Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Alef · Mishná 3

"Não trazem bikurim senão das sete espécies"

אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים חוּץ מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Terceira mishná do capítulo: muda de eixo temático — de quem é dono legítimo da terra para o que qualifica como fruto de bikurim — estabelecendo duas restrições: apenas as sete espécies pelas quais a Terra é louvada, e apenas de qualidade escolhida; e apenas depois de Shavuot, ilustrado pelo caso concreto dos homens do Monte Tzevoim, cujos bikurim precoces foram recusados

Não trazem bikurim senão das sete espécies (trigo, cevada, uva, figo, romã, azeite e tâmara — as sete espécies pelas quais a Torá louva a Terra de Israel em Devarim 8:8). Nem de tâmaras que crescem nos montes, nem de frutos que crescem nos vales, nem de azeites de óleo que não sejam do escolhido (o padrão geográfico e qualitativo se inverte entre tâmaras e os demais frutos: tâmaras de vale são melhores que as de monte, enquanto para os outros frutos vale o oposto). Não trazem bikurim antes de Atzeret (a festa de Shavuot). Os homens do Monte Tzevoim trouxeram seus bikurim antes de Atzeret, e não os aceitaram deles, por causa do que está escrito na Torá: "e a festa da colheita, dos primeiros frutos das tuas obras, que semeaste no campo" (Shemot 23:16 — vinculando explicitamente a trazida de bikurim à "festa da colheita", isto é, Shavuot, e não antes dela).

אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים חוּץ מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים. לֹא מִתְּמָרִים שֶׁבֶּהָרִים, וְלֹא מִפֵּרוֹת שֶׁבָּעֲמָקִים, וְלֹא מִזֵּיתֵי שֶׁמֶן שֶׁאֵינָם מִן הַמֻּבְחָר. אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים קֹדֶם לָעֲצֶרֶת. אַנְשֵׁי הַר צְבוֹעִים הֵבִיאוּ בִכּוּרֵיהֶם קֹדֶם לָעֲצֶרֶת, וְלֹא קִבְּלוּ מֵהֶם, מִפְּנֵי הַכָּתוּב שֶׁבַּתּוֹרָה (שמות כג) וְחַג הַקָּצִיר בִּכּוּרֵי מַעֲשֶׂיךָ אֲשֶׁר תִּזְרַע בַּשָּׂדֶה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Duas fontes distintas embasam as duas restrições desta mishná: a lista das sete espécies, e o marco temporal de Shavuot.

Devarim (Deuteronômio) 8:8 · 26:2
אֶרֶץ חִטָּה וּשְׂעֹרָה וְגֶפֶן וּתְאֵנָה וְרִמּוֹן, אֶרֶץ זֵית שֶׁמֶן וּדְבָשׁ... וְלָקַחְתָּ מֵרֵאשִׁית כָּל פְּרִי הָאֲדָמָה.
"Terra de trigo e cevada, e vide, e figueira, e romã; terra de azeite de oliveiras, e mel..." A tradição rabínica lê a palavra "מֵרֵאשִׁית" (do princípio) em Devarim 26:2 — e não simplesmente "כל ראשית" (todo princípio) — como uma restrição: só se traz bikurim dos frutos explicitamente listados no versículo de louvor à Terra (Devarim 8:8), e o "mel" ali mencionado é entendido como mel de tâmaras, não mel de abelha, completando a lista de sete.

Por que a mishná exige não apenas as sete espécies, mas também sua qualidade "escolhida" (mevuchar)? A resposta está na própria formulação do versículo de louvor: "אֶרֶץ זֵית שֶׁמֶן" (terra de azeite de oliveiras) é lido pelos Sábios não como uma referência genérica à azeitona, mas especificamente ao "zayit agori" — a azeitona que recebe chuva e retém seu óleo internamente, considerada a mais fina. Da mesma forma, o mel de tâmaras que a Torá elogia é entendido como o mel concentrado das tâmaras de vale, e não das tâmaras de monte, mais secas e de qualidade inferior. A mitzvá de bikurim, ao trazer "os primeiros" frutos ao Templo como oferenda de gratidão, exige que essa primícia seja também a melhor — não apenas cronologicamente primeira, mas qualitativamente superior.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica ambas as restrições em Hilchot Bikurim, capítulo 2, halachot 2-3 e 6, na abertura do capítulo dedicado aos requisitos do fruto trazido.

