Os cobradores que entraram numa casa, e igualmente os ladrões que devolveram os utensílios, são confiáveis ao dizer: não tocamos. E em Jerusalém são confiáveis sobre o sagrado, e na época da festa até sobre a própria oferenda sacerdotal. — A mishná traz um caso surpreendente de confiança: cobradores de impostos das nações que entram numa casa israelita para confiscar bens, e igualmente ladrões que roubaram utensílios e depois, por arrependimento espontâneo, os devolveram, são confiáveis quando declaram que não tocaram nos demais utensílios da casa — apesar de serem, em circunstâncias normais, as últimas pessoas em quem se confiaria sobre questões de pureza, pois presume-se que, tendo já feito um gesto de retorno ao caminho correto ou não tendo motivo para mentir sobre um detalhe sem consequência prática para eles, não têm razão para falsear essa afirmação específica. A mishná fecha revelando o princípio geral por trás de toda a série de leniências deste capítulo: em Jerusalém, a cidade sagrada, confia-se no povo comum quanto à pureza do próprio sagrado, e durante os dias da festa de peregrinação, quando toda a nação se reúne unida na cidade, essa confiança se estende ainda mais, alcançando até a oferenda sacerdotal — pois, nesses dias de reunião coletiva, todo o povo de Israel é tratado, para efeitos práticos de pureza, como se fossem todos igualmente cuidadosos.
A mishná já havia usado esse mesmo versículo, sobre a reunião do povo de Israel “como um só homem, chaverim”, para justificar a confiança estendida durante a época dos lagares; aqui, o mesmo princípio se aplica de modo ainda mais amplo à reunião na própria Jerusalém durante os dias da festa de peregrinação. Se a mera reunião coletiva num contexto de trabalho — a produção de vinho e azeite — já basta para tratar todo o povo como cuidadoso com a pureza, com maior razão a reunião de todo Israel em Jerusalém durante a festa, no coração da própria santidade, é o contexto que mais justifica tratar o povo inteiro como chaverim, dignos de confiança até sobre a oferenda sacerdotal.
Rambam explica por que os cobradores e ladrões, apesar de sua origem duvidosa, merecem confiança, e por que Jerusalém recebe leniência especial quanto aos utensílios de barro do sagrado.
Bartenura identifica precisamente quem são os cobradores mencionados; Rashi, na Guemará, situa o versículo-fonte da confiança concedida durante a festa.
Rambam acrescenta que a leniência quanto aos utensílios de barro em Jerusalém também se deve ao fato de serem relativamente poucos; e reafirma o princípio central de que todo Israel é considerado chaverim durante a festa de peregrinação, o que explica por que, nesse período específico, a confiança concedida se estende até à própria oferenda sacerdotal, algo que não ocorre no resto do ano.
Bartenura esclarece que os cobradores mencionados são israelitas empregados pelos governos estrangeiros para cobrar impostos e tributos de seus próprios compatriotas, que entram nas casas para confiscar bens como garantia. E enfatiza a condição essencial para a confiança concedida aos ladrões: a devolução precisa ter ocorrido por arrependimento espontâneo, não por medo de serem descobertos — só nesse caso sua palavra sobre não terem tocado outros objetos é aceita.
Rashi confirma que a impureza temida por trás de toda essa série de leis é a “impureza da festa” — a suspeita de que o povo comum, normalmente descuidado, tenha tocado os utensílios do Templo durante os dias de peregrinação — e situa precisamente o versículo de Juízes como a fonte textual para o princípio de que, no momento da reunião coletiva de todo Israel, todos são tratados como chaverim, cuidadosos com a pureza, o que justifica a confiança estendida à própria oferenda sacerdotal durante a festa.