Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Bet · Mishná 5

"A terumá do maasser"

תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quinta e última mishná da série comparativa: uma quarta categoria — a terumat maasser, o dízimo que o levita separa de seu próprio maasser rishon — entra em cena como caso intermediário, dividido entre bikurim e terumá

A terumá do maasser é igual aos bikurim em dois caminhos, e à terumá em dois caminhos (a terumat maasser — o dízimo que o levita retira de seu próprio maasser rishon e entrega ao cohen — não se encaixa perfeitamente em nenhuma das categorias anteriores, mas compartilha exatamente dois traços com cada uma delas). Toma-se do puro sobre o impuro, e sem estar contígua, como os bikurim (assim como se pode separar bikurim puros representando também frutos impuros do mesmo campo, e sem que a porção separada precise estar fisicamente encostada ao restante, também a terumat maasser pode ser retirada de produto puro em nome do impuro, e de longe, sem contiguidade — dois traços que a terumá comum não permite, por exigir proximidade física e cautela redobrada quanto à pureza), e proíbe a eira, e tem medida, como a terumá (por outro lado, a terumat maasser se assemelha à terumá comum em proibir o consumo do maasser rishon até que dela se separe — tornando-o "tevel" enquanto isso não ocorre — e em ter uma medida fixada pelos Sábios, dois traços que os bikurim, como visto na Mishná 2:3, não possuem).

תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר שָׁוָה לַבִּכּוּרִים בִּשְׁתֵּי דְרָכִים, וְלַתְּרוּמָה בִּשְׁתֵּי דְרָכִים. נִטֶּלֶת מִן הַטָּהוֹר עַל הַטָּמֵא, וְשֶׁלֹּא מִן הַמֻּקָּף, כַּבִּכּוּרִים. וְאוֹסֶרֶת אֶת הַגֹּרֶן, וְיֶשׁ לָהּ שִׁעוּר, כַּתְּרוּמָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A obrigação da terumat maasser vem diretamente de Bamidbar, na parashá que institui os dízimos levíticos.

Bamidbar (Números) 18:26 e 18:28-29
כִּי תִקְחוּ מֵאֵת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַמַּעֲשֵׂר אֲשֶׁר נָתַתִּי לָכֶם מֵאִתָּם בְּנַחֲלַתְכֶם, וַהֲרֵמֹתֶם מִמֶּנּוּ תְּרוּמַת ה' מַעֲשֵׂר מִן הַמַּעֲשֵׂר... מִכֹּל מַעְשְׂרֹתֵיכֶם תָּרִימוּ אֵת כָּל תְּרוּמַת ה'.
"Quando tomardes dos filhos de Israel o dízimo que vos dei deles em vossa herança, alçareis dele a oferta alçada do Senhor, um dízimo do dízimo" — este versículo institui a terumat maasser: o próprio levita, ao receber o maasser rishon do israelita, deve separar dele um décimo para entregar ao cohen. É esta dupla natureza — dízimo de um lado, oferta alçada de outro — que explica por que a mishná a trata como uma categoria híbrida, tomando dois traços de cada um dos regimes já discutidos.

Por que a mishná espera até a última posição da série para introduzir a terumat maasser, em vez de mencioná-la já na primeira mishná? O padrão editorial das quatro mishnayot anteriores (2:1-2:4) foi estabelecer três categorias "puras" — terumá, maasser e bikurim — e mapear exaustivamente o que cada par compartilha e o que os separa. Só depois de completado esse mapa é que a mishná introduz uma quarta categoria, a terumat maasser, precisamente porque ela não é uma categoria autônoma, mas um híbrido derivado: é ao mesmo tempo um "maasser" (pois se origina do dízimo levítico) e uma "terumá" (pois é a porção alçada ao cohen). Colocá-la por último permite à mishná usar o vocabulário já estabelecido nas quatro comparações anteriores para descrevê-la com precisão e economia, numa única frase.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata da terumat maasser em Hilchot Terumot, capítulo 3, incluindo sua medida fixa e a regra de que se separa mesmo sem contiguidade.

