Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Alef · Mishná 3 de 9

Do boel niddá ao zav

לְמַעְלָה מֵהֶן, בּוֹעֵל נִדָּה, שֶׁהוּא מְטַמֵּא מִשְׁכָּב תַּחְתּוֹן כָּעֶלְיוֹן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A escala sobe em cinco novos degraus: o boel niddá, o fluxo do zav (com seus derivados), o merkav, o mishkav, e por fim o próprio zav — cada um mais grave que o anterior por uma razão específica

Acima destes, o que teve relação com uma menstruada, pois ele contamina a cama inferior como a superior. Acima destes, o fluxo do zav, e sua saliva, e sua emissão seminal, e sua urina, e o sangue da menstruada, pois estes contaminam por contato e por carregamento. Acima destes, o objeto sobre o qual se cavalga, pois ele contamina mesmo sob uma pedra pesada que o cubra. Acima do objeto de cavalgar, o objeto de deitar, pois seu contato equivale ao seu carregamento. Acima do objeto de deitar, o zav, pois o zav faz um objeto de deitar, mas o objeto de deitar não faz outro objeto de deitar.

A terceira mishná avança por cinco degraus sucessivos. Primeiro, aquele que teve relação com uma mulher menstruada (boel niddá) recebe uma gravidade específica: ele passa a contaminar não apenas a cama sobre a qual se deita (a “superior”), mas também a cama por baixo dele (a “inferior”), equiparando-se nesse aspecto à própria mulher menstruada. Em seguida, os derivados do fluxo do zav (o homem com secreção genital anormal) — sua saliva, sua emissão seminal, sua urina — e o sangue da menstruada superam o boel niddá porque contaminam tanto por contato quanto por carregamento, em qualquer quantidade. Depois vem o merkav, o objeto sobre o qual se cavalga (como o arreio de uma sela), que contamina mesmo se uma pedra pesada estiver colocada entre o corpo do zav e o objeto, desde que o peso do zav se transmita através dela. Acima do merkav está o mishkav, o objeto sobre o qual se deita, porque nele o contato equivale ao carregamento — ambos exigem lavagem de vestes, enquanto no merkav apenas o carregamento exige essa lavagem. E, no topo desta série, está o próprio zav: pois o zav, ao deitar-se, torna aquele objeto um “mishkav” capaz de contaminar outros por sua vez, mas um mishkav já contaminado não tem esse mesmo poder de tornar um segundo objeto em mishkav — ele apenas contamina como primeiro grau comum.

לְמַעְלָה מֵהֶן, בּוֹעֵל נִדָּה, שֶׁהוּא מְטַמֵּא מִשְׁכָּב תַּחְתּוֹן כָּעֶלְיוֹן. לְמַעְלָה מֵהֶן, זוֹבוֹ שֶׁל זָב וְרֻקּוֹ וְשִׁכְבַת זַרְעוֹ וּמֵימֵי רַגְלָיו, וְדַם הַנִּדָּה, שֶׁהֵן מְטַמְּאִין בְּמַגָּע וּבְמַשָּׂא. לְמַעְלָה מֵהֶן, מֶרְכָּב, שֶׁהוּא מְטַמֵּא תַּחַת אֶבֶן מְסָמָא. לְמַעְלָה מִן הַמֶּרְכָּב, מִשְׁכָּב, שֶׁשָּׁוֶה מַגָּעוֹ לְמַשָּׂאוֹ. לְמַעְלָה מִן הַמִּשְׁכָּב, הַזָּב, שֶׁהַזָּב עוֹשֶׂה מִשְׁכָּב, וְאֵין מִשְׁכָּב עוֹשֶׂה מִשְׁכָּב:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 1:3
אמרי’ בבועל הנדה ואם שכב איש אותה ותהי נדתה עליו וטמא ז’ ימים…

Rambam parte do versículo sobre o boel niddá, “e se um homem se deitar com ela, e sua menstruação vier sobre ele, ficará impuro por sete dias”: a expressão “sua menstruação vier sobre ele” ensina que ele passa a ser fonte primária de impureza como ela, capaz de contaminar pessoa e vaso de barro, por contato e por carregamento. Mas a expressão seguinte, “e todo objeto de deitar sobre o qual ela se deitar ficará impuro”, traz a condição adicional: seu próprio objeto de deitar não será fonte primária como o dela, mas apenas derivado (como um utensílio que a tocou) — contaminando apenas alimentos e líquidos, não pessoa nem utensílios. Rambam explica ainda que, quando a mishná fala em “objeto de deitar”, não se deve imaginar que o impuro precisa tocar diretamente o objeto: ainda que houvesse mil vestes ou mil cadeiras empilhadas e ele se sentasse sobre todas, todas se chamariam “objeto de deitar”, sem diferença entre o utensílio em contato direto e os demais empilhados sobre ele — tudo é impureza de mishkav. Sobre “cama inferior como a superior”, esclarece que o boel niddá contamina alimentos e líquidos tanto na cama sobre a qual se deita quanto na que fica por baixo dele, exatamente como o que fica sobre o zav. Não há diferença, para efeito de tumat mishkav, entre relação convencional e não convencional, e o parceiro deve ter nove anos e um dia ou mais.

