Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Dalet · Mishná 5 de 12

A vinha do quarto ano

כֶּרֶם רְבָעִי בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אֵין לוֹ חֹמֶשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O estatuto da vinha do quarto ano: equiparada ao segundo dízimo (Beit Hillel) ou tratada como bem comum sujeito a resgate pelos pobres (Beit Shamai)

Quanto à vinha do quarto ano: Beit Shamai diz, não tem o quinto acrescido, nem tem a remoção; e Beit Hillel diz, tem o quinto acrescido e tem a remoção. Beit Shamai diz: tem os cachos caídos e tem os racimos esquecidos, e os pobres os resgatam para si; e Beit Hillel diz: tudo vai para o lagar.O fruto de uma árvore em seu quarto ano é kodesh (sagrado), como o segundo dízimo, e deve ser levado a Jerusalém ou resgatado (Vayicrá 19). A mishná debate se ele é plenamente equiparado ao segundo dízimo, com todas as suas leis: o "quinto" que se acrescenta quando o dono resgata o próprio fruto para si, e a obrigação de "removê-lo" da casa às vésperas de Pêssach do quarto e do sétimo ano. Beit Hillel equipara ambos os regimes por analogia verbal ("sagrado" em ambos os contextos); Beit Shamai não faz essa equiparação. A segunda disputa trata de se as leis de peá aplicáveis à colheita comum — cachos caídos (peret) e racimos esquecidos (olelot) — também se aplicam à vinha do quarto ano: Beit Shamai diz que sim, e os pobres podem resgatá-los para si e consumi-los onde estiverem; Beit Hillel diz que não, e tudo — inclusive esses cachos — é levado ao lagar como parte da colheita sagrada.

כֶּרֶם רְבָעִי, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵין לוֹ חֹמֶשׁ וְאֵין לוֹ בִעוּר. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, יֶשׁ לוֹ חֹמֶשׁ וְיֶשׁ לוֹ בִעוּר. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, יֶשׁ לוֹ פֶרֶט וְיֶשׁ לוֹ עוֹלְלוֹת, וְהָעֲנִיִּים פּוֹדִים לְעַצְמָן. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, כֻּלּוֹ לַגָּת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 4:5
אמרו כרם רבעי וה"ה בשאר אילנות שחייבין בערלה ואמנם זכר הכרם על דרך משל...

Rambam observa que "vinha do quarto ano" é apenas um exemplo — a mesma lei vale para qualquer árvore frutífera sujeita à orlá. A Torá chama o fruto do quarto ano de "santidade de louvores" (Vayicrá 19), e chama o segundo dízimo de "santo para o Eterno"; Beit Hillel interpretam por analogia verbal (guezerá shavá) entre os dois usos de "santo", aplicando ao quarto ano as leis do dízimo: o quinto acrescido, caso o dono o resgate para si — "se um homem quiser resgatar algo de seu dízimo, acrescentará um quinto a ele" — e a obrigação de removê-lo de casa ao concluir seu prazo, como está escrito "removi o que é sagrado de casa".

Por isso também não está sujeito às leis de peret e olelot, por ser assimilado ao dízimo — pisa-se toda a colheita e come-se em Jerusalém como o segundo dízimo. Beit Shamai não aplicam nenhuma dessas leis, por não haver base explícita no texto, e tratam o fruto como bem comum do dono, a ser comido em Jerusalém; por isso os pobres resgatam para si o peret e as olelot, para comê-los em suas próprias terras, ficando o dinheiro do resgate em suas mãos para consumirem em Jerusalém.

Bartenura · Eduyot 4:5
כֶּרֶם רְבָעִי. שֶׁהוּא צָרִיךְ פִּדְיוֹן אִם בָּא לְאָכְלוֹ חוּץ לִירוּשָׁלַיִם...

Bartenura explica que a vinha do quarto ano precisa de resgate caso se queira comer seu fruto fora de Jerusalém, e o mesmo vale para qualquer árvore frutífera. "Não tem o quinto acrescido" significa que a Torá não escreveu que o próprio dono, ao resgatá-lo, deva acrescentar um quinto, como escreveu a respeito do segundo dízimo; "não tem a remoção" significa que não é obrigado a removê-lo de casa na véspera de Pêssach do quarto e do sétimo ano, como está escrito "removi o que é sagrado de casa". Beit Hillel aprendem "santo" de "santo" a partir do dízimo: assim como o dízimo tem quinto e remoção, também a vinha do quarto ano tem quinto e remoção; Beit Shamai não fazem essa analogia.

"Tem cachos caídos e racimos esquecidos" — porque Beit Shamai o consideram um bem comum (chulin); os pobres resgatam o que colheram e comem onde estiverem, elevando o valor do resgate a Jerusalém. Já Beit Hillel, por aprenderem do dízimo, entendem que o segundo dízimo é propriedade do Altíssimo, de modo que os pobres não têm parte nele — pisam-se as olelot junto com o resto do vinho, e o dono leva tudo a Jerusalém.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.