Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Guimel · Mishná 4 de 8

O maior rigor da oferenda sacerdotal e a confiança na época dos lagares

חֹמֶר בַּתְּרוּמָה שֶׁבִּיהוּדָה נֶאֱמָנִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná inverte a direção da comparação, apresentando o único ponto em que a oferenda sacerdotal é mais rigorosa do que o sagrado: a confiabilidade do povo comum sobre a pureza de vinho e azeite, que varia conforme a época do ano.

Há maior rigor na oferenda sacerdotal: pois na Judeia confia-se no povo comum sobre a pureza de vinho e azeite durante todos os dias do ano, e na época dos lagares e das prensas até sobre a própria oferenda sacerdotal. Passada a época dos lagares e das prensas, e trouxeram-lhe um barril de vinho de oferenda sacerdotal, não o receberá dele; mas o deixará para o próximo lagar. E se lhe disser: separei dentro dele um quarto de log de sagrado, é confiável. Jarras de vinho e jarras de azeite misturadas são confiáveis na época dos lagares e das prensas, e setenta dias antes dos lagares.A mishná abre uma exceção à regra geral: nesta única questão, a oferenda sacerdotal é mais exigente que o próprio sagrado. Na região da Judeia — mas não na Galileia, separada dela pelo território samaritano — confia-se no povo comum, normalmente descuidado com a pureza, quando ele declara que determinado vinho ou azeite é puro e destinado ao sagrado, em qualquer época do ano, pois o peso da santidade o torna cuidadoso. Mas, quanto a declarar pureza para a oferenda sacerdotal, confia-se nele apenas durante a época dos lagares e das prensas, quando todos naturalmente purificam seus utensílios para a produção. Fora dessa época, um sacerdote não deve aceitar um barril de vinho de oferenda sacerdotal de um homem do povo comum, devendo esperar até o próximo período de produção — a menos que o próprio doador declare ter separado dentro do barril uma pequena porção adicional de vinho verdadeiramente sagrado, o que, por extensão, garante a confiabilidade de todo o barril. A mishná fecha estendendo essa mesma confiança às jarras vazias usadas para guardar essas misturas, válidas desde setenta dias antes do início da época dos lagares.

חֹמֶר בַּתְּרוּמָה, שֶׁבִּיהוּדָה נֶאֱמָנִים עַל טָהֳרַת יַיִן וְשֶׁמֶן כָּל יְמוֹת הַשָּׁנָה, וּבִשְׁעַת הַגִּתּוֹת וְהַבַּדִּים אַף עַל הַתְּרוּמָה. עָבְרוּ הַגִּתּוֹת וְהַבַּדִּים וְהֵבִיאוּ לוֹ חָבִית שֶׁל יַיִן שֶׁל תְּרוּמָה, לֹא יְקַבְּלֶנָּה מִמֶּנּוּ, אֲבָל מַנִּיחָהּ לַגַּת הַבָּאָה. וְאִם אָמַר לוֹ, הִפְרַשְׁתִּי לְתוֹכָהּ רְבִיעִית קֹדֶשׁ, נֶאֱמָן. כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן הַמְדֻמָּעוֹת, נֶאֱמָנִין עֲלֵיהֶם בִּשְׁעַת הַגִּתּוֹת וְהַבַּדִּים, וְקֹדֶם לַגִּתּוֹת שִׁבְעִים יוֹם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shoftim (Juízes) 20:11
וַיֵּאָסֵף כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל אֶל הָעִיר כְּאִישׁ אֶחָד חֲבֵרִים
E todo homem de Israel se reuniu à cidade, unidos como um só homem.

