Seder Moed · Massechet Eruvin · Perek Zayin · Mishná 2 de 11

O muro entre dois pátios: frutas no alto e a brecha que vira porta

כֹּתֶל שֶׁבֵּין שְׁתֵּי חֲצֵרוֹת גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa da janela ao muro: um muro de dez tefachim de altura e quatro de largura entre dois pátios é alto e sólido demais para servir de porta, e por isso exige dois eiruvin distintos; ainda assim, se há frutas em seu topo, os moradores de cada lado podem subir e comer sem descer para o pátio do outro, pois o alto do muro é considerado domínio à parte; e se o muro foi rompido, a brecha, quando mede até dez amot, passa a valer como porta — permitindo, se quiserem, um eiruv só — mas, se for maior, o muro deixa de separar de fato os pátios e passa a exigir um eiruv único

Um muro entre dois pátios, alto de dez tefachim e largo de quatro, fazem-se dois eiruvin e não se faz um só.um muro dessa altura e espessura é uma partição real e sólida entre os dois pátios, incapaz de servir como porta; por isso os dois lados permanecem domínios distintos, cada um com seu próprio eiruv, sem a opção de uni-los. Se havia frutas em seu topo, estes sobem por aqui e comem, e aqueles sobem por ali e comem, contanto que não desçam para baixo.o topo do muro, largo o bastante para sustentar quem sobe nele, é considerado um domínio à parte, que não pertence exclusivamente a nenhum dos dois pátios; por isso os moradores de ambos os lados podem subir e comer das frutas ali, mas não podem descer o alimento para dentro do pátio, o que equivaleria a transportar de um domínio a outro sem eiruv. Se o muro foi rompido até dez amot, fazem-se dois eiruvin, e se quiserem, fazem-se um só, porque é como uma porta.uma brecha dessa largura, até dez amot, ainda é pequena o bastante para ser vista como uma abertura de passagem, e não como o desaparecimento do muro; por isso os moradores mantêm a escolha entre dois eiruvin ou um só. Mais que isso, fazem-se um eiruv só e não se fazem dois.uma brecha maior que dez amot já não é uma porta, mas o colapso da própria partição; os dois pátios deixam de fato de estar separados, e por isso só resta a opção de um único eiruv.

כֹּתֶל שֶׁבֵּין שְׁתֵּי חֲצֵרוֹת גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה וְרָחָב אַרְבָּעָה, מְעָרְבִין שְׁנַיִם וְאֵין מְעָרְבִין אֶחָד. הָיוּ בְרֹאשׁוֹ פֵרוֹת, אֵלּוּ עוֹלִין מִכָּאן וְאוֹכְלִין, וְאֵלּוּ עוֹלִין מִכָּאן וְאוֹכְלִין, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יוֹרִידוּ לְמַטָּה. נִפְרְצָה הַכֹּתֶל עַד עֶשֶׂר אַמּוֹת, מְעָרְבִין שְׁנַיִם, וְאִם רָצוּ מְעָרְבִין אֶחָד, מִפְּנֵי שֶׁהוּא כְפֶתַח. יוֹתֵר מִכָּאן, מְעָרְבִין אֶחָד וְאֵין מְעָרְבִין שְׁנָיִם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 16:29
רְאוּ כִּי יְהֹוָה נָתַן לָכֶם הַשַּׁבָּת עַל כֵּן הוּא נֹתֵן לָכֶם בַּיּוֹם הַשִּׁשִּׁי לֶחֶם יוֹמָיִם שְׁבוּ אִישׁ תַּחְתָּיו אַל יֵצֵא אִישׁ מִמְּקֹמוֹ בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי׃
Vede que Hashem vos deu o Shabat; por isso Ele vos dá no sexto dia pão de dois dias; ficai cada um em seu lugar, ninguém saia de seu lugar no sétimo dia.

"Cada um em seu lugar" também admite um ponto médio: o alto do muro, que não pertence de fato a nenhum dos dois lugares. É por isso que os moradores dos dois pátios podem subir e comer das frutas que ali estão sem que isso os obrigue a um eiruv, mas não podem trazer o alimento de volta para dentro de seu pátio: subir ao domínio neutro do topo não é sair de seu lugar, mas descer dali para dentro de casa, sim. E quando o próprio muro se rompe, a mishná mede exatamente até que ponto a fronteira ainda existe como fronteira — dez amot de brecha ainda são uma porta; além disso, os "dois lugares" já se tornaram um só, quisessem os moradores ou não.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica por que a largura de quatro tefachim do muro só importa por causa do caso das frutas no topo, e fixa a medida da brecha que transforma o muro numa porta.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Eruvin 3:3, 3:10
כֹּתֶל שֶׁבֵּין שְׁתֵּי חֲצֵרוֹת אוֹ מַתְבֵּן שֶׁבֵּין שְׁתֵּי חֲצֵרוֹת פָּחוֹת מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים מְעָרְבִין עֵרוּב אֶחָד וְאֵין מְעָרְבִין שְׁנַיִם. הָיָה גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה אוֹ יֶתֶר עַל כֵּן מְעָרְבִין שְׁנֵי עֵרוּבִין אֵלּוּ לְעַצְמָן וְאֵלּוּ לְעַצְמָן... נִפְרַץ הַכֹּתֶל הַגָּבוֹהַּ שֶׁבֵּינֵיהֶן. אִם הָיְתָה הַפִּרְצָה עַד עֶשֶׂר אַמּוֹת מְעָרְבִין שְׁנֵי עֵרוּבִין. וְאִם רָצוּ מְעָרְבִין אֶחָד מִפְּנֵי שֶׁהִיא כְּפֶתַח. הָיְתָה יֶתֶר מֵעֶשֶׂר מְעָרְבִין עֵרוּב אֶחָד וְאֵין מְעָרְבִין שְׁנֵי עֵרוּבִין:

