Seder Nashim · Massechet Ketubot · Perek Alef · Mishná 1 de 10

O dia do casamento: quarta-feira para a virgem, quinta para a viúva

בְּתוּלָה נִשֵּׂאת לַיּוֹם הָרְבִיעִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná de abertura do tratado fixa os dias da semana para o casamento — quarta-feira para a virgem, quinta-feira para a viúva — e explica a razão prática por trás dessa tacaná (enactment) dos sábios: a proximidade dos dias em que os tribunais se reuniam nas cidades.

A virgem se casa na quarta-feira, e a viúva na quinta-feira. Pois duas vezes por semana os tribunais se reúnem nas cidades, na segunda-feira e na quinta-feira, para que, se ele tivesse uma alegação sobre a virgindade, pudesse ir cedo ao tribunal.Ao fixar o casamento da virgem para a quarta-feira, os sábios garantiam que, no dia seguinte, quinta-feira, o tribunal já estivesse reunido — assim, se o noivo alegasse não ter encontrado nela sinais de virgindade, poderia levar sua queixa ao tribunal enquanto sua indignação ainda estivesse fresca, antes que se acalmasse e a mantivesse por hábito, ou antes que ela, sob suspeita, tivesse oportunidade de se corromper sob seu teto. A viúva, cujo casamento não envolve essa mesma alegação urgente, casa-se na quinta-feira para que o marido possa alegrar-se com ela por três dias — quinta, sexta e sábado — antes de retomar o trabalho.

בְּתוּלָה נִשֵּׂאת לַיּוֹם הָרְבִיעִי, וְאַלְמָנָה לַיּוֹם הַחֲמִישִׁי. שֶׁפַּעֲמַיִם בַּשַּׁבָּת בָּתֵּי דִינִין יוֹשְׁבִין בָּעֲיָרוֹת, בַּיּוֹם הַשֵּׁנִי וּבַיּוֹם הַחֲמִישִׁי, שֶׁאִם הָיָה לוֹ טַעֲנַת בְּתוּלִים, הָיָה מַשְׁכִּים לְבֵית דִּין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot (Êxodo) 21:10
שְׁאֵרָהּ כְּסוּתָהּ וְעֹנָתָהּ לֹא יִגְרָע
Sua alimentação, sua vestimenta e seu tempo conjugal ele não diminuirá.

Esta mishná abre o tratado que detalha o dever conjugal e financeiro do marido para com a esposa — cuja base está neste versículo, que estabelece três obrigações mínimas de todo casamento israelita. A obrigação da ketubá em si, com sua soma fixa e a alegação de virgindade que a mishná já introduz, é uma tacaná dos sábios que protege a mulher e formaliza, em termos concretos e exigíveis em tribunal, o compromisso que a Torá já exige do marido desde o primeiro instante do casamento.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a razão da tacaná dos dias fixos de casamento, no Perush HaMishná.

Rambam · Perush HaMishná, Ketubot 1:1
מַה שֶּׁחִיֵּב שֶׁתִּנָּשֵׂא בְתוּלָה בְּיוֹם רְבִיעִי וְלֹא תִנָּשֵׂא בְּאֶחָד בַּשַּׁבָּת, כְּדֵי שֶׁיִּטְרַח בְּצָרְכֵי הַחֻפָּה וְיָכִין שְׁלֹשָׁה יָמִים קֹדֶם הַהַכְנָסָה

Rambam explica que a razão de a virgem se casar na quarta-feira, e não no domingo, é para que o noivo tenha tempo de se preparar para as necessidades da chupá com três dias de antecedência à entrada da noiva em sua casa — o mínimo necessário para uma filha de Israel. Já a viúva casa-se na quinta-feira para que o marido possa alegrar-se com ela por três dias — quinta, sexta e sábado —, nos lugares em que o tribunal se reunia apenas às segundas e quintas-feiras; onde o tribunal era permanente todos os dias, o casamento podia ocorrer em qualquer dia, exceto domingo e sexta-feira, por receio de que se profanasse o Shabat com os preparativos da refeição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha os tipos de alegação de virgindade e o raciocínio da tacaná; Rashi, na abertura da Guemará, explica por que a pressa em ir ao tribunal protege tanto o marido quanto a esposa.

