Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Bet · Mishná 4

"E há nos bikurim"

וְיֵשׁ בַּבִּכּוּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quarto bloco: o inverso simétrico da mishná anterior — agora os bikurim ficam sozinhos com cinco traços que nem terumá nem maasser possuem

E há nos bikurim o que não há na terumá nem no maasser, que os bikurim se adquirem enquanto ainda presos ao solo (basta ao dono, ainda no campo, amarrar um junco em torno do fruto já maduro e declarar "eis que estes são bikurim" para que o fruto, mesmo sem ter sido colhido, já ganhe o estatuto sagrado de bikurim; terumá e maasser só se aplicam depois da colheita), e um homem pode fazer de todo o seu campo bikurim (diferentemente de terumá e maasser, que têm uma medida mínima e não podem consumir a totalidade da produção, nada impede que alguém consagre cada fruto de seu campo inteiro como bikurim), e é responsável por sua reposição (se os bikurim já separados se perderem, forem roubados ou se tornarem impuros antes de chegar ao Templo, o dono é obrigado a separar outros em seu lugar; terumá e maasser perdidos não geram essa obrigação de reposição), e requerem sacrifício (a trazida dos bikurim vem acompanhada de uma oferta de paz, korban shelamim, consumida com alegria), e canto (os levitas entoam salmos quando os bikurim chegam ao pátio do Templo), e oscilação (tenufá — o movimento ritual de balançar a cesta em várias direções, realizado pelo cohen junto com o dono), e pernoite (o dono deve pernoitar em Jerusalém na noite seguinte à trazida dos bikurim, antes de retornar à sua cidade).

וְיֵשׁ בַּבִּכּוּרִים מַה שֶּׁאֵין כֵּן בַּתְּרוּמָה וּבַמַּעֲשֵׂר, שֶׁהַבִּכּוּרִים נִקְנִין בִּמְחֻבָּר לַקַּרְקַע, וְעוֹשֶׂה אָדָם כָּל שָׂדֵהוּ בִּכּוּרִים, וְחַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָם, וּטְעוּנִים קָרְבָּן וְשִׁיר וּתְנוּפָה וְלִינָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Cada um dos cinco traços exclusivos dos bikurim tem sua própria âncora textual, tecida por analogia (guezerá shavá) a outras passagens da Torá.

Bamidbar (Números) 18:13 · Devarim (Deuteronômio) 26:2, 10-11 · 16:15
בִּכּוּרֵי כָל אֲשֶׁר בְּאַרְצָם... וְלָקַח הַכֹּהֵן הַטֶּנֶא מִיָּדֶךָ... וְשָׂמַחְתָּ בְכָל הַטּוֹב... וְשָׂמַחְתָּ בְּחַגֶּךָ.
"Os primeiros frutos de tudo o que houver em sua terra" — este versículo é a base dupla para "adquirem-se presos à terra" e "todo o campo pode virar bikurim": ambos ensinam que a santidade dos bikurim recai sobre o fruto desde que ainda ligado ao solo de Israel, sem limite de proporção. Da expressão "e o cohen tomará o cesto de tua mão" os Sábios extraem, por comparação com outro versículo sobre ofertas alçadas ("suas mãos trarão as ofertas de fogo do Senhor"), a exigência da tenufá. Da palavra "e te alegrarás com todo o bem", comparada a "e te alegrarás em tua festa" — que os Sábios entendem implicar sempre um sacrifício de paz — deriva-se a obrigação do korban. E da mesma raiz de alegria deriva-se, por analogia com "canto de amores", a exigência do canto litúrgico.

Por que só os bikurim, entre os três (terumá, maasser, bikurim), carregam tanto aparato cerimonial — sacrifício, canto, oscilação, pernoite? A resposta estrutural é que os bikurim não são apenas uma transferência de propriedade ao cohen (como terumá) nem uma refeição sagrada a ser consumida em Jerusalém (como maasser); são, sobretudo, um ato público e performático de gratidão nacional — o agricultor israelita reencenando, com seus próprios primeiros frutos, a narrativa entera da entrada na terra prometida, como expresso na declaração de vidui que acompanha o gesto ("um arameu tentou destruir meu pai... e nos trouxe a esta terra"). Por isso a mishná destaca precisamente os elementos festivos e cerimoniais como o que torna os bikurim singulares: eles não são apenas dádiva, mas celebração.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam reúne estes cinco traços exclusivos dos bikurim em Hilchot Bikurim, capítulos 2 e 3.