Um muro entre dois pátios, ou um monte de palha entre dois pátios, menor que dez tefachim de altura, fazem um eiruv só e não fazem dois. Se era alto de dez ou mais, fazem dois eiruvin, cada um por si (...). Se o muro alto entre eles foi rompido: se a brecha era até dez amot, fazem dois eiruvin; e se quiserem, fazem um só, porque é como uma porta. Se era maior que dez, fazem um eiruv só e não fazem dois eiruvin.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam por que a largura do muro só é mencionada por causa da regra das frutas, o domínio à parte que é o topo do muro, e a medida exata da brecha que o transforma numa porta.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Eruvin 7:2
כותל שבין שתי חצירות גבוה עשרה ורחב ארבעה כו':
אמרו ובלבד שלא יורידו למטה רוצה לומר שלא יוליכו מה שעל הכותל אל הדיורין שבבתים אבל להוריד משם לחצר הבית מותר וכשיש ברחב הכותל פחות מארבעה טפחים שהוא מקום פטור כאשר בארנו פעמים מותר להם להוציא מה שבבתים ולהניחו על אותו הכותל ומותר לאנשי הבית השני שיקחו אותו הדבר עצמו מעל הכותל ויכניסו אותו לבתיהם:

"Um muro entre dois pátios, alto de dez e largo de quatro..." — quando dizem "contanto que não desçam para baixo", querem dizer que não levem o que está sobre o muro para dentro das moradias, nas casas; mas descer dali para o pátio da própria casa é permitido.

E quando a largura do muro é menor que quatro tefachim, sendo um lugar isento, como já explicamos, às vezes é permitido tirar o que está nas casas e depositá-lo sobre esse muro, e é permitido aos moradores da outra casa tomarem essa mesma coisa de cima do muro e trazê-la para dentro de suas casas.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Eruvin 7:2
כֹּתֶל שֶׁבֵּין שְׁתֵּי חֲצֵרוֹת. הַאי דְּנָקַט רֹחַב אַרְבָּעָה לָאו מִשּׁוּם דְּצָרִיךְ רֹחַב אַרְבָּעָה לְמֵהֲוֵי סְתִימָה, דִּמְחִצָּה בְּרֹחַב כָּל דְּהוּ הַוְיָא סְתִימָה. אֶלָּא מִשּׁוּם דְּבָעֵי לְמִתְנֵי סֵיפָא הָיוּ [בְּרֹאשׁוֹ] פֵּרוֹת אֵלּוּ עוֹלִין מִכָּאן וְאוֹכְלִין וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יוֹרִידוּ לְמַטָּה, דְּחָשִׁיב רְשׁוּת בְּאַנְפֵּי נַפְשַׁהּ, וּלְהַאי דִּינָא צָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה רֹחַב אַרְבָּעָה, דְּפָחוֹת מֵאַרְבָּעָה הָוֵי מָקוֹם פְּטוֹר וּמֻתָּרִין אֵלּוּ וָאֵלּוּ לְהוֹרִיד לְמַטָּה: יוֹתֵר מִכָּאן. הָוֵי פִּרְצָה, וְהַוְיָא כֻּלָּהּ כְּחָצֵר אַחַת, וְאִם עֵרְבָה כָּל אַחַת לְעַצְמָהּ הָוֵי כְּאִלּוּ חוֹלְקִין אֶת עֵרוּבָן וְאוֹסְרִין אֵלּוּ עַל אֵלּוּ:

"Um muro entre dois pátios" — o fato de mencionar a largura de quatro não é porque seja necessária uma largura de quatro para que haja vedação, pois uma partição de qualquer largura já é vedação; mas sim porque a mishná precisa ensinar, no fim, o caso de haver frutas no topo, que estes sobem por aqui e comem e aqueles sobem por ali e comem, contanto que não desçam para baixo — pois o topo é considerado um domínio à parte; e para essa regra é necessário que a largura seja de quatro, pois menos que quatro é lugar isento, e ambos os lados podem descer o alimento.

"Mais que isso" — é uma brecha, e o conjunto passa a ser como um único pátio; e se cada lado fez eiruv por si, é como se tivessem dividido seu eiruv, proibindo-se mutuamente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Eruvin 76b, 77a
מתני' כותל שבין שתי חצירות - האי דנקט רחב ארבע משום סיפא נקט ליה דבעי למיתני היו בראשו פירות אלו עולין מכאן ואוכלין ובלבד שלא יורידו למטה דחשיב רשותא באנפי נפשיה ולא מיבטל לא לגבי האי ולא לגבי האי: ובלבד שלא יורידו - כדפרישית: יותר מכאן - הוי פירצה והוי להו כולהו כדיורי חצר אחת ואם עירבה כל אחת לעצמה הוו להו כחולקין את עירובן ואוסרין אלו על אלו: מעלין - מחצירן לראשו, והוא הדין דמורידין, דמקום פטור הוא ובטיל לכאן ולכאן להקל:

"Um muro entre dois pátios" — a menção da largura de quatro é por causa do que vem no fim: se havia frutas em seu topo, estes sobem por aqui e comem, e aqueles sobem por ali e comem, contanto que não desçam para baixo — pois o topo é considerado um domínio à parte, que não se anula nem a favor de um lado nem do outro.

"Contanto que não desçam para baixo" — como já explicado. "Mais que isso" — é uma brecha, e todos passam a ser como moradores de um único pátio; e se cada um fez eiruv por si, é como se tivessem dividido seu eiruv, proibindo-se mutuamente.

"Sobem" — de seus pátios até o topo do muro; e o mesmo vale para descer, pois é um lugar isento, anulado para um lado e para o outro, no sentido de facilitar.