Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Bet · Mishná 8 de 8 — última do capítulo

A tocha, o reservatório do candeeiro e o pente do jarro

הַלַּפִּיד טָמֵא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o capítulo com três casos finais de vasos de barro: a tocha, impura por ter lugar fixo de assento; o reservatório do candeeiro, impuro pelo ar; e a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre o pente do tzartzur

A tocha é impura. E o reservatório do candeeiro torna-se impuro pelo ar. O pente do tzartzur: Rabi Eliezer purifica, e os sábios impurificam.

A última mishná do capítulo fecha com três casos ligados a utensílios de iluminação e de água. A tocha — um pequeno prato de barro pontudo por baixo, encaixado no alto de uma haste, onde se colocam panos embebidos em óleo ou piche para servir de archote — é impura, apesar de sua forma pontuda dificultar que fique em pé sozinha: bastaria isso para se pensar que, sem lugar próprio de assento, seria pura como outros objetos pontudos; mas, como seu encaixe no alto da haste é um lugar preparado e específico para recebê-la, a mishná ensina que ela se torna impura mesmo assim. O “reservatório do candeeiro” — um vaso de barro onde o candeeiro se encaixa e afunda parcialmente — conta como interior verdadeiro, tornando-se impuro pelo ar, ainda que apenas uma pequena parte do candeeiro fique de fato submersa nele. O terceiro caso, o pente do tzartzur (um jarro de água com uma peneira embutida na boca, cercada de dentes ornamentais semelhantes aos de um pente), traz a última disputa do capítulo: se um réptil fica suspenso no ar entre esses dentes, Rabi Eliezer não considera esse espaço um “interior” verdadeiro de vaso de barro, e por isso purifica; os sábios discordam, consideram esse espaço interior pleno, e impurificam — opinião que prevalece como lei.

הַלַּפִּיד, טָמֵא. וּבֵית שִׁקְעוֹ שֶׁל נֵר, מִטַּמֵּא בַאֲוִיר. הַמַּסְרֵק שֶׁל צַרְצוּר, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר מְטַהֵר, וַחֲכָמִים מְטַמְּאִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 2:8
הלפיד אור דולק הוא כלי מחרס דומה כקנה ובראשו אוזן קטנה דבקה עמו בעת עשייתו…

Rambam descreve o lapid (tocha) como um fogo aceso: um vaso de barro em forma de cana, com uma pequena alça presa a ele desde o momento de sua fabricação, na qual se coloca um pedaço de pano embebido em piche ou óleo para acender; segura-se erguida, e ela ilumina o caminho. Faz-se também, de barro, um vaso com uma cavidade própria para acomodar o candeeiro, no qual se recolhe todo o óleo que escorre de sua boca, contornando o topo do castiçal para que o cobre não se estrague com o óleo — esse vaso é chamado “reservatório do candeeiro”.

Fazem-se também vasos de barro com uma tampa embutida no meio, feita como uma peneira desde o momento da fabricação — a maioria dos vasos usados para beber água em nossa terra são assim; esse tipo de jarro é o que se chama tzartzur, como se esclarecerá em Mikvaot (cap. 3, mishná 3). Ao redor da peneira, acima do jarro, fazem-se entalhes em forma de lírio, semelhantes aos dentes de um pente — e por isso se chama “pente do tzartzur”; da mesma forma, os entalhes ao redor do pescoço da romã são chamados “pente da romã”, como se esclarecerá em Uktzin (cap. 2). Diz Rabi Eliezer que, quando um réptil fica suspenso no espaço acima da peneira, cercado por esses entalhes, não se torna impuro, pois esse espaço não é considerado interior verdadeiro de vaso de barro, já que sua borda está recortada de todos os lados; mas os sábios impurificam, considerando esse espaço interior pleno. A lei segue os sábios.

Bartenura · Keilim 2:8
הַלַּפִּיד · כְּעֵין קְעָרָה שֶׁל חֶרֶס מְחֻדֶּדֶת מִלְּמַטָּה וְתוֹחֲבִים חִדּוּדָהּ בְּרֹאשׁ קוּנְדֵּס…

Bartenura descreve o lapid como uma espécie de prato de barro, pontudo por baixo, cuja ponta se encaixa no alto de uma haste; nesse prato colocam-se pedaços de pano, óleo e piche, e o conjunto é aceso e erguido, iluminando à distância. E, por ser pontudo e não poder ficar em pé sozinho, poder-se-ia pensar que não se tornaria impuro — a mishná ensina que, como seu lugar de assento é preparado e específico para encaixá-lo no alto da haste, ele se torna impuro mesmo assim.

O “reservatório do candeeiro” é um vaso de barro feito para que o candeeiro se assente e afunde nele. Sobre “torna-se impuro pelo ar”: pois esse espaço é considerado interior para tornar-se impuro pelo ar, ainda que nem todo o candeeiro afunde nele, mas apenas uma pequena parte dele.

O “pente do tzartzur” é um vaso de barro sobre cuja boca se faz uma peneira, como uma grade em forma de rede, através da qual a água é derramada por muitos pontos; a maioria dos vasos usados para beber água na Terra de Ishmael são feitos assim. Ao redor dessa peneira sobressaem dentes como os dentes de um pente, feitos como ornamento. Se um réptil fica suspenso no ar entre esses dentes, Rabi Eliezer e os sábios discordam se esse espaço é considerado interior de vaso de barro ou não. E a lei segue os sábios, que o consideram interior e impurificam.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Bet · סִיּוּם הַפֶּרֶק

הַמַּסְרֵק שֶׁל צַרְצוּר וַחֲכָמִים מְטַמְּאִים

Com esta oitava mishná, encerra-se o Perek Bet de Massechet Keilim, dedicado inteiramente aos vasos de barro (e, por extensão, aos de “nêter” e vidro) e à pergunta central que atravessa quase todas as suas oito mishnayot: o que faz de um objeto de barro um verdadeiro receptáculo, suscetível à impureza, e o que o deixa de fora dessa categoria?

O capítulo abriu (2:1) com a regra geral que equipara barro e “nêter”, distinguindo-os dos demais materiais por sua purificação exclusiva pela quebra, e por sua impureza restrita ao interior e ao exterior côncavo, nunca ao dorso convexo. A mishná 2:2 mediu com precisão a partir de que tamanho um fragmento de vaso quebrado volta a contar como vaso, nas escalas rivais de Rabi Yishmael e Rabi Akiva. A mishná 2:3 reuniu os objetos de barro imunes por não terem sido feitos para receber, fechando com a regra-mestra: sem interior, não há exterior. As mishnayot 2:4 e 2:5 desceram a casos concretos e cotidianos — lanterna, molde de oleiro, funil, tampas de jarros e da panela — em que a intenção e o uso real do objeto decidem sua condição. A mishná 2:6 tratou do caco encontrado no forno e do aspersor de furos finos; e a mishná 2:7, do modo como a impureza se propaga (ou não) entre compartimentos ligados de um mesmo vaso, seja de barro, seja de madeira. Por fim, esta mishná fechou com três casos ligados à luz e à água: a tocha, o reservatório do candeeiro, e o pente do tzartzur.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Guimel, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as fronteiras entre o vaso suscetível e o objeto imune à impureza — ao longo dos vinte e sete perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.