Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Vav · Mishná 5 de 7

Sangue misturado com água, vinho ou outro sangue

דָּם שֶׁנִּתְעָרֵב בְּמַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Sangue misturado com água ou vinho

Sangue que se misturou com água — se há nele aparência de sangue, é obrigado a cobrir. Misturou-se com vinho, considera-se como se fosse água.

— O critério para saber se uma mistura ainda contém “sangue”, para efeito da mitzvá de cobertura, é visual: se a mistura, ao olhar, ainda tem aparência de sangue, permanece obrigatória a cobertura, mesmo que a maior parte do volume seja água. Quando o sangue se mistura com vinho, porém, surge uma dificuldade prática: o vinho tem cor avermelhada própria, o que poderia mascarar a aparência real do sangue e levar a erro de avaliação. Por isso, a mishná instrui a tratar o vinho, para este efeito, como se fosse água incolor — e então perguntar se, com aquela proporção de “água”, a mistura ainda teria aparência de sangue.

דָּם שֶׁנִּתְעָרֵב בְּמַיִם, אִם יֶשׁ בּוֹ מַרְאִית דָּם, חַיָּב לְכַסּוֹת. נִתְעָרֵב בְּיַיִן, רוֹאִין אוֹתוֹ כְאִלּוּ הוּא מָיִם.
Misturado com sangue de outro animal, e a posição de R. Yehudá

Misturou-se com sangue de behemá ou com sangue de animal selvagem [não sujeito à cobertura], considera-se como se fosse água. Rabi Yehudá diz: sangue não anula sangue.

— Assim como o vinho, o sangue de uma behemá doméstica — que nunca requer cobertura — ou o sangue de um animal selvagem que não flui da degola principal (por exemplo, sangue de sangria) também têm cor própria capaz de mascarar a aparência do sangue sujeito à mitzvá. A mishná aplica o mesmo critério: trata-se esse sangue “isento” como se fosse água, e verifica-se se a aparência de sangue obrigatório ainda se destaca na mistura. Rabi Yehudá discorda desse princípio inteiro: para ele, “sangue não anula sangue” — isto é, uma substância da mesma espécie geral (sangue) nunca se anula dentro de outra substância da mesma espécie, por mais que a proporção seja pequena, e por isso a obrigação de cobrir permanece mesmo quando o sangue obrigatório não é mais visível na mistura.

נִתְעָרֵב בְּדַם הַבְּהֵמָה אוֹ בְדַם הַחַיָּה, רוֹאִין אוֹתוֹ כְאִלּוּ הוּא מָיִם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵין דָּם מְבַטֵּל דָּם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 6:5
דם שנתערב במים אם יש בו מראית דם חייב כו': מה שאמר בדם החיה רוצה לומר בחיה טמאה לפי שאם היתה טהורה הכל מסכימים שחייב לכסות וענין מה שא"ר יהודה אין דם מבטל דם שאם היה דרך משל אותו [דם] העוף משקל גרגיר ונתערב עמו כמה לטרים מדם הבהמה לא בטיל דם העוף אלא מכסה הכל וכבר ביארנו בשמיני מזבחים שאין הלכה כר' יהודה:

Rambam precisa que a expressão “sangue do animal selvagem” nesta mishná refere-se especificamente a uma chayá impura (não-kosher), pois se fosse pura, todos concordariam que sua mistura ainda obriga a cobertura como sangue pleno. E ilustra o princípio de Rabi Yehudá com um exemplo numérico: mesmo que o sangue da ave pesasse apenas o equivalente a um grão e se misturasse com vários litros de sangue de behemá, esse pouquíssimo sangue de ave não se anula — deve-se cobrir a mistura inteira. E remete a onde já explicou, no oitavo capítulo de Zevachim, que a haláchá não segue Rabi Yehudá neste princípio.

Bartenura · Chulin 6:5
נִתְעָרֵב בְּיַיִן. שֶׁהוּא אָדֹם וְאֵין מַרְאֵה הַדָּם נִכָּר בּוֹ:
רוֹאִין אוֹתוֹ. יַיִן: כְּאִלּוּ הוּא מָיִם. וְאִם הָיָה מַרְאִית דָּם נִכָּר בַּמַּיִם כְּשִׁעוּר זֶה, חַיָּב לְכַסּוֹת:
נִתְעָרֵב בְּדַם בְּהֵמָה. דְּלָאו בַּר כִּסּוּי הוּא, וְרֻבּוֹ דַּם בְּהֵמָה:
אוֹ בְדַם הַחַיָּה. בְּדַם הֶקֵּז שֶׁל חַיָּה:
רוֹאִין אוֹתוֹ. שֶׁאֵינוֹ טָעוּן כִּסּוּי: כְּאִלּוּ הוּא מָיִם. וְאִם הָיָה הַדָּם הַזֶּה שֶׁל שְׁחִיטַת חַיָּה וָעוֹף נִכָּר בּוֹ, חַיָּב לְכַסּוֹת:
אֵין דָּם מְבַטֵּל דָּם. וַאֲפִלּוּ אֵין מַרְאִית דָּם נִכֶּרֶת בַּמַּיִם כְּמוֹת דַּם בְּהֵמָה זֶה, אֵין דַּם הַחַיָּה בָּטֵל. דְּקָסָבַר רַבִּי יְהוּדָה מִין בְּמִינוֹ לֹא בָטֵל. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

Bartenura explica por que o vinho representa um problema especial: sendo avermelhado, mascara a aparência natural do sangue na mistura. Precisa também os dois casos da segunda cláusula: “sangue de behemá”, que nunca requer cobertura e cuja mistura normalmente predomina em volume; e “sangue de animal selvagem” que se refere a sangue de sangria (não o sangue da degola), que tampouco requer cobertura. Em ambos os casos, trata-se a mistura como água para fins de avaliação visual. E explica o fundamento de Rabi Yehudá: ele entende que uma espécie nunca se anula dentro de sua própria espécie (“min bemino”), por isso o sangue obrigatório nunca desaparece juridicamente dentro de outro sangue, mesmo sem aparência visível. E a haláchá não segue Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 87a:14, sobre a Guemará desta mishná
מתני' נתערב ביין - שהוא אדום ואין מראה הדם ניכר בו: רואין אותו - יין כאילו הוא מים ואם היה מראית דם ניכר במים כשיעור הזה חייב לכסות: נתערב בדם הבהמה - דלאו בר כסוי הוא ורובו דם בהמה:

Rashi confirma a razão prática de tratar o vinho como água: sendo avermelhado, a aparência do sangue não se distingue nele diretamente, sendo necessário recalcular como se fosse água incolor. E, sobre a mistura com sangue de behemá, observa que esse sangue não está sujeito à cobertura e, em geral, predomina em volume sobre o sangue obrigatório — daí a necessidade de tratar a mistura toda como água para o teste visual.