Seder Moed · Massechet Eruvin · Perek Gimel · Mishná 1

Com tudo se faz eiruv, exceto água e sal; o dinheiro de ma'aser; o nazireu, o israelita e o cohen

בַּכֹּל מְעָרְבִין וּמִשְׁתַּתְּפִים, חוּץ מִן הַמַּיִם וּמִן הַמֶּלַח
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abertura do Perek Gimel: os materiais válidos para eiruv e shitufim, o dinheiro de ma'aser sheni, e como se dá eiruv a quem não pode comer o próprio alimento — o nazireu, o israelita e o cohen

Com tudo se faz eiruv e shitufimeiruvei techumin e shitufei mevoot, com qualquer alimento — exceto com água e com salque não são considerados alimento capaz de fixar residência. E tudo se compra com dinheiro de ma'asero segundo dízimo, que deve ser gasto em Jerusalém com comida e bebida — exceto com água e com salpela mesma razão. Quem faz voto de abstinência de alimento é permitido em água e em salpois eles não se incluem na categoria de mazon. Faz-se eiruv para um nazireu com vinhoainda que proibido para ele, é próprio para outros — e para um israelita com terumaque lhe é proibida, mas é própria para os cohanim. Sumchos diz: com chulindiscordando quanto à teruma, pois exige que o alimento seja próprio para quem faz o eiruv. E para um cohen, em beit haperascampo onde foi arado um túmulo, pois ele pode entrar ali examinando o solo. Rabi Yehuda diz: mesmo em um cemitériopode-se depositar o eiruv de um cohen — pois ele pode sair para fora e comerconstruindo ali uma divisória que o proteja de estar sob o mesmo teto que os mortos.

בַּכֹּל מְעָרְבִין וּמִשְׁתַּתְּפִים, חוּץ מִן הַמַּיִם וּמִן הַמֶּלַח. וְהַכֹּל נִקָּח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, חוּץ מִן הַמַּיִם וּמִן הַמֶּלַח. הַנּוֹדֵר מִן הַמָּזוֹן, מֻתָּר בְּמַיִם וּבְמֶלַח. מְעָרְבִין לְנָזִיר בְּיַיִן וּלְיִשְׂרָאֵל בִּתְרוּמָה. סוּמְכוֹס אוֹמֵר, בְּחֻלִּין. וּלְכֹהֵן בְּבֵית הַפְּרָס. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֲפִלּוּ בְּבֵית הַקְּבָרוֹת, מִפְּנֵי שֶׁיָּכוֹל לֵילֵךְ לָחוּץ וְלֶאֱכֹל:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 14:26
וְנָתַתָּה הַכֶּסֶף בְּכֹל אֲשֶׁר תְּאַוֶּה נַפְשְׁךָ בַּבָּקָר וּבַצֹּאן וּבַיַּיִן וּבַשֵּׁכָר וּבְכֹל אֲשֶׁר תִּשְׁאָלְךָ נַפְשֶׁךָ וְאָכַלְתָּ שָּׁם לִפְנֵי יְהֹוָה אֱלֹהֶיךָ וְשָׂמַחְתָּ אַתָּה וּבֵיתֶךָ׃
E darás o dinheiro por tudo o que desejar a tua alma, por gado e por ovelhas, por vinho e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; e comerás ali diante de Hashem teu Deus, e te alegrarás tu e a tua casa.