Rambam · Hilchot Bikurim 2:2-3, 6
אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים אֶלָּא מִשִּׁבְעַת הַמִּינִין הָאֲמוּרִים בְּשֶׁבַח הָאָרֶץ... אֵין מְבִיאִין לֹא מִתְּמָרִים שֶׁבֶּהָרִים, וְלֹא מִפֵּרוֹת שֶׁבָּעֲמָקִים, וְלֹא מִזֵּיתֵי שֶׁמֶן שֶׁאֵינָן מִן הַמֻּבְחָר... אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים קֹדֶם לַעֲצֶרֶת, שֶׁנֶּאֱמַר וְחַג הַקָּצִיר בִּכּוּרֵי מַעֲשֶׂיךָ. וְאִם הֵבִיא אֵין מְקַבְּלִין מִמֶּנּוּ, אֶלָּא יַנִּיחֵם שָׁם עַד שֶׁתָּבוֹא עֲצֶרֶת וְיִקְרָא עֲלֵיהֶן.
Não trazem bikurim senão das sete espécies mencionadas no louvor da Terra (o Rambam confirma que a restrição às sete espécies é uma derivação direta do versículo de louvor, e não uma lista arbitrária)... Não trazem nem de tâmaras que crescem nos montes, nem de frutos que crescem nos vales, nem de azeites de óleo que não sejam do escolhido... Não trazem bikurim antes de Atzeret, pois foi dito: "e a festa da colheita, os primeiros frutos das tuas obras". E se trouxe, não aceitam dele, mas os deixa ali até que chegue Atzeret, e então recita sobre eles (o Rambam acrescenta um detalhe prático não explícito na mishná: os frutos trazidos precocemente não são devolvidos nem descartados, mas permanecem depositados no Templo até a data correta, quando finalmente podem ser aceitos com a recitação).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que define o material qualificado para bikurim e seu marco temporal inicial.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 1:3
אמר השם יתברך בבכורים ולקחת מראשית כל פרי האדמה, ואמרו חכמים מראשית ולא כל ראשית, אין אתה מביא אלא משבעת המינים האמורים בשבח הארץ, והם המנוים בפסוק ארץ חטה ושעורה וגו', ורצה מאמרו ודבש דבש של תמרים, ואינו מביא מן הזיתים אלא מן הטוב והמשובח, לאומרו זית שמן ולא אמר ארץ זית ודבש.

Disse o Nome, bendito seja, sobre bikurim: "e tomarás do princípio de todo fruto da terra", e disseram os Sábios: "do princípio", e não "todo princípio" (a leitura midráshica que restringe a mitzvá apenas às espécies explicitamente listadas), não trazes senão das sete espécies mencionadas no louvor da terra, e elas estão enumeradas no versículo "terra de trigo e cevada etc.". E quis dizer com "mel" o mel das tâmaras (o Rambam esclarece a identificação do "mel" bíblico, item que por si só não seria uma "espécie" agrícola distinta, mas um produto derivado das tâmaras), e não traz das oliveiras senão a boa e a escolhida, por dizer "azeite de oliveiras" e não dizer "terra de oliveira e mel" (o Rambam extrai a exigência de qualidade escolhida de um detalhe sutil da própria formulação do versículo — o uso da palavra "שמן", óleo, em vez de simplesmente "זית", oliveira).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 1:3
אֶלָּא מִשִּׁבְעַת הַמִּינִין. דִּכְתִיב מֵרֵאשִׁית, וְלֹא כָּל רֵאשִׁית, שֶׁאֵין כָּל הַפֵּרוֹת חַיָּבִים בַּבִּכּוּרִים אֶלָּא שִׁבְעַת הַמִּינִין שֶׁנִּשְׁתַּבְּחָה בָּהֶן אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, חִטָּה וּשְׂעוֹרָה וְגוֹ', וּדְבָשׁ הוּא דְּבַשׁ תְּמָרִים: מִתְּמָרִים שֶׁבֶּהָרִים וּפֵרוֹת שֶׁבָּעֲמָקִים. לְפִי שֶׁהֵן גְּרוּעִין: וְלֹא מִזֵּיתֵי שֶׁמֶן שֶׁאֵינָם מִן הַמֻּבְחָר. דִּכְתִיב זֵית שֶׁמֶן, זַיִת אֲגוֹרִי, שֶׁבָּאִים עָלָיו גְּשָׁמִים וְהוּא אוֹגֵר שַׁמְנוֹ לְתוֹכוֹ, וְהוּא מֻבְחָר וּמְשֻׁבָּח: אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים קֹדֶם לָעֲצֶרֶת. דִּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם שֶׁמְּבִיאִין בָּעֲצֶרֶת אִקְּרוּ בִּכּוּרִים, וְהֵם מַתִּירִין הֶחָדָשׁ בַּמִּקְדָּשׁ.

"Senão das sete espécies": pois está escrito "do princípio" e não "todo princípio", pois nem todos os frutos são obrigados em bikurim, senão as sete espécies pelas quais a Terra de Israel é louvada — trigo e cevada etc. — e o mel é o mel de tâmaras. "De tâmaras que crescem nos montes e frutos que crescem nos vales": porque são inferiores. "E não de azeites de óleo que não sejam do escolhido": pois está escrito "azeite de oliveiras", [entendido como] a oliveira agori, sobre a qual vêm as chuvas e ela retém seu óleo internamente, e ela é a escolhida e a mais fina (o Bartenura explica o termo técnico "agori" — provavelmente relacionado à raiz "agar", acumular/reter — descrevendo uma variedade de oliveira que absorve mais umidade e produz óleo de qualidade superior). "Não trazem bikurim antes de Atzeret": porque os dois pães que se trazem em Atzeret também se chamam "bikurim" (Vayikrá 23), e eles são os que permitem o [uso do] grão novo no Templo (o Bartenura conecta esta restrição a um princípio mais amplo do calendário do Templo: antes da oferenda dos dois pães em Shavuot, nenhum grão novo — de qualquer tipo — pode ser usado em ofertas sacrificiais, e por analogia, os bikurim individuais também aguardam essa mesma data).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.