Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Bet · Mishná 7 de 10

E também dois homens: quem pode se declarar kohen, e quem precisa de testemunho alheio

וְכֵן שְׁנֵי אֲנָשִׁים, זֶה אוֹמֵר כֹּהֵן אָנִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica exatamente o mesmo princípio da mishná anterior — sobre as duas cativas — a um novo contexto: dois homens de linhagem desconhecida que reivindicam, cada um, ser kohen.

E também dois homens — este diz: sou kohen; e aquele diz: sou kohen — não são confiáveis. E quando testemunham um sobre o outro, eis que estes são confiáveis.Assim como a mulher cativa não é confiável para declarar sua própria pureza diante de testemunhas do cativeiro, também aqui cada homem, ao declarar sobre si mesmo que é kohen, está fazendo uma alegação interessada — pois a condição de kohen traz privilégios, como o direito de comer a teruma e de receber as primeiras porções em diversas ocasiões. Mas quando cada um testemunha sobre o outro — este dizendo que aquele é kohen, e vice-versa —, o testemunho deixa de ser interessado sobre si mesmo e passa a ser sobre terceiro, e nesse caso é aceito, desde que não haja suspeita de conluio mútuo entre os dois para se beneficiarem reciprocamente.

וְכֵן שְׁנֵי אֲנָשִׁים, זֶה אוֹמֵר כֹּהֵן אָנִי וְזֶה אוֹמֵר כֹּהֵן אָנִי, אֵינָן נֶאֱמָנִין. וּבִזְמַן שֶׁהֵן מְעִידִין זֶה אֶת זֶה, הֲרֵי אֵלּוּ נֶאֱמָנִין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar (Números) 18:19
כֹּל תְּרוּמֹת הַקֳּדָשִׁים אֲשֶׁר יָרִימוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל לַיהֹוָה נָתַתִּי לְךָ וּלְבָנֶיךָ וְלִבְנֹתֶיךָ אִתְּךָ לְחָק עוֹלָם
Todas as ofertas alçadas das coisas sagradas que os filhos de Israel oferecerem ao Senhor, as tenho dado a ti e a teus filhos e a tuas filhas contigo, por estatuto perpétuo.

O direito de comer a teruma, reservado exclusivamente à linhagem sacerdotal, é o que está em jogo na disputa desta mishná: quem alega ser kohen está, na prática, reivindicando acesso a um privilégio material concreto e exclusivo. Por isso a Guemará equipara este caso ao da mulher cativa — em ambos, a autodeclaração interessada não basta, mas o testemunho mútuo e desinteressado entre duas partes na mesma situação é aceito, desde que a estrutura da reciprocidade não sugira um acordo prévio entre as partes para se beneficiarem mutuamente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Na ausência de um comentário específico de Rambam ao Perush HaMishná para este parágrafo, Bartenura serve de fonte principal, explicando o propósito prático da confiabilidade mútua: o direito à teruma.

Bartenura (como halachá) · Comentário à Mishná, Ketubot 2:7
אֵינָן נֶאֱמָנִים. לִתֵּן לָהֶם תְּרוּמָה. וּבִזְמַן שֶׁהֵן מְעִידִין זֶה עַל זֶה. שֶׁכָּל אֶחָד אוֹמֵר אֲנִי וַחֲבֵרִי כֹּהֵן

Bartenura precisa o objeto prático da disputa: a confiabilidade em questão diz respeito especificamente ao direito de receber a teruma — a porção sacerdotal separada da colheita. Quando cada homem declara apenas sobre si mesmo, não lhe é dada a teruma, pois trata-se de alegação interessada sem apoio externo. Mas quando cada um declara, ao mesmo tempo, sobre o companheiro — "eu sou kohen e meu companheiro também" —, a estrutura do testemunho muda: cada um está, nesse momento, testemunhando sobre outra pessoa, e essa reciprocidade, tomada como um todo, é aceita como prova suficiente para autorizar ambos a receber a teruma.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a mecânica do testemunho recíproco; Rashi, sobre a Guemará, situa a disputa da mishná seguinte, que discute os limites dessa reciprocidade quando pode haver suspeita de conluio.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Ketubot 2:7
אֵינָן נֶאֱמָנִים. לִתֵּן לָהֶם תְּרוּמָה. וּבִזְמַן שֶׁהֵן מְעִידִין זֶה עַל זֶה. שֶׁכָּל אֶחָד אוֹמֵר אֲנִי וַחֲבֵרִי כֹּהֵן

Já citado nas Halachot acima: Bartenura fixa o objeto concreto da confiabilidade discutida — o direito à teruma — e descreve a fórmula precisa do testemunho recíproco: cada homem declara, na mesma frase, tanto sua própria condição quanto a do companheiro, criando assim uma estrutura de testemunho mútuo que a mishná aceita.

Rashi · רַש"י
Sobre a Guemará, Ketubot 26a
רַבָּן שִׁמְעוֹן הַיְנוּ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר — דְּהָא וַדַּאי בְּמָקוֹם שֶׁיֵּשׁ עוֹרְרִין לֹא אָמַר רַבָּן שִׁמְעוֹן דְּלֶיהֱוֵי חַד נֶאֱמָן, וְכִי אָמַר מַעֲלִין בְּמָקוֹם שֶׁאֵין עוֹרְרִין קָאָמַר

Rashi, comentando a sugia que se desenvolve a partir desta mishná e da seguinte, nota que a Guemará precisa questionar em que exatamente Rabán Shimon ben Gamliel — citado na mishná seguinte — discorda de Rabi Elazar, já que ambos, à primeira vista, parecem exigir a ausência de contestadores (oreirin) para aceitar o testemunho de uma única pessoa. A resposta da Guemará, detalhada na mishná seguinte, é que a disputa real entre eles está na possibilidade de somar (letzaref) testemunhos dados em momentos diferentes — questão que a presente mishná, ao aceitar sem reservas o testemunho mútuo e simultâneo de dois homens, ainda não precisa enfrentar.