja sob os cuidados do marido antes de exercer esse direito.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, sistematiza os diferentes prazos e a razão da divergência entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 5:2
כְּשֶׁאָדָם קִדֵּשׁ בְּתוּלָה אוֹ אַלְמָנָה וְעָמַד אַחַר הַקִּדּוּשִׁין זְמַן, וַאֲפִלּוּ עֶשֶׂר שָׁנִים עַל דֶּרֶךְ הַמָּשָׁל, וְאַחַר כָּךְ תְּבָעָהּ לְהִנָּשֵׂא — נוֹתְנִין לָהּ מִשְּׁעַת תְּבִיעָה לִבְתוּלָה שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ וְלָאַלְמָנָה שְׁלֹשִׁים יוֹם... וְכָל אִשָּׁה שֶׁתֹּאמַר לְבַעְלָהּ אֵינִי רוֹצָה לִקַּח כָּל מְזוֹנוֹתַי תְּרוּמָה, לְפִי שֶׁאֲנִי צְרִיכָה זְרִיזוּת וּשְׁמִירָה לְאָכְלָהּ בְּטָהֳרָה, לָכֵן נוֹתְנִין לָהּ מֶחֱצָה חֻלִּין וּמֶחֱצָה תְּרוּמָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Rambam esclarece que a contagem do prazo (doze meses ou trinta dias) começa não do noivado em si, mas do momento em que um dos noivos formalmente reivindica a realização do casamento — mesmo que já tenham se passado anos desde o noivado. Sobre a divergência entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva, Rambam explica que a lei segue Rabi Akiva: como a terumá exige cuidado redobrado para ser consumida em estado de pureza, e a noiva pode preferir não se sujeitar a essa exigência o tempo todo, dá-se a ela metade do sustento em alimento comum (que ela pode consumir livremente) e metade em terumá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a origem do número doze meses e a razão do decreto rabínico sobre a terumá; Rashi, sobre a Guemará, confirma os mesmos pontos de forma sucinta.

Bartenura · רע"ב
Ketubot 5:2
לְפַרְנֵס עַצְמָהּ. בְּתַכְשִׁיטֶיהָ שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ, דִּכְתִיב תֵּשֵׁב הַנַּעֲרָה אִתָּנוּ יָמִים, וּמַאי יָמִים, שָׁנָה... וְאוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה — אִם כֹּהֵן הוּא וְהִיא יִשְׂרְאֵלִית, שֶׁמִּשָּׁעָה שֶׁקִּדְּשָׁהּ אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה מִן הַתּוֹרָה... אֶלָּא דְּרַבָּנָן גָּזוּר עַל בַּת יִשְׂרָאֵל הַמְאֹרֶסֶת לְכֹהֵן שֶׁלֹּא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִמְזְגוּ לָהּ כּוֹס בְּבֵית אָבִיהָ וְתַשְׁקֶה לְאַחֶיהָ וּלְאַחְיוֹתֶיהָ

Bartenura traz a fonte textual do prazo de doze meses: a expressão bíblica sobre Rivka, "que a jovem fique conosco por dias" (Bereshit 24:55), é entendida pela tradição como significando um ano completo — daí o costume de dar à noiva um ano inteiro para se preparar. Sobre a terumá, Bartenura confirma que, embora o direito seja bíblico desde o momento do noivado (pois já é "aquisição de seu dinheiro"), os sábios decretaram uma restrição prática: temiam que a noiva, ainda morando com a família de origem, servisse sem querer da terumá a seus irmãos não-cohanim, que não têm o direito de consumi-la — por isso ela só passa a comer da terumá de fato quando já está sob os cuidados diretos do marido.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 57a
מַתְנִיתִין נוֹתְנִין לִבְתוּלָה — זְמַן לִכְנִיסָתָהּ לַחֻפָּה מִיּוֹם שֶׁתְּבָעָהּ הַבַּעַל לְאַחַר שֶׁקִּדְּשָׁהּ, לְהַזְהִירָהּ עַל עִסְקֵי חֻפָּה לְהָכִין תַּכְשִׁיטֶיהָ. וְאוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה — אִם כֹּהֵן הוּא וְהִיא יִשְׂרְאֵלִית, שֶׁמִּשָּׁעָה שֶׁקִּדְּשָׁהּ אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה מִן הַתּוֹרָה כִּדְמְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא, וְרַבָּנָן גָּזוּר עַד הַשְׁתָּא

Rashi confirma que o objetivo do prazo é dar tempo à noiva para se organizar e preparar seus enfeites e utensílios para o casamento, e ao noivo para preparar a refeição festiva e os preparativos da chupá. Sobre a terumá, Rashi resume o mesmo princípio de Bartenura em termos ainda mais sucintos: o direito bíblico existe desde o noivado, mas os sábios o suspenderam na prática "até agora" — isto é, até que o prazo de espera se esgote e ela efetivamente passe para os cuidados do marido.