Rambam · Hilchot Bikurim 2:17 e 2:20
הַבִּכּוּרִים אֵין לָהֶם שִׁעוּר מִן הַתּוֹרָה, אֲבָל מִדִּבְרֵיהֶם צָרִיךְ לְהַפְרִישׁ אֶחָד מִשִּׁשִּׁים, וְהָרוֹצֶה לַעֲשׂוֹת כָּל שָׂדֵהוּ בִּכּוּרִים עוֹשֵׂהוּ. הַמַּפְרִישׁ בִּכּוּרָיו וְנָמַקּוּ אוֹ נִבְזְזוּ אוֹ אָבְדוּ אוֹ שֶׁנִּגְנְבוּ אוֹ שֶׁנִּטְמְאוּ, חַיָּב לְהַפְרִישׁ אֲחֵרִים תַּחְתֵּיהֶם.
Os bikurim não têm medida pela Torá, mas por suas palavras [dos Sábios] é preciso separar um de sessenta como recomendação, e quem quiser fazer de todo o seu campo bikurim, faça-o. Quem separou seus bikurim e apodreceram, ou foram saqueados, ou se perderam, ou foram roubados, ou se tornaram impuros, é obrigado a separar outros em seu lugar (o Rambam confirma, lado a lado, dois dos traços exclusivos desta mishná: a ausência de limite superior — mesmo que exista uma recomendação mínima — e a obrigação plena de reposição, distinta da terumá e do maasser).
Rambam · Hilchot Bikurim 3:14
הַבִּכּוּרִים טְעוּנִים לִינָה. כֵּיצַד. הֵבִיא בִּכּוּרָיו לַמִּקְדָּשׁ וְקָרָא וְהִקְרִיב שְׁלָמָיו, לֹא יֵצֵא בְּאוֹתוֹ הַיּוֹם מִירוּשָׁלַיִם לַחֲזֹר לִמְקוֹמוֹ, אֶלָּא יָלִין שָׁם וְיַחֲזֹר לְמָחָר.
Os bikurim requerem pernoite. Como assim? Trouxe seus bikurim ao Templo, e recitou, e ofereceu sua oferta de paz — não sairá naquele mesmo dia de Jerusalém para retornar ao seu lugar, mas pernoitará ali e retornará no dia seguinte (o Rambam encadeia, num único parágrafo, três dos cinco traços exclusivos da mishná — a recitação, o sacrifício de paz, e o pernoite — mostrando como formam, na prática, uma única sequência cerimonial contínua).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre este quarto bloco, dedicado inteiramente ao que é singular nos bikurim.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 2:4
נקנין במחובר לקרקע, הוא שהכהן זוכה בהם מן הדין והן מחוברות לקרקע, ואפשר לאדם לעשות כל פירותיו בכורים. וטעונים קרבן, לאמרו השם יתברך ושמחת בכל הטוב, ואמר ושמחת בחגך, ואמרו חכמים מה שמחה האמורה כאן קרבן שלמים אף שמחה האמורה להלן קרבן שלמים.

"Adquirem-se presos à terra": é que o cohen já adquire direito sobre eles por lei enquanto ainda presos à terra, e é possível ao homem fazer de todos os seus frutos bikurim (o Rambam une, como consequência de um único princípio — a santidade recai já no campo — os dois primeiros traços da mishná: a aquisição pré-colheita e a ausência de limite superior). "E requerem sacrifício": pois disse o Bendito "e te alegrarás com todo o bem", e disse "e te alegrarás em tua festa", e disseram os Sábios: assim como a alegria mencionada ali [na festa] é sacrifício de paz, também a alegria mencionada aqui é sacrifício de paz (o Rambam demonstra, passo a passo, a técnica hermenêutica da guezerá shavá — comparação verbal entre dois versículos que compartilham a mesma palavra-chave, "alegria" — pela qual os Sábios derivam a obrigação do korban shelamim para os bikurim).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 2:4
נִקְנִים בִּמְחֻבָּר לַקַּרְקַע. דִּכְתִיב בִּכּוּרֵי כָּל אֲשֶׁר בְּאַרְצָם, בְּשָׁעָה שֶׁהֵם מְחֻבָּרִים בְּאַרְצָם בִּכּוּרִים הֵם... וְלִינָה. שֶׁיָּלִין בִּירוּשָׁלַיִם כָּל הַלַּיְלָה שֶׁל אַחַר הַיּוֹם שֶׁהֵבִיא הַבִּכּוּרִים, דִּכְתִיב וּפָנִיתָ בַבֹּקֶר וְהָלַכְתָּ לְאֹהָלֶיךָ.

"Adquirem-se presos à terra": pois está escrito "os primeiros frutos de tudo o que houver em sua terra" — no momento em que estão presos à sua terra, já são bikurim (o Bartenura sublinha a leitura literal do versículo: o próprio texto localiza o momento da santificação enquanto o fruto ainda está "em sua terra", isto é, ligado ao solo). "E pernoite": que pernoite em Jerusalém toda a noite seguinte ao dia em que trouxe os bikurim, pois está escrito [a respeito do sacrifício pascal, por analogia] "e virarás pela manhã e irás às tuas tendas" — donde toda partida deve ser apenas pela manhã (o Bartenura mostra que a fonte da obrigação de pernoite não vem diretamente da parashá de bikurim, mas é importada, por analogia rabínica explícita, do regime do sacrifício pascal — outro exemplo da técnica de guezerá shavá que percorre toda esta mishná).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.