Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Dalet · Mishná 6 de 12

O barril de azeitonas e o óleo puro

חָבִית שֶׁל זֵיתִים מְגֻלְגָּלִים בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אֵינוֹ צָרִיךְ לְנַקֵּב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Duas disputas sobre hechsher (preparo para impureza) por líquido: o barril de azeitonas e o resíduo de óleo após a imersão

Um barril de azeitonas enroladas [em sal]: Beit Shamai diz, não precisa perfurá-lo; e Beit Hillel diz, precisa perfurá-lo. Mas concordam que, se foi perfurado e a borra o tapou, ele está puro. Aquele que se untou com óleo puro e ficou impuro, desceu e se imergiu: Beit Shamai diz, ainda que esteja gotejando, está puro; e Beit Hillel diz, [só está puro se resta] o suficiente para ungir um membro pequeno. E se o óleo já era impuro desde o início: Beit Shamai diz, [permanece impuro enquanto resta] o suficiente para ungir um membro pequeno; e Beit Hillel diz, [enquanto resta] um líquido que umedece. Rabi Yehudá diz em nome de Beit Hillel: que umedeça e faça umedecer [outra coisa].Um alimento só pode contrair impureza ritual depois de ter sido "preparado" (huchshar) pelo contato voluntário com um dos sete líquidos que tornam suscetível à impureza (Vayicrá 11). Azeitonas em salmoura soltam um líquido escuro; discute-se se esse líquido, por não ser desejado pelo dono, conta como preparo — e por isso se é preciso perfurar o barril para que o líquido escoe e não permaneça represado sobre as azeitonas, manifestando que o dono não o quer ali. O segundo caso trata de alguém que se untou com óleo puro, tornou-se ritualmente impuro e imergiu-se para se purificar: discute-se quanto óleo residual sobre a pele ainda é considerado parte do corpo (e por isso não interfere na imersão) e quanto já é considerado uma substância independente, que precisaria ela mesma ser purificada — distinguindo-se ainda o caso em que o óleo era puro do caso em que já era impuro desde o início.

חָבִית שֶׁל זֵיתִים מְגֻלְגָּלִים, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵינוֹ צָרִיךְ לְנַקֵּב. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, צָרִיךְ לְנַקֵּב. וּמוֹדִים, שֶׁאִם נִקְּבָהּ וּסְתָמוּהָ שְׁמָרִים, שֶׁהִיא טְהוֹרָה. הַסָּךְ בְּשֶׁמֶן טָהוֹר וְנִטְמָא, יָרַד וְטָבַל, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אַף עַל פִּי שֶׁהוּא מְנַטֵּף, טָהוֹר. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, כְּדֵי סִיכַת אֵבֶר קָטָן. וְאִם הָיָה שֶׁמֶן טָמֵא מִתְּחִלָּתוֹ, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, כְּדֵי סִיכַת אֵבֶר קָטָן. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, מַשְׁקֶה טוֹפֵחַ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מִשּׁוּם בֵּית הִלֵּל, טוֹפֵחַ וּמַטְפִּיחַ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 4:6
כבר ידעת שמעקרינו שהאוכלין אינן מטמאין אלא אחר הכשר באחד מן השבעה משקין...

Rambam recorda o princípio de que os alimentos só contraem impureza depois de preparados por um dos sete líquidos ou seus derivados; e que a "água escura" — o suco residual das azeitonas, chamado mohal — é um desses líquidos preparadores, desde que seja da vontade do dono, como está escrito "e se for posta água sobre a semente" (lê-se yutan, "for posta", no sentido de que a colocação seja voluntária). Beit Shamai entendem que não é preciso perfurar o barril, pois, ainda que o líquido se acumule e umedeça as azeitonas, isso não é da intenção do dono nem lhe traz proveito, e por isso não as prepara para impureza; Beit Hillel entendem que, enquanto o barril não for perfurado por vontade própria, o líquido as prepara, pois é sabido que ele se acumulará e as umedecerá.

"Está pura" significa que as azeitonas não são preparadas por aquela água, já que ele fez um furo no barril, revelando que não deseja que o mohal permaneça — e, mesmo que o furo tenha sido tapado pela borra e a água tenha se acumulado de novo, isso não conta como preparo, por não ser sua vontade.

Quanto ao óleo que goteja depois da imersão: se o que resta sobre o corpo é o suficiente para ungir um membro pequeno — o dedo mínimo — está impuro, pois é óleo que se contaminou ao contaminar-se a pessoa e permaneceu sobre o corpo; e líquidos impuros não se purificam pela imersão em água de mikvê, apenas a própria água. "Umedecer" (tofêach) significa que a palma da mão fica úmida com o óleo; "umedecer e fazer umedecer" (tofêach u-matpiach) significa que, ao tocar outra palma, também a umedece. E a Halachá não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Eduyot 4:6
מְגֻלְגָּלִים. כְּבוּשִׁים בְּמֶלַח כְּדֵי לְמַתְּקָן...

Bartenura explica que "azeitonas enroladas" são azeitonas conservadas em sal para adoçá-las. "Não precisa perfurar" o barril — ainda que o mohal flutue sobre elas, ele não as prepara para receber impureza, pois o dono não deseja aquele líquido que sai delas, e exige-se um líquido que seja de sua vontade, conforme se lê "e for posta água sobre a semente": lê-se yutan como quem lê yitên ("ele dá") — assim como "dar" implica vontade, também "ser posta" implica vontade. "Precisa perfurar" — para manifestar, por um ato, que não deseja aquele mohal flutuando sobre as azeitonas, e quer que saia por um furo feito no barril.

"E a borra o tapou, está pura" — pois, ao perfurá-lo, ele já revelou que não deseja aquele mohal, e ele deixa de prepará-las mesmo que volte a se acumular. "Ainda que esteja gotejando, está puro" — mesmo que o óleo continue a pingar de seu corpo depois da imersão, está puro. "O suficiente para ungir um membro pequeno" — se não restou sobre a pele mais que essa medida, está puro; mais que isso, está impuro, por causa do óleo que se contaminou ao se contaminar a pessoa e permaneceu sobre seu corpo — e o óleo sobre a pele não se purifica no mikvê, pois nenhum líquido recebe purificação no mikvê além da própria água, por contato.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.