Sobre o fluxo do zav, sua saliva, sua urina e sua emissão seminal: a tradição ensina que a expressão bíblica “e esta será sua impureza em seu fluxo” inclui também esses derivados, pois não há fluxo sem alguns traços dessas secreções. Já quanto ao sangue da menstruada, o versículo “e a que padece em sua menstruação” é entendido como “seu sangue impuro como o corpo dela mesma” — tudo isso contamina por contato e por carregamento, em qualquer quantidade, sendo essa a estrita adição que os coloca acima do boel niddá.

Sobre o merkav, Rambam explica que é tudo o que é apto para cavalgar, como a cadeira, a manta de sela ou o arreio, e que se contamina mesmo que haja uma pedra pesada (“even messama”, termo já usado no livro de Daniel para uma pedra grande colocada sobre a boca de uma cova) interposta entre o corpo do zav e o objeto — desde que o peso do zav ainda alcance o objeto através dela. Sobre o mishkav, Rambam explica que a Torá o distingue do merkav justamente porque, no mishkav, tanto o contato quanto o carregamento exigem lavagem de vestes, enquanto no merkav apenas o carregamento exige essa lavagem, não o contato isolado. E encerra citando a fonte da última cláusula: “o zav faz objeto de deitar, mas objeto de deitar não faz objeto de deitar” — de modo que, se o mishkav do zav tocar utensílios, estes se tornam apenas primeiro grau de impureza, e não mishkav por sua vez.

Bartenura · Keilim 1:3
בּוֹעֵל נִדָּה. כְּתִיב בֵּיהּ וּתְהִי נִדָּתָהּ עָלָיו…

Bartenura explica: sobre o boel niddá está escrito “e sua menstruação virá sobre ele”, ensinando que ele contamina objetos de deitar e de sentar como a menstruada; e, como logo depois está escrito “e todo objeto de deitar sobre o qual ele se deitar ficará impuro”, o primeiro versículo deve ser reinterpretado: seu propósito é apenas ensinar que o boel niddá é fonte primária de impureza como ela, contaminando pessoa e vaso de barro — mas, quanto a tornar objetos de deitar e sentar em fontes primárias capazes de contaminar pessoa e utensílios (como faz o objeto de deitar da própria menstruada), ele não tem esse poder; seu objeto de deitar tem apenas o estatuto de primeiro grau de impureza, contaminando alimentos e líquidos, mas não pessoa nem utensílios.

Sobre “objeto de deitar inferior como o superior”: o objeto de deitar inferior do boel niddá equivale ao objeto de deitar superior do zav — assim como o objeto superior do zav (isto é, aquilo colocado sobre ele, como dez colchas empilhadas com o zav embaixo de todas) contamina alimentos e líquidos, mas não pessoa nem utensílios, também o objeto inferior do boel niddá (isto é, aquilo sobre o qual ele se deita) contamina apenas alimentos e líquidos. Já o objeto inferior do próprio zav, zavá, menstruada ou parturiente — mesmo que sejam dez colchas empilhadas e um desses impuros esteja apenas sobre a de cima — todas as de baixo ficam impuras e contaminam pessoa e utensílios.

Sobre “acima destes, o fluxo do zav etc.”: porque os itens listados a partir daqui contaminam em qualquer quantidade, por contato e por carregamento, enquanto o boel niddá só contamina ao carregar seu corpo inteiro — por isso a mishná os coloca acima dele. Sobre “contaminam por contato e por carregamento”, isto é, seu contato equivale ao seu carregamento: em ambos os casos contaminam a pessoa a ponto de esta contaminar vestes e utensílios, exceto pessoa e vaso de barro.

Sobre “merkav”: chama-se assim o suporte do arreio (o próprio arreio sobre o qual a pessoa cavalga chama-se “moshav”, assento, e é impuro por esse título; seu suporte chama-se merkav). Sobre “contamina mesmo sob uma pedra pesada”: se havia uma pedra grande sobre o suporte do merkav e o zav a segurava, ainda que seu peso não fosse perceptível sobre o merkav, o suporte sob a pedra se contamina como merkav.

Sobre “acima do merkav, o mishkav”: porque, além de o mishkav também se contaminar sob uma pedra pesada como o merkav, ele é ainda mais grave, pois seu contato equivale ao seu carregamento para contaminar a pessoa a ponto de contaminar vestes — está explicitamente escrito “e o homem que tocar seu objeto de deitar lavará suas vestes”, e, quanto ao carregamento, depois que a Torá menciona a lei do contato com o mishkav e do contato com o merkav, diz “e o que os carregar lavará suas vestes” — ficando claro que, no mishkav, tanto o contato quanto o carregamento exigem lavagem de vestes, mas no merkav a Escritura distingue: apenas o carregamento a exige, não o contato isolado.

Sobre “e objeto de deitar não faz objeto de deitar”: pois está escrito “todo objeto de deitar sobre o qual o zav se deitar ficará impuro” — o zav faz objeto de deitar, mas objeto de deitar não faz objeto de deitar; portanto, se o objeto de deitar do zav tocar utensílios, estes são apenas primeiro grau de impureza. Conclui-se assim que o próprio zav está acima do mishkav na escala desta mishná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.