Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Alef · Mishná 3 de 14

A medida de águas retiradas que invalidam o mikvê

הִלֵּל אוֹמֵר, מְלֹא הִין מַיִם שְׁאוּבִין פּוֹסְלִין אֶת הַמִּקְוֶה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O testemunho que decidiu a medida das águas retiradas

Hilel diz: um hin cheio de águas retiradas invalida o mikvê — mas a pessoa é obrigada a falar na língua de seu mestre. E Shamai diz: nove cavim. E os Sábios dizem: nem segundo as palavras deste, nem segundo as palavras daquele — até que vieram dois tecelões do Portão do Lixo, que havia em Jerusalém, e testemunharam em nome de Shemaiá e Avtalyon: três login de águas retiradas invalidam o mikvê. E os Sábios confirmaram as suas palavras.Terceira disputa da série sobre medidas: aqui, porém, a questão não se resolve pela lógica intermediária habitual dos Sábios, mas por um testemunho externo — dois tecelões de ofício humilde, vindos de um bairro humilde, que relataram a tradição recebida de Shemaiá e Avtalyon (os mestres de Hilel e Shamai) fixando a medida em apenas três login, muito menor que as propostas anteriores. Este caso prepara o terreno para a mishná seguinte, que explica por que se registram opiniões rejeitadas.

הִלֵּל אוֹמֵר, מְלֹא הִין מַיִם שְׁאוּבִין פּוֹסְלִין אֶת הַמִּקְוֶה, אֶלָּא שֶׁאָדָם חַיָּב לוֹמַר בִּלְשׁוֹן רַבּוֹ. וְשַׁמַּאי אוֹמֵר, תִּשְׁעָה קַבִּין. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא כְדִבְרֵי זֶה וְלֹא כְדִבְרֵי זֶה, אֶלָּא עַד שֶׁבָּאוּ שְׁנֵי גַרְדִּיִּים מִשַּׁעַר הָאַשְׁפּוֹת שֶׁבִּירוּשָׁלַיִם וְהֵעִידוּ מִשּׁוּם שְׁמַעְיָה וְאַבְטַלְיוֹן, שְׁלֹשֶׁת לֻגִּין מַיִם שְׁאוּבִין פּוֹסְלִין אֶת הַמִּקְוֶה, וְקִיְּמוּ חֲכָמִים אֶת דִּבְרֵיהֶם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 1:3
שְׁמַעְיָה וְאַבְטַלְיוֹן. הֵם רַבּוֹתֵיהֶם שֶׁל שַׁמַּאי וְהִלֵּל... וְגַרְדִּיִּים. אוֹרְגִים...

Rambam explica que Shemaiá e Avtalyon foram os mestres de Shamai e Hilel, como se explica no tratado Avot; eram prosélitos, e restava em sua fala o sotaque estrangeiro, de modo que diziam "in" no lugar de "hin". Hilel, tendo aprendido com eles, repetia a mesma pronúncia — e é isto que ensinaram nossos Sábios: "a pessoa é obrigada a falar na língua de seu mestre". O hin equivale a três cavim, isto é, meio se'ah mais um log.

Quanto aos "tecelões", Rambam nota que a lei foi decidida conforme o testemunho desses dois artesãos — cujos fundamentos se explicarão ainda no tratado Mikvaot. E observa que a mishná, ao trazer as três primeiras disputas de medidas (sem que a lei siga nenhuma das opiniões extremas), prepara o padrão que o restante do capítulo seguirá: casos em que Shamai concorda com os Sábios, casos em que discorda, e casos em que Beit Hilel voltou atrás para ensinar como Beit Shamai — encerrando com o próprio tema dos testemunhos (edviot), que dá nome ao tratado.

Bartenura · Eduyot 1:3
הַהִין. שְׁנֵים עָשָׂר לֻגִּין... שֶׁחַיָּב אָדָם לוֹמַר בִּלְשׁוֹן רַבּוֹ.... גַּרְדִּיִּים. אוֹרְגִים. מִשַּׁעַר הָאַשְׁפּוֹת....

Bartenura explica que o hin são doze login, e que as águas retiradas invalidam o mikvê apenas se caírem nele antes de completada a medida legal de quarenta se'im — depois de completada, mesmo que se lance nele toda a água retirada do mundo, ela não mais o invalida.

"Que a pessoa é obrigada a falar na língua de seu mestre" — pois "hin" é linguagem da Torá, não da Mishná; mas Hilel assim ouviu de seus mestres. Bartenura relata a tradição recebida de Rambam por seu pai: como Shemaiá e Avtalyon eram prosélitos justos, não conseguiam pronunciar certas consoantes guturais, e diziam "in" no lugar de "hin" — e Hilel repetia a mesma pronúncia de seus mestres.

Sobre os "tecelões, do Portão do Lixo": Bartenura observa que a Mishná menciona deliberadamente o ofício humilde e o bairro humilde desses dois homens, para ensinar que ninguém deve se abster de frequentar a casa de estudo por se considerar de pouca importância — pois não há ofício mais modesto que o de tecelão, do qual nunca se constituiu rei nem sumo sacerdote, nem portão mais modesto em Jerusalém que o do Lixo; e, ainda assim, o testemunho desses dois prevaleceu sobre todos os sábios de Israel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.