Testemunhou Rabi Yosé ben Yoezer, homem de Tzereda, sobre o gafanhoto ayal, que é puro; e sobre o líquido da casa do abatedouro, que é puro; e que quem se aproxima de um morto se contamina. E chamavam-no: Yosé o Permissivo. — Este testemunho é notável por ser um dos únicos, em toda a Mishná, transmitido não em hebraico, mas em aramaico — sinal, segundo a tradição, de sua grande antiguidade, remontando a Rabi Yosé ben Yoezer, um dos primeiros dos zugot (pares de sábios) que precederam Hilel e Shamai. Três afirmações compõem seu testemunho. Primeira: o "ayal-kamtza", um tipo de gafanhoto, é puro e permitido para consumo — identificando-o entre as espécies de gafanhotos puros mencionadas na Torá. Segunda: os líquidos (sangue e água) que se acumulam na casa do abatedouro do Templo, onde se abatiam os sacrifícios, são puros e não transmitem impureza a outros alimentos — apesar de haver, em princípio, uma disputa sobre se a impureza de líquidos é de origem bíblica ou apenas decreto rabínico. Terceira: quem toca com certeza um cadáver torna-se impuro — afirmação que, à primeira vista, parece óbvia, mas que a Guemará explica estar dizendo o oposto por implicação: que apenas o toque certo contamina, mas em caso de dúvida sobre se houve contato com um morto, em domínio público, a pessoa permanece pura. Por essas três leniências, Rabi Yosé ben Yoezer foi apelidado "Yosé Sharya" — "Yosé o Permissivo" — pois um tribunal que declara permitidas três coisas não óbvias ganha esse título.
Rambam explica que "ayal-kamtza" é um tipo de gafanhoto semelhante ao ayal, traduzido no Targum como espécie de gafanhotos puros e permitidos para consumo. "A casa do abatedouro" é o local conhecido no pátio do Templo onde se abatiam os sacrifícios; e o testemunho trata do sangue e da água ali utilizados, declarando-os puros e incapazes de transmitir impureza — havendo, quanto à impureza de líquidos em geral, disputa entre os Sábios se é de origem bíblica ou apenas rabínica, mas mesmo segundo quem a considera bíblica, quanto aos líquidos do abatedouro do Templo há uma tradição recebida ("halachá guemurá") de que são puros. Quanto a "quem se aproxima de um morto se contamina": a Guemará esclarece que se trata de dúvida de impureza em domínio público, que é pura — pois quando há certeza de contato com o morto, contamina; mas quando há apenas dúvida, é pura, e isso vale a fortiori para impurezas mais leves. E por isso ele foi chamado "Yosé o Permissivo", por ter permitido três coisas, como se vê; e é costume que todo tribunal que permite três coisas seja chamado "tribunal permissivo". E a halachá decidida quanto à dúvida de impureza em domínio público é que se diz à pessoa: "não perdes nada em imergir-te", mas se não imergiu e tocou coisas sagradas, elas permanecem puras sem dúvida.
Bartenura explica: "ayal-kamtza" é um tipo de gafanhoto, traduzido no Targum como espécie das que se assemelham aos gafanhotos; "puro" significa apto e permitido para consumo. Sobre "o líquido da casa do abatedouro": trata-se do sangue e da água que estão na casa do abatedouro do pátio do Templo; e "que são puros" — há quem diga que são totalmente puros, pois a impureza de líquidos não é de origem bíblica, mas apenas decreto rabínico, e nesse caso específico os Sábios não decretaram; e há quem diga que são puros apenas quanto a contaminar outras coisas, mas quanto a se contaminarem eles mesmos, sim, pois há impureza bíblica de líquidos, e os Sábios não podem purificar o que a Torá contaminou. "E quem se aproxima com certeza de um morto, se contamina" — quer dizer: apenas quando há certeza de contato com o morto há contaminação; mas em caso de dúvida, mesmo tratando-se da impureza mais severa (a do cadáver), permanece puro — e, antes de Rabi Yosé ben Yoezer, diziam essa halachá mas não a ensinavam na prática; ele veio e testemunhou que se ensina assim, de início, para purificar toda dúvida de impureza em domínio público. E o chamavam "Yosé o Permissivo" porque permitiu três coisas que se costumava tratar com proibição — e é costume chamar de "tribunal permissivo" todo tribunal que permite três coisas cuja permissão não é óbvia.