Seder Kodashim · Massechet Keritot · Perek Dalet · Mishná 1 de 3

As quatro dúvidas do asham talui

סָפֵק אָכַל חֵלֶב, סָפֵק לֹא אָכַל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O Perek Dalet abre com o catálogo dos casos de dúvida genuína — sobre o fato, sobre a medida, sobre o item, sobre a pessoa, sobre o dia — que obrigam ao asham talui, a oferta de culpa condicional

Dúvida se comeu gordura proibida, dúvida se não comeu; e mesmo se comeu, dúvida se havia nela a medida que obriga, dúvida se não havia nela. Gordura proibida e gordura permitida diante dele, comeu uma delas e não se sabe qual delas comeu. Sua esposa e sua irmã com ele na casa, teve relação inadvertida com uma delas e não se sabe com qual delas teve relação inadvertida. Shabat e dia de semana, e fez um trabalho num deles e não se sabe em qual deles fez — traz um asham talui.

— Encerrado o Perek Guimel com a série de perguntas de Rabi Akiva sobre acúmulos de chatot certas, o tratado vira a página para o tema que dá nome ao asham talui: não mais a certeza do pecado com dúvida apenas sobre a contagem, mas a própria dúvida sobre se houve pecado. A mishná reúne cinco variantes dessa incerteza. A primeira é a dúvida sobre o fato em si — não se sabe se a pessoa comeu gordura proibida ou não comeu nada. A segunda é a dúvida sobre a quantidade: é certo que comeu gordura proibida, mas não se sabe se havia nela o tamanho de azeitona que obriga, o kazait, ou se a porção era menor. As três últimas variantes partilham uma mesma estrutura: dois itens estavam diante da pessoa, um proibido e outro permitido, ela interagiu com um deles sem saber qual — comeu uma de duas peças (gordura proibida e gordura permitida), teve relação com uma de duas mulheres que estavam na casa (a própria esposa e a irmã, ambas presentes, sendo proibida apenas a relação com a irmã), ou realizou um trabalho proibido num de dois dias (Shabat e um dia comum, sabendo que era véspera mas não identificando qual dos dois momentos era o Shabat). Em todos esses casos há uma dúvida real e concreta — não apenas ignorância genérica — sobre se um ato proibido foi de fato cometido; e é justamente essa estrutura de dúvida objetiva, ancorada em dois itens ou duas possibilidades concretas, que a Torá trata como suficiente para obrigar o asham talui, distinto do caso em que não há sequer um fato concreto ao qual amarrar a suspeita.

סָפֵק אָכַל חֵלֶב, סָפֵק לֹא אָכַל. וַאֲפִלּוּ אָכַל, סָפֵק יֵשׁ בּוֹ כַשִּׁעוּר, סָפֵק שֶׁאֵין בּוֹ. חֵלֶב וְשֻׁמָּן לְפָנָיו, אָכַל אֶת אַחַד מֵהֶן וְאֵין יָדוּעַ אֵיזוֹ מֵהֶן אָכַל. אִשְׁתּוֹ וַאֲחוֹתוֹ עִמּוֹ בַבַּיִת, שָׁגַג בְּאַחַת מֵהֶן וְאֵין יָדוּעַ בְּאֵיזוֹ מֵהֶן שָׁגָג. שַׁבָּת וְיוֹם חֹל, וְעָשָׂה מְלָאכָה בְאַחַת מֵהֶן וְאֵין יָדוּעַ בְּאֵיזוֹ מֵהֶן עָשָׂה. מֵבִיא אָשָׁם תָּלוּי:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keritot 4:1

Rambam explica que a mishná trouxe exemplos análogos entre alimentos, atos e relações para esclarecer como se configura o “não foi conhecido” que obriga ao asham talui: assim como quem come gordura proibida e gordura proibida numa única inadvertência não é obrigado senão a uma única chatat, também, quanto ao que não lhe foi conhecido, não é obrigado senão a um único asham; e se houve conhecimento entre um e outro, assim como traz uma chatat para cada um, também traz um asham talui para cada um. E o que se diz “traz um asham talui para cada um” refere-se a quando lhe surgiu uma nova dúvida no intervalo, pois sobre a dúvida não se traz asham como não se traz chatat sobre o conhecimento certo — por exemplo: comeu gordura proibida e, depois de comer, teve dúvida se era gordura permitida ou não, e depois comeu novamente gordura proibida e também teve dúvida se era permitida ou proibida — nesse caso traz um asham talui para cada uma das gorduras.