De onde vem a regra sobre o dinheiro de ma'aser. A mishná abre o Perek Gimel com dois princípios paralelos — os materiais válidos para eiruv, e os produtos que se compram com o dinheiro do segundo dízimo — e liga o segundo diretamente a este versículo, que autoriza gastar o dinheiro de ma'aser sheni em Jerusalém "por tudo o que desejar a tua alma". A mishná restringe essa amplitude: água e sal, por não serem considerados alimento propriamente dito, ficam fora tanto do eiruv quanto da compra com dinheiro de ma'aser — mesmo sendo indispensáveis para preparar qualquer refeição.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica a regra central da mishná: pode-se fazer eiruv com um alimento proibido a quem o organiza, desde que seja próprio para outra pessoa — mas nunca com algo proibido a todos.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Eruvin 1:14-15
אֹכֶל שֶׁהוּא מֻתָּר בַּאֲכִילָה אַף עַל פִּי שֶׁהוּא אָסוּר לְזֶה הַמְעָרֵב הֲרֵי זֶה מְעָרֵב בּוֹ וּמִשְׁתַּתֵּף בּוֹ. כֵּיצַד. מִשְׁתַּתֵּף הַנָּזִיר בְּיַיִן וְיִשְׂרָאֵל בִּתְרוּמָה... אֲבָל דָּבָר הָאָסוּר לַכֹּל כְּגוֹן טֶבֶל אֲפִלּוּ טֶבֶל שֶׁל דִּבְרֵי סוֹפְרִים... אֵין מְעָרְבִין וּמִשְׁתַּתְּפִין בָּהֶן. אֲבָל מְעָרְבִין וּמִשְׁתַּתְּפִין בִּדְמַאי מִפְּנֵי שֶׁרָאוּי לָעֲנִיִּים:

Um alimento que é permitido para comer, ainda que proibido para aquele que organiza o eiruv, com ele se faz eiruv e shituf. Como assim? O nazireu participa com vinho, e o israelita com teruma... Mas uma coisa proibida a todos, como tevel — mesmo tevel apenas por decreto rabínico — não se faz com ela eiruv nem shituf. Mas se faz eiruv e shituf com demai, pois é próprio para os pobres.

O critério: próprio para alguém, não para o próprio doador. O princípio do Rambam explica por que a mishná permite o vinho para o nazireu e a teruma para o israelita, mas não estende essa lógica à água e ao sal: estes não são impróprios apenas para uma pessoa específica, mas simplesmente não se qualificam como alimento capaz de estabelecer residência para ninguém. Já o demai — produto suspeito de não ter sido dizimado por um am ha'aretz — é válido porque, apesar da dúvida, permanece próprio para consumo dos pobres, que estão isentos da obrigação de separar dízimos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abertura do Perek Gimel: os comentadores explicam por que água e sal ficam fora da regra "com tudo se faz eiruv", e detalham a disputa sobre o eiruv do cohen em beit haperas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Eruvin 3:1
בכל מערבין ומשתתפין חוץ מן המים ומן המלח כו':
מערבין ר"ל עירובי תחומין... ואין ראוי שיהיה דבר מזה העירוב אלא במאכלים והמים והמלח אינם מן המזונות אבל הם מוליכין המזון למקומותיו הידועות... וכסף מעשר הוא מעשר שני שדינו לקנות בו מאכל ומשקה בלבד בירושלים והוא מה שאמר הכתוב ונתת בכל אשר תאוה נפשך... ולנזיר ביין ולישראל בתרומה לפי שהם אפילו אינם ראויות לאכילתו ראוין הן לאכילת זולתו:

"Com tudo se faz eiruv e shitufim, exceto com água e sal etc." — mearvin refere-se ao eiruv de techumin... e não é próprio que algo deste eiruv seja senão alimentos, e a água e o sal não são parte dos alimentos, mas conduzem o alimento aos seus lugares próprios.

E o dinheiro de ma'aser é o segundo dízimo, cuja lei é comprar com ele comida e bebida somente em Jerusalém, conforme o que disse o versículo: "e darás por tudo o que desejar a tua alma".

