Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Guimel · Mishná 7 de 8

O barril aberto na festa e a honra do Shabat

הַפּוֹתֵחַ אֶת חָבִיתוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná discute duas questões práticas ligadas ao fim da festa: se o comerciante que abriu seu barril ou massa durante a festa pode terminar de vendê-los depois, e quando os sacerdotes purificavam os utensílios do pátio do Templo.

Quem abre seu barril, e quem começa sua massa, na época da festa: Rabi Iehudá diz, que termine. E os Sábios dizem, que não termine. Passada a festa, purificavam os utensílios do pátio do Templo. Se a festa passou numa sexta-feira, não purificavam, por honra ao Shabat. Rabi Iehudá diz, nem mesmo numa quinta-feira, pois os sacerdotes não estão livres.A mishná trata do comerciante que, durante os dias da festa, aproveitando a leniência que trata todo o povo como chaverim, abriu um barril de vinho ou começou a preparar uma massa para vender — atividades em que o povo comum toca diretamente o produto. Rabi Iehudá sustenta que, mesmo depois de a festa terminar, o comerciante pode continuar vendendo o mesmo lote, já que, se a leniência não se estendesse além da festa, ninguém se disporia sequer a começar a vender durante ela, faltando alimento suficiente aos peregrinos. Os Sábios discordam: a leniência vale estritamente para os próprios dias da festa; passada ela, o comerciante deve interromper a venda daquele lote específico, pois o contato do povo comum, retroativamente, volta a ser motivo de suspeita de impureza. A mishná passa então a um procedimento correspondente no Templo: assim que a festa terminava, os sacerdotes purificavam todos os utensílios do pátio, por precaução contra o contato do povo comum durante os dias de peregrinação. Mas se a própria festa terminasse numa sexta-feira, essa purificação era adiada, por respeito à preparação do Shabat que ocupava os sacerdotes; e Rabi Iehudá estende essa mesma consideração até à quinta-feira, quando os sacerdotes já estariam ocupados demais para realizar o procedimento.

הַפּוֹתֵחַ אֶת חָבִיתוֹ, וְהַמַּתְחִיל בְּעִסָּתוֹ עַל גַּב הָרֶגֶל, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, יִגְמֹר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא יִגְמֹר. מִשֶּׁעָבַר הָרֶגֶל, הָיוּ מַעֲבִירִין עַל טָהֳרַת עֲזָרָה. עָבַר הָרֶגֶל בְּיוֹם שִׁשִּׁי, לֹא הָיוּ מַעֲבִירִין, מִפְּנֵי כְבוֹד הַשַּׁבָּת. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף לֹא בְיוֹם חֲמִישִׁי, שֶׁאֵין הַכֹּהֲנִים פְּנוּיִין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá (Levítico) 23:3
שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן
Seis dias se fará trabalho, e no sétimo dia haverá descanso solene.

A honra devida ao Shabat, expressa nesse versículo através da expressão “shabat shabaton” — um descanso redobrado — é o fundamento pelo qual a mishná adia o procedimento de purificação dos utensílios do Templo quando a festa termina em véspera de Shabat. Assim como todo o povo interrompe suas atividades cotidianas para se preparar para o Shabat, também os sacerdotes do Templo, que normalmente realizariam a purificação dos utensílios do pátio logo após a festa, devem dar prioridade aos preparativos do Shabat, adiando essa tarefa ritual até depois dele — um exemplo de como a honra do Shabat prevalece até sobre procedimentos regulares do serviço no Templo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a lógica de Rabi Iehudá sobre continuar a venda depois da festa, e fixa a halachá segundo os Sábios.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 3:7
וכשנתערב היד בחבית ועיסה ברגל ר' יהודה אומר כיון שנתת טומאת ע"ה טהורה ברגל הרי הוא כאילו לא נגע בה ע"ה לעולם וגומר לשתותה אחר הרגל... ואין הלכה כרבי יהודה.
Rambam explica a lógica de Rabi Iehudá: uma vez que a mão do povo comum foi tratada como pura durante a festa, quando tocou o barril ou a massa, é como se nunca tivesse tocado neles — permanentemente, não apenas durante a festa — e por isso o comerciante pode terminar de vendê-los mesmo depois que a festa passou, tratando-os como se fossem plenamente puros. Rambam conclui, porém, que a halachá não segue Rabi Iehudá, mas sim a posição dos Sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a preocupação prática de Rabi Iehudá sobre o abastecimento dos peregrinos; Rashi, na Guemará, confirma a razão de adiar a purificação por causa do Shabat.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:7
וא"ר יהודה אף לא יום חמישי רוצה לומר אם עבר הרגל ברביעי לא היו מעבירין בחמישי לפי שהיו טרודים בדישון המזבח.

Rambam explica que, segundo Rabi Iehudá, mesmo quando a festa termina numa quarta-feira, a purificação dos utensílios do pátio ainda não seria feita na quinta-feira seguinte, pois os sacerdotes estariam ocupados com a remoção das cinzas acumuladas no altar durante os dias da festa — uma tarefa que consome todo o tempo disponível, deixando-os sem condições de também realizar a purificação dos utensílios.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:7
וְרַבִּי יְהוּדָה דְּאָמַר יִגְמֹר, סָבַר אִם אַתָּה אוֹמֵר לֹא יִגְמֹר אַף הוּא לֹא יַתְחִיל, וְאֵין מָזוֹן מָצוּי לְעוֹלֵי רְגָלִים.

Bartenura explica a preocupação prática por trás da posição de Rabi Iehudá: se o comerciante soubesse que teria de interromper a venda assim que a festa terminasse, perdendo o restante do lote, ele sequer se disporia a abri-lo durante a própria festa — resultando em falta de alimento disponível para os peregrinos que sobem a Jerusalém. Por isso, Rabi Iehudá prefere permitir que ele termine de vender, mesmo depois do fim da festa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 27a
שולחנו מכפר עליו - בהכנסת אורחים: מפני כבוד השבת - שהיו הכהנים צריכין להתעסק בצרכי שבת איש בביתו.

Rashi confirma que os sacerdotes, no dia em que a festa termina numa sexta-feira, precisam se dedicar aos preparativos domésticos do Shabat, cada um em sua própria casa, e por isso não têm tempo disponível para o procedimento de purificação dos utensílios do pátio do Templo — a mesma honra devida ao Shabat que prevalece sobre outros aspectos da vida cotidiana também se aplica, nesse caso, ao próprio serviço sacerdotal.