Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Chet · Mishná 4 de 7

Rabi Yosé ben Yoezer, "Yosé o Permissivo"

הֵעִיד רַבִּי יוֹסֵי בֶּן יוֹעֶזֶר אִישׁ צְרֵדָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Um testemunho transmitido em aramaico, não em hebraico — sinal de sua grande antiguidade — sobre três leniências práticas do serviço do Templo, que valeram a Rabi Yosé ben Yoezer o apelido de "o Permissivo"

Testemunhou Rabi Yosé ben Yoezer, homem de Tzereda, sobre o gafanhoto ayal, que é puro; e sobre o líquido da casa do abatedouro, que é puro; e que quem se aproxima de um morto se contamina. E chamavam-no: Yosé o Permissivo.Este testemunho é notável por ser um dos únicos, em toda a Mishná, transmitido não em hebraico, mas em aramaico — sinal, segundo a tradição, de sua grande antiguidade, remontando a Rabi Yosé ben Yoezer, um dos primeiros dos zugot (pares de sábios) que precederam Hilel e Shamai. Três afirmações compõem seu testemunho. Primeira: o "ayal-kamtza", um tipo de gafanhoto, é puro e permitido para consumo — identificando-o entre as espécies de gafanhotos puros mencionadas na Torá. Segunda: os líquidos (sangue e água) que se acumulam na casa do abatedouro do Templo, onde se abatiam os sacrifícios, são puros e não transmitem impureza a outros alimentos — apesar de haver, em princípio, uma disputa sobre se a impureza de líquidos é de origem bíblica ou apenas decreto rabínico. Terceira: quem toca com certeza um cadáver torna-se impuro — afirmação que, à primeira vista, parece óbvia, mas que a Guemará explica estar dizendo o oposto por implicação: que apenas o toque certo contamina, mas em caso de dúvida sobre se houve contato com um morto, em domínio público, a pessoa permanece pura. Por essas três leniências, Rabi Yosé ben Yoezer foi apelidado "Yosé Sharya" — "Yosé o Permissivo" — pois um tribunal que declara permitidas três coisas não óbvias ganha esse título.

הֵעִיד רַבִּי יוֹסֵי בֶּן יוֹעֶזֶר, אִישׁ צְרֵדָה, עַל אַיִל קַמְצָא, דָּכָן. וְעַל מַשְׁקֵה בֵית מִטְבְּחַיָּא, דְּאִינּוּן דַּכְיָן. וּדְיִקְרַב בְּמִיתָא, מִסְתָּאָב. וְקָרוּ לֵיהּ, יוֹסֵי שָׁרְיָא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 8:4
אַיִל קַמְצָא. אַיִל הוּא מִין הָאַרְבֶּה... וּרְצוֹנוֹ לוֹמַר בְּמַשְׁקֵה בֵית מִטְבְּחַיָּא הַדָּם וְהַמַּיִם שֶׁמִּשְׁתַּמְּשִׁין בּוֹ שָׁם, וְהֵעִיד שֶׁאוֹתָם הַמַּשְׁקִים טְהוֹרִים... וְלָכֵן נִקְרָא יוֹסֵי שָׁרְיָא, לְפִי שֶׁהִתִּיר שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים... וּפְסַק הַהֲלָכָה בִּסְפֵק טֻמְאָה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, שֶׁנֹּאמַר לוֹ אֵינְךָ מַפְסִיד שֶׁתִּטְבֹּל.

Rambam explica que "ayal-kamtza" é um tipo de gafanhoto semelhante ao ayal, traduzido no Targum como espécie de gafanhotos puros e permitidos para consumo. "A casa do abatedouro" é o local conhecido no pátio do Templo onde se abatiam os sacrifícios; e o testemunho trata do sangue e da água ali utilizados, declarando-os puros e incapazes de transmitir impureza — havendo, quanto à impureza de líquidos em geral, disputa entre os Sábios se é de origem bíblica ou apenas rabínica, mas mesmo segundo quem a considera bíblica, quanto aos líquidos do abatedouro do Templo há uma tradição recebida ("halachá guemurá") de que são puros. Quanto a "quem se aproxima de um morto se contamina": a Guemará esclarece que se trata de dúvida de impureza em domínio público, que é pura — pois quando há certeza de contato com o morto, contamina; mas quando há apenas dúvida, é pura, e isso vale a fortiori para impurezas mais leves. E por isso ele foi chamado "Yosé o Permissivo", por ter permitido três coisas, como se vê; e é costume que todo tribunal que permite três coisas seja chamado "tribunal permissivo". E a halachá decidida quanto à dúvida de impureza em domínio público é que se diz à pessoa: "não perdes nada em imergir-te", mas se não imergiu e tocou coisas sagradas, elas permanecem puras sem dúvida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Eduyot 8:4
אַיִל קַמְצָא. מִין חָגָב הוּא. תַּרְגּוּם כַּחֲגָבִים כְּקַמְצִין. דָּכָן. טָהוֹר וּמֻתָּר בַּאֲכִילָה. וּדְיִקְרַב בְּמִיתָא מְסָאַב. הָכִי קָאָמַר, וְכָל דְּיִקְרַב וַדַּאי לְמִיתָא, מְסָאַב. אֲבָל סָפֵק, אֲפִלּוּ טֻמְאַת מֵת חֲמוּרָה, טָהוֹר. וְקָרוּ לֵיהּ יוֹסֵי שָׁרְיָא. לְפִי שֶׁהִתִּיר שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים שֶׁהָיוּ נוֹהֲגִין בָּהֶן אִסּוּר.

Bartenura explica: "ayal-kamtza" é um tipo de gafanhoto, traduzido no Targum como espécie das que se assemelham aos gafanhotos; "puro" significa apto e permitido para consumo. Sobre "o líquido da casa do abatedouro": trata-se do sangue e da água que estão na casa do abatedouro do pátio do Templo; e "que são puros" — há quem diga que são totalmente puros, pois a impureza de líquidos não é de origem bíblica, mas apenas decreto rabínico, e nesse caso específico os Sábios não decretaram; e há quem diga que são puros apenas quanto a contaminar outras coisas, mas quanto a se contaminarem eles mesmos, sim, pois há impureza bíblica de líquidos, e os Sábios não podem purificar o que a Torá contaminou. "E quem se aproxima com certeza de um morto, se contamina" — quer dizer: apenas quando há certeza de contato com o morto há contaminação; mas em caso de dúvida, mesmo tratando-se da impureza mais severa (a do cadáver), permanece puro — e, antes de Rabi Yosé ben Yoezer, diziam essa halachá mas não a ensinavam na prática; ele veio e testemunhou que se ensina assim, de início, para purificar toda dúvida de impureza em domínio público. E o chamavam "Yosé o Permissivo" porque permitiu três coisas que se costumava tratar com proibição — e é costume chamar de "tribunal permissivo" todo tribunal que permite três coisas cuja permissão não é óbvia.

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.