Rambam · הָרַמְבַּ״ם
Perush HaMishná, Ketubot 1:1
וְאֵין הֶפְרֵשׁ בַּנִּשּׂוּאִין בֵּין בָּחוּר אוֹ אַלְמוֹן לְעִנְיַן שִׂמְחָה, אֲבָל אִם יֵשׁ הֶפְרֵשׁ בַּנִּשּׂוּאִין לְעִנְיַן בְּרָכָה

Rambam acrescenta que não há diferença, quanto à obrigação de alegria, entre o noivo solteiro e o viúvo — ambos devem alegrar-se com sua nova esposa pelo período determinado conforme o status dela. Mas há diferença quanto à bênção dos noivos: se o marido é solteiro, ou a esposa é virgem, ainda que o outro lado já tenha sido casado, recita-se a bênção completa dos noivos durante sete dias; apenas quando um viúvo desposa uma viúva a bênção se limita a um único dia.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Ketubot 1:1
בְּתוּלָה נִשֵּׂאת לַיּוֹם רְבִיעִי. וְלֹא בְלֵיל חֲמִישִׁי, דְּאִיכָּא לְמֵיחַשׁ שֶׁמָּא יִהְיֶה טָרוּד בַּנִּשּׂוּאִים וְלֹא מָצֵי בָּעֵיל: שֶׁאִם יֵשׁ לוֹ טַעֲנַת בְּתוּלִים. כְּגוֹן שֶׁיֹּאמַר בָּעַלְתִּי וְלֹא מָצָאתִי דָם... אוֹ פֶּתַח פָּתוּחַ מָצָאתִי

Bartenura explica que o casamento ocorre na quarta-feira, e não na noite de quinta, para que o noivo não esteja atarefado demais com os preparativos e deixe de consumar a união naquela mesma noite. A alegação de falta de virgindade pode se dar de duas formas: dizer que teve relação e não encontrou sangue — o que vale para menor, jovem ou adulta — ou dizer que encontrou a passagem já aberta, o que vale apenas para menor ou jovem, pois a adulta não tem mais essa segunda alegação. O noivo deve ir cedo ao tribunal enquanto sua indignação ainda está fresca, pois, se demorar, poderá se reconciliar e mantê-la por hábito, ou ela poderá, entrementes, ter cometido adultério e ficado proibida a ele. Nos lugares em que o tribunal não se reunia às segundas e quintas, o casamento podia ocorrer em qualquer dia, desde que o noivo se ocupasse da refeição por três dias antes.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a Guemará, Ketubot 2a
בְּשָׁנֵי וּבַחֲמִישִׁי. אַחַת מֵעֶשֶׂר תַּקָּנוֹת שֶׁתִּקֵּן עֶזְרָא... וּלְכָךְ תִּקְּנוּ שֶׁתִּנָּשֵׂא בָּרְבִיעִי, שֶׁאִם הָיָה לוֹ טַעֲנַת בְּתוּלִים יַשְׁכִּים לְבֵית דִּין בְּעוֹד כַּעֲסוֹ עָלָיו

Rashi identifica os dias de segunda e quinta-feira para a sessão dos tribunais como uma das dez tacanot institiuídas por Ezra o Escriba. Por isso os sábios fixaram o casamento da virgem para a quarta-feira: se o noivo tivesse uma alegação sobre a virgindade, poderia ir cedo ao tribunal na quinta-feira seguinte, enquanto sua indignação ainda estivesse fresca — pois, havendo tempo de sobra entre o casamento e a sessão do tribunal, haveria o risco de que ele se reconciliasse e a mantivesse por hábito apesar da suspeita, ou de que ela tivesse, nesse ínterim, cometido adultério e se tornado proibida a ele; e, por meio dessa pressa em recorrer ao tribunal, o próprio boato se esclarece antes que testemunhas se percam.