Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Hei · Mishná 3 de 7

As três leniências de Rabi Yishmael

רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר שְׁלֹשָׁה דְבָרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Terceira lista: Rabi Yishmael reduz a apenas três os casos que registra

Rabi Yishmael diz: três coisas há das leniências de Beit Shamai e das estringências de Beit Hillel. O [livro] Kohelet não contamina as mãos, segundo as palavras de Beit Shamai. E Beit Hillel diz: contamina as mãos. As águas de purificação que já cumpriram seu preceito: Beit Shamai declara puras; e Beit Hillel declara impuras. O cominho-preto: Beit Shamai declara puro, e Beit Hillel declara impuro. E o mesmo quanto aos dízimos.Rabi Yishmael reduz a lista a três casos. O primeiro toca uma questão central da canonização das Escrituras: se Kohelet — por seu tom por vezes cético — foi dito com inspiração divina como os demais Livros Sagrados, que "contaminam as mãos" (um decreto rabínico protetivo, para que se evitasse manusear rolos sagrados junto de alimentos de teruma). O segundo trata das águas de purificação misturadas com cinzas da vaca ruiva: depois de aspergidas sobre um impuro e cumprido seu papel, discute-se se as gotas restantes, ao pingarem no chão ou nas roupas, ainda contaminam quem as toca. O terceiro — o cominho-preto, tempero comum no pão — discute se, sendo pouco usado como alimento propriamente dito, está sujeito às leis de impureza alimentar e à obrigação de dízimos, ou se está isento delas.

רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר, שְׁלֹשָׁה דְבָרִים מִקֻּלֵּי בֵית שַׁמַּאי וּמֵחֻמְרֵי בֵית הִלֵּל. קֹהֶלֶת אֵינוֹ מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם, כְּדִבְרֵי בֵית שַׁמַּאי. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. מֵי חַטָּאת שֶׁנַּעֲשׂוּ מִצְוָתָן, בֵּית שַׁמַּאי מְטַהֲרִין, וּבֵית הִלֵּל מְטַמְּאִין. הַקֶּצַח, בֵּית שַׁמַּאי מְטַהֲרִין וּבֵית הִלֵּל מְטַמְּאִין. וְכֵן לַמַּעַשְׂרוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 5:3
וכבר ידעת שכתבי הקדש הן מטמאין את הידים ונחלקו בקהלת אם הוא מכתבי הקדש לענין זה או לא... וקצח הוא הנקרא בערבי שונין...

Rambam explica: já se sabe que os Livros Sagrados contaminam as mãos; discute-se apenas se Kohelet se inclui entre os Livros Sagrados para este efeito ou não. Quanto às águas da chatat, explica-se ao final de Pará que, quando já foram aspergidas sobre o impuro e o purificaram, e depois escorrem de seu corpo para o chão ou para as roupas, quem toca nelas depois já não se contamina, pois já cumpriram seu preceito sobre ele.

O ketzach é chamado em árabe shuniz; Beit Shamai entende que não se considera parte dos alimentos, e por isso não se contamina, nem se obriga a dízimo pela mesma razão — por não ser alimento. Segundo Beit Hillel, porém, é alimento, e se sujeita às obrigações de alimento tanto quanto à impureza quanto aos dízimos.

Bartenura · Eduyot 5:3
קֹהֶלֶת אֵינוֹ מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. מִפְּנֵי שֶׁחָכְמָתוֹ שֶׁל שְׁלֹמֹה הִיא וְלֹא בְּרוּחַ הַקֹּדֶשׁ נֶאֶמְרָה... הַקֶּצַח. זֶרַע שָׁחֹר שֶׁקּוֹרִין לוֹ נייל"ו בְּלַעַ"ז...

Bartenura explica: "Kohelet não contamina as mãos" — pois, segundo Beit Shamai, é sabedoria de Salomão, e não foi dito por inspiração divina; Beit Hillel entende que Kohelet também foi dito por inspiração divina, e por isso contamina as mãos como os demais Livros Sagrados. "Que já cumpriram o seu preceito" — depois de aspergidas sobre o impuro e purificá-lo, se escorreram de seu corpo sobre uma pessoa ou sobre utensílios.

Ketzach é uma semente preta, chamada em língua estrangeira "nielle"; costuma-se colocá-la no pão, pois quem a consome habitualmente não sofre de dores no coração. Beit Shamai declara puro, por não a considerar alimento; Beit Hillel declara impuro, pois, sendo costume colocá-la nos alimentos, é considerada alimento. "E o mesmo quanto aos dízimos" — assim como discordam quanto à impureza, discordam também quanto aos dízimos, pois aquilo que contamina como alimento também obriga a dízimo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.