Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Guimel · Mishná 6 de 12

A mulher cativa e a terumá

הַשְּׁבוּיָה אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A esposa de sacerdote que foi cativa e sua palavra sobre a própria pureza

A cativa come da terumá — palavras de Rabi Dosa ben Harkinas. Mas os Sábios dizem: há cativa que come, e há cativa que não come. Como assim? A mulher que disse: "fui cativada, mas sou pura" — ela come, pois a boca que proibiu é a mesma boca que permitiu. Mas se há testemunhas de que foi cativada, e ela diz: "sou pura" — ela não come.O caso trata da esposa (ou filha) de um sacerdote que foi feita cativa por um não judeu, situação que gera a suspeita de que tenha sido violada e, portanto, desqualificada para comer terumá — a porção sacerdotal — como qualquer mulher que se tornou "zoná" (profanada). Rabi Dosa permite que ela coma sem qualquer ressalva, apenas com base em sua própria palavra. Os Sábios distinguem: se é a própria mulher quem revela, por conta própria, que foi cativa, e ao mesmo tempo afirma que permaneceu pura, sua palavra é aceita integralmente — aplicando o princípio de que "a boca que proibiu é a boca que permitiu" (o mesmo relato que criaria a proibição também a resolve, pois ninguém é obrigado a contar sobre si mesma). Mas se o cativeiro já é conhecido por testemunhas externas, e apenas a alegação de pureza vem da própria mulher, sua palavra sozinha não basta para permitir que coma terumá.

הַשְּׁבוּיָה אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה, דִּבְרֵי רַבִּי דוֹסָא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יֵשׁ שְׁבוּיָה אוֹכֶלֶת וְיֵשׁ שְׁבוּיָה שֶׁאֵינָהּ אוֹכֶלֶת. כֵּיצַד. הָאִשָּׁה שֶׁאָמְרָה נִשְׁבֵּיתִי וּטְהוֹרָה אָנִי, אוֹכֶלֶת, שֶׁהַפֶּה שֶׁאָסַר הוּא הַפֶּה שֶׁהִתִּיר. וְאִם יֵשׁ עֵדִים שֶׁנִּשְׁבֵּית, וְהִיא אוֹמֶרֶת טְהוֹרָה אָנִי, אֵינָהּ אוֹכֶלֶת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 3:6
כשאמרה נשביתי וטהורה אני נאמנת על העיקר שבידינו הפה שאסר הוא הפה שהתיר...

Rambam explica que, quando a mulher diz "fui cativada, e sou pura", ela é crível com base no princípio fundamental de que "a boca que proibiu é a boca que permitiu". O motivo pelo qual o cativeiro em si a desqualificaria é a suspeita de que o não judeu que a capturou tenha se relacionado com ela, tornando-a "zoná" — como se explica no último capítulo de Kidushin. A Halachá não segue Rabi Dosa.

Bartenura · Eduyot 3:6
הַשְּׁבוּיָה. אֵשֶׁת כֹּהֵן שֶׁנִּשְׁבֵּית: אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה. וְלֹא חָיְשִׁינַן שֶׁמָּא הַנָּכְרִי בָּא עָלֶיהָ...

Bartenura identifica "a cativa" como a esposa (ou filha) de um sacerdote que foi cativada. "Come da terumá": segundo Rabi Dosa, não há suspeita de que o não judeu tenha se relacionado com ela e a tornado uma "zoná", desqualificando-a. "Pois a boca que proibiu é a boca que permitiu": assim como se acredita nela quando diz "fui cativada" — informação que, por si, a prejudicaria — também se acredita nela quando acrescenta "e sou pura".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.