Quem abre seu barril, e quem começa sua massa, na época da festa: Rabi Iehudá diz, que termine. E os Sábios dizem, que não termine. Passada a festa, purificavam os utensílios do pátio do Templo. Se a festa passou numa sexta-feira, não purificavam, por honra ao Shabat. Rabi Iehudá diz, nem mesmo numa quinta-feira, pois os sacerdotes não estão livres. — A mishná trata do comerciante que, durante os dias da festa, aproveitando a leniência que trata todo o povo como chaverim, abriu um barril de vinho ou começou a preparar uma massa para vender — atividades em que o povo comum toca diretamente o produto. Rabi Iehudá sustenta que, mesmo depois de a festa terminar, o comerciante pode continuar vendendo o mesmo lote, já que, se a leniência não se estendesse além da festa, ninguém se disporia sequer a começar a vender durante ela, faltando alimento suficiente aos peregrinos. Os Sábios discordam: a leniência vale estritamente para os próprios dias da festa; passada ela, o comerciante deve interromper a venda daquele lote específico, pois o contato do povo comum, retroativamente, volta a ser motivo de suspeita de impureza. A mishná passa então a um procedimento correspondente no Templo: assim que a festa terminava, os sacerdotes purificavam todos os utensílios do pátio, por precaução contra o contato do povo comum durante os dias de peregrinação. Mas se a própria festa terminasse numa sexta-feira, essa purificação era adiada, por respeito à preparação do Shabat que ocupava os sacerdotes; e Rabi Iehudá estende essa mesma consideração até à quinta-feira, quando os sacerdotes já estariam ocupados demais para realizar o procedimento.
A honra devida ao Shabat, expressa nesse versículo através da expressão “shabat shabaton” — um descanso redobrado — é o fundamento pelo qual a mishná adia o procedimento de purificação dos utensílios do Templo quando a festa termina em véspera de Shabat. Assim como todo o povo interrompe suas atividades cotidianas para se preparar para o Shabat, também os sacerdotes do Templo, que normalmente realizariam a purificação dos utensílios do pátio logo após a festa, devem dar prioridade aos preparativos do Shabat, adiando essa tarefa ritual até depois dele — um exemplo de como a honra do Shabat prevalece até sobre procedimentos regulares do serviço no Templo.
Rambam explica a lógica de Rabi Iehudá sobre continuar a venda depois da festa, e fixa a halachá segundo os Sábios.
Bartenura explica a preocupação prática de Rabi Iehudá sobre o abastecimento dos peregrinos; Rashi, na Guemará, confirma a razão de adiar a purificação por causa do Shabat.
Rambam explica que, segundo Rabi Iehudá, mesmo quando a festa termina numa quarta-feira, a purificação dos utensílios do pátio ainda não seria feita na quinta-feira seguinte, pois os sacerdotes estariam ocupados com a remoção das cinzas acumuladas no altar durante os dias da festa — uma tarefa que consome todo o tempo disponível, deixando-os sem condições de também realizar a purificação dos utensílios.
Bartenura explica a preocupação prática por trás da posição de Rabi Iehudá: se o comerciante soubesse que teria de interromper a venda assim que a festa terminasse, perdendo o restante do lote, ele sequer se disporia a abri-lo durante a própria festa — resultando em falta de alimento disponível para os peregrinos que sobem a Jerusalém. Por isso, Rabi Iehudá prefere permitir que ele termine de vender, mesmo depois do fim da festa.
Rashi confirma que os sacerdotes, no dia em que a festa termina numa sexta-feira, precisam se dedicar aos preparativos domésticos do Shabat, cada um em sua própria casa, e por isso não têm tempo disponível para o procedimento de purificação dos utensílios do pátio do Templo — a mesma honra devida ao Shabat que prevalece sobre outros aspectos da vida cotidiana também se aplica, nesse caso, ao próprio serviço sacerdotal.