Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Hei · Mishná 10 de 11

O forno de Achnai e o forno de Ben Dinai

זֶה תַנּוּרוֹ שֶׁל עַכְנָאי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O forno cortado em anéis com areia entre eles e revestido de barro por fora, na disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre se a areia interrompe a ligação — este é o forno de Achnai; e as caldeiras dos árabes cavadas na terra, cuja impureza depende de o reboco poder sustentar-se por si mesmo — o forno de Ben Dinai

Cortou-o em anéis e pôs areia entre um anel e outro: Rabi Eliezer purifica, e os sábios impurificam. Este é o forno de Achnai. As caldeiras dos árabes, que se cava na terra e se reboca com barro: se o reboco pode sustentar-se por si mesmo, é impura; e se não, é pura. E este é o forno de Ben Dinai.

Esta mishná descreve um forno montado de modo particular: cortado em anéis, como nas mishnayot anteriores, mas remontado com uma camada de areia entre cada anel e o seguinte, e depois revestido por fora com uma única camada contínua de barro, que envolve todos os anéis e lhes dá a aparência de um forno único e inteiro. A disputa entre Rabi Eliezer e os sábios gira em torno do que realmente define a “ligação” que constitui um vaso: para Rabi Eliezer, a areia colocada entre os anéis é o que importa, e como ela pode sempre se desfazer e separar as partes, o forno é, em essência, permanentemente quebrado e disperso, e por isso puro — a camada externa de barro, para ele, não basta para uni-lo. Os sábios discordam: o barro que reveste e toca todos os anéis por fora já os une numa peça só, tornando-o, para todos os efeitos, um forno completo e impuro. Esta mishná é a origem halachica do que ficou conhecido na tradição rabínica como “o forno de Achnai” — um caso cuja disputa, segundo relata o próprio Rambam em seu comentário a esta mishná, teve repercussões que ultrapassaram a própria questão técnica, envolvendo Rabán Gamliel e seu tribunal; o desenrolar completo desse episódio, porém, é narrado com riqueza de detalhes pela tradição amoraica registrada no Talmud Bavli (Bava Metzia 59b), fora do escopo desta Mishná, que aqui se limita a fixar a lei objetiva, sem lei segundo Rabi Eliezer. A mishná fecha com um caso paralelo: as caldeiras usadas pelos árabes, cavadas diretamente no chão e revestidas de barro por dentro, seguem um critério distinto — tornam-se impuras apenas se o revestimento de barro for suficientemente consistente para se sustentar como um vaso independente, mesmo sem o apoio da terra ao redor; se não tiver essa consistência própria, permanece preso à condição do solo, e o solo não recebe impureza. Este segundo caso é chamado “o forno de Ben Dinai”, nome que, segundo o Rambam, também remete a uma disputa notória sobre essas caldeiras.

חֲתָכוֹ חֻלְיוֹת וְנָתַן חֹל בֵּין חֻלְיָא לְחֻלְיָא, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר מְטַהֵר, וַחֲכָמִים מְטַמְּאִין. זֶה תַנּוּרוֹ שֶׁל עַכְנָאי. יוֹרוֹת הָעַרְבִיִּין שֶׁהוּא חוֹפֵר בָּאָרֶץ וְטָח בְּטִיט, אִם יָכוֹל הַטִּיחַ לַעֲמוֹד בִּפְנֵי עַצְמוֹ, טָמֵא. וְאִם לָאו, טָהוֹר. וְזֶה תַנּוּרוֹ שֶׁל בֶּן דִּינָאי:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 5:10
נתן חול בין חוליא לחוליא. שיעשה חוליא…

“Pôs areia entre um anel e outro”: que fez um anel, e depois pôs areia ao redor, e montou um segundo anel sobre essa areia, e não parou de fazer isso até completar a forma do forno e sua altura; depois o rebocou com barro por fora até completá-lo. Disse Rabi Eliezer que a areia separa entre os anéis, e ele é como quebrado e dividido para sempre, e por isso é puro. E os sábios dizem que o barro que toca todos os anéis por fora já os ligou, e o considera um forno completo. E caiu, entre Rabi Eliezer e os sábios, uma disputa grande e poderosa, com muitas provas, até que, naquele dia, Rabán Gamliel e seu tribunal queimaram todas as purezas que Rabi Eliezer havia declarado puras, e o excomungaram [o texto usa o eufemismo “o abençoaram”]. E por isso se chama “o forno de Achnai”, relacionado a “achná”, que é uma grande serpente, e disseram que o cercaram de respostas como uma serpente [o cerca]. E, da mesma forma, caíram muitas palavras a respeito das caldeiras dos árabes — que é a escavação que cavam no chão para assar nela —, e depois disso ficaram unidas [em disputa]; e concordaram com a lei mencionada aqui; e por isso essa forma se chama “o forno de Ben Dinai”, relacionado a “din” [julgamento]. E a lei não segue Rabi Eliezer.

Bartenura · Keilim 5:10
חֲתָכוֹ חֻלְיוֹת. שֶׁחֲתָכוֹ לַתַּנּוּר בְּרָחְבּוֹ…

Sobre “cortou-o em anéis”: que cortou o forno, pela sua largura, em anéis, e colocou um anel sobre o outro.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. O célebre relato aggádico do “forno de Achnai” — com a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios em torno de sinais e de uma voz celestial — pertence à Guemará de Bava Metzia (59a–b), no Talmud Bavli, e não a este tratado; por isso não é reproduzido aqui.