Rambam · Hilchot Terumot 3:20
תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר מַפְרִישִׁין אוֹתוֹ שֶׁלֹּא מִן הַמֻּקָּף, שֶׁנֶּאֱמַר "מִכָּל מַעְשְׂרֹתֵיכֶם תָּרִימוּ", אֲפִלּוּ מַעֲשֵׂר אֶחָד בִּמְדִינָה זוֹ וּתְשַׁעָה בִּמְדִינָה אַחֶרֶת.
A terumá do maasser, separam-na sem estar contígua, pois está dito "de todos os vossos dízimos alçareis" — ainda que um dízimo esteja nesta província e nove em outra província (o Rambam explica, com um exemplo vívido de distância geográfica extrema, por que a terumat maasser dispensa a contiguidade física exigida pela terumá comum — o próprio versículo, ao usar o termo abrangente "de todos os vossos dízimos", já pressupõe que as porções possam estar espalhadas).
Rambam · Hilchot Terumot 3:10
תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר אֵין מַפְרִישִׁין אוֹתָהּ בְּאֹמֶד, אֶלָּא מְדַקְדֵּק בְּשִׁעוּרָהּ, וַאֲפִלּוּ בַּזְּמַן הַזֶּה, שֶׁהֲרֵי שִׁעוּרָהּ מְפֹרָשׁ בַּתּוֹרָה.
A terumá do maasser não se separa por estimativa, mas se precisa em sua medida, mesmo hoje em dia, pois sua medida está explícita na Torá (o Rambam esclarece um ponto sutil: enquanto a terumá gedolá comum, tratada na Mishná 2:3, tem apenas uma medida recomendada pelos Sábios, a medida da terumat maasser — um décimo exato do maasser rishon — vem explicitamente do próprio texto bíblico, "um dízimo do dízimo", e por isso exige precisão matemática, não estimativa).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre este encerramento elegante da série comparativa.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 2:5
מבואר הוא כי מאחר שהוא מפריש הבכורים ממקצת אילנות מספיק לו על שאר האילנות, וזהו ענין שלא מן המוקף כמו שבארנו במה שקדם. ואפשר בבכורים להפריש מן הטהור על הטמא אחר לקיטתן, לפי שהפירות אינם מקבלות טומאה בעודם מחוברים לקרקע.

É claro que, uma vez que separa os bikurim de uma parte das árvores, isso lhe basta para as demais árvores — e este é o sentido de "sem estar contígua", como já explicamos anteriormente (o Rambam remete a uma discussão sua prévia — provavelmente no Perek Alef — sobre o mecanismo de separação dos bikurim sem exigência de proximidade física entre a porção separada e o restante do campo). E é possível nos bikurim separar do puro sobre o impuro depois de colhidos, porque os frutos não recebem impureza enquanto ainda presos ao solo (o Rambam explica a lógica subjacente: como o fruto ligado à terra é imune à impureza ritual, a questão de "puro sobre impuro" só se coloca depois da colheita — e é precisamente nesse ponto que bikurim e terumat maasser convergem, permitindo a separação sem que a proporção de pureza entre as partes seja um obstáculo).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 2:5
נִטֶּלֶת מִן הַטָּהוֹר עַל הַטָּמֵא. דְּהָא דְאֵין תְּרוּמָה נִטֶּלֶת מִן הַטָּהוֹר עַל הַטָּמֵא הַיְנוּ טַעֲמָא מִשּׁוּם דְּבָעִינַן מֻקָּף וְחָיְשִׁינַן דִּלְמָא לֹא מַקִּיף, דְּמִסְתְּפֵי דִּלְמָא נָגַע הַטָּהוֹר בַּטָּמֵא. וְהַאי טַעֲמָא לֵיכָּא לְמֵימַר הָכָא, דְּהָא נִתְרֶמֶת שֶׁלֹּא מִן הַמֻּקָּף.

"Toma-se do puro sobre o impuro": pois a razão pela qual a terumá comum não se toma do puro sobre o impuro é porque se requer contiguidade, e receia-se que talvez [o doador] não a mantenha, temendo que o puro toque o impuro. E esta razão não se pode dizer aqui, pois já se separa [a terumat maasser] sem estar contígua (o Bartenura revela a elegante lógica interna da mishná: as duas regras — "sem contiguidade" e "do puro sobre o impuro" — não são coincidências arbitrárias, mas consequência uma da outra. Se a terumat maasser já dispensa a proximidade física, o receio que impede a terumá comum de ser tomada do puro sobre o impuro simplesmente não se aplica mais, pois esse receio pressupõe justamente contiguidade).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.