Bartenura · Keritot 4:1
סָפֵק אָכַל חֵלֶב סָפֵק לֹא אָכַל. וְהֵיכִי דָּמֵי, כְּגוֹן חֵלֶב וְשֻׁמָּן לְפָנָיו וְאָכַל אֶת אַחַד מֵהֶן, כִּדְתָנֵי בְּסֵיפָא. וּפָרוֹשֵׁי קָמְפָרֵשׁ, סָפֵק אָכַל חֵלֶב סָפֵק לֹא אָכַל כֵּיצַד, כְּגוֹן שֶׁהָיָה חֵלֶב וְשֻׁמָּן לְפָנָיו וְיֵשׁ כָּאן אִסּוּר קָבוּעַ. אֲבָל אִם הָיְתָה לְפָנָיו חֲתִיכָה אַחַת, סָפֵק שֶׁהִיא חֵלֶב סָפֵק שֶׁהִיא שֻׁמָּן, וַאֲכָלָהּ, פָּטוּר, דְּלֹא אִקְּבַע אִסּוּרָא: וַאֲפִלּוּ אָכַל. וַדַּאי חֵלֶב, סָפֵק יֵשׁ בּוֹ כַּזַּיִת. וּכְגוֹן שֶׁבְּשָׁעָה שֶׁאֲכָלוֹ סָבוּר שֻׁמָּן הוּא וְאַחַר כָּךְ נוֹדַע לוֹ שֶׁהוּא חֵלֶב, וְסָפֵק יֵשׁ בּוֹ כַּזַּיִת סָפֵק אֵין בּוֹ: אָכַל אֶת אַחַד מֵהֶן. וּכְסָבוּר שֻׁמָּן הוּא, וְאַחַר כָּךְ נוֹדַע שֶׁהָאֶחָד הָיָה חֵלֶב, וְזֶה אֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזוֹ אָכַל, מֵבִיא אָשָׁם תָּלוּי. אֲבָל אִם בִּשְׁעַת אֲכִילָה הָיְתָה לוֹ סָפֵק וְהֵזִיד וַאֲכָלָהּ מִסָּפֵק, הָוֵי מֵזִיד וּפָטוּר: שָׁגַג בְּאַחַת מֵהֶן. כְּסָבוּר זוֹ אִשְׁתּוֹ, וְאַחַר כָּךְ נִסְתַּפֵּק אֵיזוֹ מֵהֶן הָיְתָה, מֵבִיא אָשָׁם תָּלוּי:

Bartenura explica “dúvida se comeu gordura proibida, dúvida se não comeu”: e como é isso? Por exemplo, gordura proibida e gordura permitida diante dele e comeu uma delas, como se ensina no final da mishná. E a mishná está explicando: dúvida se comeu gordura proibida, dúvida se não comeu, como é isso? Por exemplo, havia gordura proibida e gordura permitida diante dele e há aqui uma proibição fixa (issur kavua); mas se havia diante dele uma única peça, dúvida se era gordura proibida, dúvida se era gordura permitida, e ele a comeu, está isento, pois a proibição não estava fixada. “E mesmo se comeu”: certamente gordura proibida, dúvida se havia nela o tamanho de azeitona — por exemplo, quando a comeu pensava que era gordura permitida e depois soube que era proibida, e há dúvida se havia nela o tamanho de azeitona ou não. “Comeu uma delas”: pensando que era gordura permitida, e depois soube que uma delas era proibida, e este não sabe qual comeu — traz um asham talui; mas se, no momento de comer, já tinha dúvida e agiu com deliberação e a comeu por dúvida, é considerado deliberado e está isento. “Teve relação inadvertida com uma delas”: pensando que era sua esposa, e depois teve dúvida sobre qual das duas era — traz um asham talui.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Dois pontos da Guemará em Keritot 17b–19a, comentados por Rashi: a discussão entre Rav Assi e Chiyya bar Rav sobre se a primeira cláusula da mishná fala de uma única peça de status duvidoso ou de duas peças distintas, e a explicação da kaparah incerta que protege quem trouxe o asham talui em dúvida.
Rashi רַשִׁ״י
Keritot 18b, sobre a opinião de que a mishná trata de duas peças
ר׳ אליעזר היא — הילכך ליכא למימר חולין לעזרה נינהו: ואתני אי ראשון שומן אכל — ודאי השני חלב ואי אכל ודאי חלב מספקא ליהוי ליה כפרה להגין עליו עד שיודע לו ויביא חטאת ואי לא ליהוי נדבה:
Rashi explica que a opinião citada segue Rabi Eliezer, e por isso não se pode dizer que se trata de chulin em relação ao Templo. E quanto à condição estabelecida — se a primeira peça comida era gordura permitida, então a segunda era certamente gordura proibida; e se a primeira comida era certamente gordura proibida, então o asham trazido por dúvida serve de kaparah incerta que o protege até que se lhe torne conhecido o fato e traga então a chatat correspondente; e, se não se lhe tornar conhecido, o asham permanece como oferta voluntária.
Rashi רַשִׁ״י
Keritot 19a, sobre a posição de Rabi Shimon quanto à impureza do Templo
רַבִּי שִׁמְעוֹן פּוֹטֵר בָּזוֹ — דְּשְׁנֵי טוּמְאוֹת נִינְהוּ, אָכַל חֲדָא וַחֲדָא, כְּנִיסָה אִיכָּא לְמֵימַר שְׁבִיל זֶה הוּא הַטָּהוֹר, וְהִלְכָּךְ לֵיכָּא יְדִיעָה וַדָּאִית בַּתְּחִלָּה, וּבְטוּמְאַת מִקְדָּשׁ בָּעֵינַן יְדִיעָה בַּתְּחִלָּה וּבַסּוֹף וְהֶעְלֵם בֵּינְתַיִם, וְתַנָּא קַמָּא דְּמְחַיֵּב מְפָרֵשׁ טַעְמֵיהּ לְקַמָּן:
Rashi explica que Rabi Eliezer isenta nesse caso porque se trata de duas impurezas distintas, cada entrada podendo ser atribuída à via pura; por isso não há conhecimento certo no início, e para a impureza do Templo exige-se conhecimento tanto no início quanto no fim, com esquecimento no intervalo — estrutura paralela à das dúvidas que a nossa mishná reúne para o asham talui.