Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Guimel · Mishná 9

A disputa sobre com que se coroam os bikurim

רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן נַנָּס אוֹמֵר, מְעַטְּרִין אֶת הַבִּכּוּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma controvérsia curta e direta entre Rabi Shimon ben Nannas e Rabi Akiva sobre os limites do adorno decorativo permitido nos cestos de bikurim

Rabi Shimon ben Nannas diz: coroam-se os bikurim, exceto com os sete tipos (Rabi Shimon ben Nannas permite adornar os cestos de bikurim com qualquer fruta decorativa disponível — desde que não seja uma das sete espécies pelas quais a Terra de Israel é elogiada (trigo, cevada, videira, figueira, romã, oliveira e tâmara); para ele, o adorno decorativo deve vir de fora dessa categoria especial, reservando os próprios sete tipos exclusivamente para seu papel como o conteúdo sagrado da oferenda em si). Rabi Akiva diz: não se coroam os bikurim senão com os sete tipos (Rabi Akiva inverte completamente a lógica de seu colega: para ele, apenas frutas pertencentes aos próprios sete tipos elogiados podem servir como adorno decorativo dos cestos — talvez por considerar que somente essas espécies possuem a dignidade apropriada para adornar uma oferenda tão sagrada, ou por entender que o próprio adorno deveria refletir e reforçar visualmente a natureza da oferenda que envolve).

רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן נַנָּס אוֹמֵר, מְעַטְּרִין אֶת הַבִּכּוּרִים חוּץ מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין מְעַטְּרִין אֶת הַבִּכּוּרִים אֶלָּא מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A base de toda esta controvérsia é a lista dos sete tipos de frutos elencados em Devarim como característicos da Terra de Israel — a mesma lista já citada na Mishná 3:3 a propósito da coroa de oliveira do boi.

Devarim (Deuteronômio) 8:8
אֶרֶץ חִטָּה וּשְׂעֹרָה וְגֶפֶן וּתְאֵנָה וְרִמּוֹן, אֶרֶץ זֵית שֶׁמֶן וּדְבָשׁ.
"Terra de trigo e cevada, e vide, e figueira, e romã; terra de oliveiras de azeite e mel [tâmara]" — esta lista de sete espécies, que já fundamentou a escolha da oliveira para a coroa do boi na Mishná 3:3, é agora o próprio objeto da controvérsia entre Rabi Shimon ben Nannas e Rabi Akiva: o debate não é sobre se os sete tipos são especiais — ambos concordam nisso — mas sobre se esse status especial os torna adequados ou inadequados para servir como mero adorno decorativo em torno de bikurim que, eles mesmos, muitas vezes já são compostos precisamente desses sete tipos.

Qual é a lógica por trás de cada posição nesta controvérsia? A disputa entre Rabi Shimon ben Nannas e Rabi Akiva revela duas intuições opostas, mas igualmente coerentes, sobre a natureza do adorno cerimonial. Rabi Shimon ben Nannas parece raciocinar que os sete tipos já possuem, por si mesmos, uma santidade e importância elevada como conteúdo primário da mitzvá de bikurim — por isso seria uma espécie de rebaixamento usá-los meramente como decoração periférica; frutas de fora da lista, sem essa mesma santidade primária, seriam mais apropriadas exatamente para o papel secundário de ornamento. Rabi Akiva raciocina de modo inverso: precisamente por sua dignidade especial, apenas os sete tipos seriam suficientemente honrosos para adornar uma oferenda tão sagrada quanto os bikurim — usar frutas comuns e sem status especial para essa função seria, para ele, um desrespeito. A halachá, como o Rambam confirma abaixo, segue Rabi Akiva. Esta mishná breve prepara a mishná seguinte (3:10), que introduzirá formalmente o próprio termo técnico "itur habikurim" (coroamento dos bikurim) como uma das três categorias distintas de bikurim descritas por Rabi Shimon.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam não dedica uma halachá formal e extensa a este debate específico no Mishné Torá; a confirmação da halachá segundo Rabi Akiva vem, de forma concisa, já em seu Perush HaMishná, reproduzido abaixo.

Rambam · Perush HaMishná, Bikurim 3:9
וְהַלָּכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.
E a halachá é como Rabi Akiva (o Rambam encerra o debate com brevidade característica, confirmando que a prática estabelecida segue exclusivamente a opinião de Rabi Akiva: apenas frutas dos sete tipos podem ser usadas para adornar os cestos de bikurim, e não frutas de fora dessa categoria, como propunha Rabi Shimon ben Nannas). Registra-se aqui, com honestidade, que não foi localizada no Mishné Torá uma halachá dedicada especificamente a esta controvérsia — a confirmação da opinião vencedora aparece apenas no Perush HaMishná, sendo esta, portanto, a fonte mais direta disponível sobre o tema.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O Bartenura desenvolve com mais detalhe a posição vencedora de Rabi Akiva, incluindo exemplos concretos de frutas fora dos sete tipos que ficam excluídas do adorno.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 3:9
מְעַטְּרִים אֶת הַבִּכּוּרִים חוּץ מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים. מַקִּיפִים אֶת הַסַּלִּים שֶׁבִּכּוּרִים בָּהֶם מִפֵּרוֹת נָאִים וּמְשֻׁבָּחִים, וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵינָם מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים, כְּגוֹן פָּרִישׁ וְאֶתְרוֹג וְכַיּוֹצֵא בָהֶן, וְהוּא הַדִּין שֶׁיְּכוֹלִין לְעַטֵּר מִפֵּרוֹת שֶׁגָּדְלוּ בְּחוּץ לָאָרֶץ.

"Coroam-se os bikurim exceto com os sete tipos": cercam os cestos em que estão os bikurim com frutas belas e excelentes, ainda que não sejam dos sete tipos, como pêssego e etrog e semelhantes; e a mesma regra vale para poder coroar com frutas que cresceram fora da Terra [de Israel] (o Bartenura explica a posição de Rabi Shimon ben Nannas com exemplos concretos e esclarecedores: frutas visualmente atraentes como o pêssego ou o etrog — este último, aliás, uma fruta de grande importância ritual em outros contextos, como Sucot, mas que não pertence aos sete tipos de Devarim 8:8 — eram consideradas adequadas para o adorno externo justamente por sua beleza, independentemente de sua origem geográfica, podendo inclusive ter crescido fora da Terra de Israel). Nota: a halachá segue Rabi Akiva, e não Rabi Shimon ben Nannas, como confirma o Rambam acima — de modo que apenas as frutas dos sete tipos, e não os exemplos aqui mencionados, são de fato usadas para coroar os bikurim na prática estabelecida.

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.