E "para o nazireu com vinho, e para o israelita com teruma" — porque, embora não sejam próprios para o consumo de quem faz o eiruv, são próprios para o consumo de outrem.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Eruvin 3:1
בַּכֹּל מְעָרְבִין. עֵרוּבֵי תְּחוּמִין. דְּאִלּוּ עֵרוּבֵי חֲצֵרוֹת אֵין מְעָרְבִין אֶלָּא בַּפַּת... וּלְכֹהֵן בְּבֵית הַפְּרָס. סְתָמָא הִיא, וְלָאו סוּמְכוֹס קָאֲמַר לַהּ. בֵּית הַפְּרַס. שָׂדֶה שֶׁנֶּחְרַשׁ בָּהּ קֶבֶר מֻתָּר לְכֹהֵן לִכָּנֵס שָׁם כְּשֶׁהוּא מְנַפֵּחַ וְהוֹלֵךְ וְרוֹאֶה שֶׁאֵינוֹ נוֹגֵעַ בְּעֶצֶם כִּשְׂעוֹרָה: לָחוֹץ. לַעֲשׂוֹת מְחִצָּה בֵּינוֹ לַקֶּבֶר שֶׁלֹּא יַאֲהִיל, כְּגוֹן שֶׁיִּכָּנֵס שָׁם בְּשִׁדָּה תֵּבָה וּמִגְדָּל... וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

"Com tudo se faz eiruv" — eiruvei techumin, pois o eiruv de pátios só se faz com pão...

"E para um cohen, em beit haperas" — é opinião não atribuída, e não é Sumchos quem a diz. Beit haperas — campo onde foi arado um túmulo; é permitido ao cohen entrar ali quando avança sondando o chão e verificando que não toca em nenhum osso do tamanho de uma cevada.

"Lá fora" — para construir uma divisória entre ele e o túmulo, de modo que não fique sob o mesmo teto que o morto — por exemplo, entrando ali dentro de uma caixa, arca ou torre fechada. E a halachá segue os Sábios, que discordam de Rabi Yehuda mesmo quanto ao israelita comum, dizendo que não se deposita eiruv de techumin em um cemitério.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Eruvin 26b-27a
מתני' בכל מערבין - עירובי חצירות ותחומין: ומשתתפין - במבוי: חוץ מן המים ומן המלח - דלאו מידי דמזון הן וטעמא דעירוב משום דדעתו ודירתו במקום מזונותיו הוא... בכסף מעשר - בתוך ירושלים כשהוא מוציאו לצורך מאכלו כדכתיב ונתתה הכסף בכל אשר תאוה נפשך: מערבין לנזיר - עירובי תחומין: ביין - ואף על גב דלא חזי לדידיה חזי לאחריני וכיון דמזונא הוא גבי אחריני שרו ליה רבנן: ולישראל בתרומה - דהא חזיא לכהן: סומכוס אומר בחולין - אבל לא בתרומה דמידי דחזי ליה בעינן: ולכהן בבית הפרס - סתמא היא ולאו סומכוס קאמר לה, מניחין עירוב לכהן בבית הפרס אע"ג דבעינן דמצי למיזל ולמישקליה: לחוץ - לעשות מחיצה בינו ובין הקבר שלא יאהיל עליו וכגון בשידה תיבה ומגדל יכנס שם מבעוד יום:

"Mishná: com tudo se faz eiruv" — eiruvei chatzerot e techumin. "E shitufim" — no beco.

"Exceto com água e com sal" — pois não são coisa de alimento, e a razão do eiruv é que a intenção e a residência da pessoa acompanham o lugar de seu alimento...

"Com dinheiro de ma'aser" — dentro de Jerusalém, quando o gasta para sua comida, conforme está escrito: "e darás o dinheiro por tudo o que desejar a tua alma".

"Faz-se eiruv para o nazireu" — eiruv de techumin — "com vinho" — e ainda que não seja próprio para ele, é próprio para outros, e por ser alimento em relação a outros, os Sábios permitiram-lho.

"E para o israelita, com teruma" — pois é própria para o cohen. "Sumchos diz: com chulin" — mas não com teruma, pois exigimos algo que seja próprio para ele mesmo.

"E para o cohen, em beit haperas" — é opinião não atribuída, e não é Sumchos quem a diz; deposita-se o eiruv de um cohen em beit haperas, embora exijamos que ele possa ir e apanhá-lo.

"Lá fora" — para construir uma divisória entre ele e o túmulo, de modo que não fique sob o mesmo teto — entrando ali, por exemplo, em uma caixa, arca ou torre, ainda de dia.