Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Alef · Mishná 8 de 10

"Fulano, e ele é kohen": a mulher vista conversando no mercado

רָאוּהָ מְדַבֶּרֶת עִם אֶחָד בַּשּׁוּק
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná desloca a disputa entre os mesmos três sábios para um cenário novo: não mais um marido contestando sua própria esposa, mas uma mulher solteira vista a sós com um homem, cuja própria palavra sobre a identidade dele determina se ela permanece apta a se casar com um kohen.

Viram-na conversando com alguém no mercado. Perguntaram-lhe: "quem é ele?" [Ela respondeu:] "Fulano, e ele é kohen". Rabán Gamliel e Rabi Eliezer dizem: ela é confiável. E Rabi Yehoshua diz: não vivemos pela boca dela, mas ela está sob presunção de ter tido relação com um natin ou um mamzer, até que traga prova para suas palavras.O cenário aqui é diferente dos anteriores: não há ainda casamento nem alegação de falta de virgindade, apenas o fato observado de que ela foi vista a sós ("medaberet", isolada) com um homem desconhecido. Como esse isolamento cria a suspeita de relação sexual, pergunta-se quem é o homem — pois, se ele fosse um natin (descendente dos giv'onim, proibido de se casar com israelitas comuns) ou um mamzer (filho de união proibida), ela mesma se tornaria proibida à kehuná por essa relação. Ela responde que ele é um kohen apto, o que, se verdadeiro, preserva plenamente sua aptidão para se casar futuramente com outro kohen. Rabán Gamliel e Rabi Eliezer confiam em sua identificação; Rabi Yehoshua não aceita apenas sua palavra, mantendo-a sob presunção da possibilidade mais grave até que ela traga prova concreta da identidade do homem.

רָאוּהָ מְדַבֶּרֶת עִם אֶחָד בַּשּׁוּק, אָמְרוּ לָהּ מַה טִּיבוֹ שֶׁל זֶה. אִישׁ פְּלוֹנִי וְכֹהֵן הוּא. רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמְרִים, נֶאֱמֶנֶת. וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, לֹא מִפִּיהָ אָנוּ חַיִּין, אֶלָּא הֲרֵי זוֹ בְחֶזְקַת בְּעוּלָה לְנָתִין וּלְמַמְזֵר, עַד שֶׁתָּבִיא רְאָיָה לִדְבָרֶיהָ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 23:3
לֹא־יָבֹא מַמְזֵר בִּקְהַל ה׳, גַּם דּוֹר עֲשִׂירִי לֹא־יָבֹא לוֹ בִּקְהַל ה׳
Não entrará o mamzer na assembleia do Eterno; nem sua décima geração entrará na assembleia do Eterno.

Esta é a fonte bíblica da própria categoria de mamzer que a mishná invoca como a possibilidade mais grave contida na dúvida sobre a identidade do homem visto com ela — pois se ela tivesse tido relação com um mamzer ou um natin (este último proibido por decreto rabínico equiparado, na prática, à mesma severidade), sua aptidão para se casar com um kohen ficaria comprometida. A disputa entre Rabán Gamliel, Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua gira, então, em torno de quanto peso dar à própria palavra de uma mulher quando ela testemunha, em sua própria causa, contra a presunção mais severa que decorre do fato observado.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica no Perush HaMishná o sentido técnico de "medaberet" e a consequência prática da decisão a favor de Rabán Gamliel.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 1:8
מְדַבֶּרֶת כִּנּוּי עַל הַיִּחוּד, וְטִיב הִיא סִבָּה... וְהַהֲלָכָה כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל

Rambam explica que "conversando" (medaberet) é, aqui, uma expressão eufemística para "isolada" — o texto não fala de uma simples conversa pública, mas de um isolamento com potencial de relação. E a palavra "tivo" (טיב), usada na pergunta "qual é o tivo deste?", significa "causa" ou "circunstância" — em vários outros lugares os sábios usam expressões similares como "tivo de guitin ve-kidushin" ou "tivo de avodá zará", sempre no sentido de "qual é a história por trás disso". A halachá segue Rabán Gamliel: ela é confiável, e permanece apta à kehuná com base em sua própria identificação do homem como kohen.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura resume os termos-chave da mishná; Rambam acrescenta a consequência para o casamento posterior de um kohen com ela mesma.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Ketubot 1:8
מְדַבֶּרֶת. מִתְיַחֶדֶת: וְכֹהֵן הוּא. מְיֻחָס: נֶאֱמֶנֶת. כְּשֵׁרָה לַכְּהֻנָּה

Bartenura confirma que "conversando" significa "isolada", e que "kohen" aqui significa especificamente "de linhagem sacerdotal legítima" (meyuchas), não apenas alguém que se apresenta como kohen sem confirmação da pureza de sua linhagem. Sendo ela confiável nessa identificação, ela permanece apta a se casar futuramente com a kehuná.

Rambam · הָרַמְבַּ״ם
Perush HaMishná, Ketubot 1:8 (continuação)
וְר' יְהוֹשֻׁעַ מַחְמִיר וְאָמַר אַף עַל פִּי שֶׁהִיא נִתְיַחֲדָה עִם אָדָם יָדוּעַ וְהוּא בְּתַכְלִית הַכַּשְׁרוּת אֵינָהּ נֶאֱמֶנֶת, אֶלָּא הִיא בְּחֶזְקַת בְּעוּלָה לִפְסוּלִים וְתִהְיֶה פְּסוּלָה לַכְּהֻנָּה

Rambam esclarece a posição rigorosa de Rabi Yehoshua: mesmo que o homem com quem ela se isolou seja conhecido e de reputação absolutamente idônea, sua simples identificação verbal não basta — para Rabi Yehoshua, ela permanece sob presunção de ter tido relação com alguém desqualificado, tornando-se ela mesma desqualificada para a kehuná, até que apresente prova concreta e não apenas sua própria palavra. A halachá, no entanto, não segue essa posição mais rigorosa, mas sim a de Rabán Gamliel.