A tradição associa a expressão “unidos como um só homem, chaverim” — usada num contexto de reunião nacional — ao conceito de que, em momentos de reunião coletiva, todo o povo de Israel é tratado como cuidadoso com a pureza (chaverim), justificando a leniência estendida ao povo comum durante a época dos lagares, quando todos se dedicam juntos à produção de vinho e azeite. Esse mesmo princípio de confiança coletiva em momentos de atividade compartilhada — quando o cuidado natural de uns contagia os outros — explica por que a confiabilidade sobre a pureza da própria oferenda sacerdotal, normalmente restrita, se amplia justamente na época em que todo o povo, em uníssono, purifica seus utensílios para a colheita.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a mishná menciona especificamente a Judeia, e detalha a lógica da confiança estendida às jarras vazias antes da época dos lagares.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 3:4
מה שייחד ארץ יהודה משאר א"י לפי ששאר הארץ מלבד ארץ יהודה היו שוכנין בה העכו"ם... ובארץ יהודה היו נאמנין בני אדם בכל השנה על יין ושמן של קדש.
Rambam explica que a mishná menciona especificamente a Judeia porque, no restante da Terra de Israel, havia moradores idólatras entre a população, o que impedia a confiança geral na pureza dos produtos; já na Judeia, região mais homogênea, confiava-se no povo comum durante todo o ano quanto ao vinho e azeite destinados ao sagrado, precisamente pela gravidade que a santidade impunha até aos menos cuidadosos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o motivo específico da menção à Judeia e a lógica da confiança estendida por associação ao sagrado; Rashi, na Guemará, confirma o princípio de que a confiança no sagrado se estende à teruma.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:4
ואם אמר לו הפרשתי לתוכה רביעית של קדש הרי זה נאמן דכיון שהוא נאמן במקצתה ר"ל אותו רביעית של קדש... מגו דמהימן אקדש מהימן נמי אתרומה.

Rambam explica o mecanismo da confiança por associação: como o homem do povo comum é confiável quanto à pequena porção de vinho verdadeiramente sagrado que declarou ter separado dentro do barril, essa mesma confiança se estende a todo o restante do conteúdo — pois seria uma afronta ao sagrado que o vinho destinado a ele viesse de um recipiente sob suspeita de impureza, e essa lógica se estende também à oferenda sacerdotal misturada no mesmo barril.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 3:4
שֶׁבִּיהוּדָה נֶאֱמָנִים וְכוּ׳. לְהָכִי נָקַט בִּיהוּדָה, לְפִי שֶׁרְצוּעָה שֶׁל אֶרֶץ כּוּתִיִּים הָיְתָה מַפְסֶקֶת בֵּין גָּלִיל לִיהוּדָה... וְלֹא הָיָה אֶפְשָׁר לְהָבִיא קֹדֶשׁ מֵאֶרֶץ הַגָּלִיל לִיהוּדָה לְפִי שֶׁגָּזְרוּ טֻמְאָה עַל אֶרֶץ הָעַמִּים.

Bartenura explica que a mishná especifica a Judeia porque uma faixa de território samaritano separava a Galileia da Judeia, tornando impraticável trazer produtos sagrados da Galileia até a Judeia, já que os Sábios decretaram impureza sobre terras de gentios. Por isso a regra de confiança nesta mishná só se aplica à região onde efetivamente se levava o vinho e o azeite ao Templo em Jerusalém, dentro do próprio território da Judeia.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 25b
מיגו דמהימן אקדש מהימן אתרומה - שגנאי הוא למזבח שתהא תרומה המחוברת לו בחזקת טומאה והקדש יקרב למזבח: במטהר את טבלו לנסכים - דאיכא חולין וקדש ותרומה מיגו דמהימן אקדש מהימן נמי אתרומה.

Rashi confirma o princípio central da mishná: como seria uma vergonha para o altar que a oferenda sacerdotal misturada junto ao vinho sagrado permanecesse sob suspeita de impureza enquanto o próprio vinho sagrado é oferecido no altar, a confiança concedida quanto ao sagrado se estende automaticamente à oferenda sacerdotal misturada no mesmo recipiente — o mesmo raciocínio que explica por que as jarras usadas para separar vinho de libações setenta dias antes dos lagares também merecem confiança quanto à sua pureza.