Estes trazem e não recitam: o convertido traz e não recita, pois não pode dizer: "que o Senhor jurou a nossos pais nos dar" (Devarim 26:3 — uma frase da declaração que pressupõe descendência genealógica dos patriarcas, à qual um convertido, por definição, não pertence por nascimento). E se sua mãe era de Israel, traz e recita (quando ao menos um dos progenitores era israelita por nascimento, o vínculo genealógico com os patriarcas já existe, ainda que o outro genitor não fosse judeu). E quando ele reza sozinho, entre si e Deus, diz: "Deus dos pais de Israel" (evitando a primeira pessoa do plural "nossos", já que ele mesmo não descende deles). E quando está na sinagoga, diz: "Deus de vossos pais" (dirigindo-se à congregação, adaptando a fórmula à segunda pessoa). E se sua mãe era de Israel, diz: "Deus de nossos pais" (neste caso, pode legitimamente usar a primeira pessoa do plural em qualquer contexto, pois de fato descende dos patriarcas pelo lado materno).
O impedimento do convertido decorre de uma cláusula específica da declaração bíblica — e sua resolução, segundo a halachá final, de uma promessa feita a Avraham muito antes da entrada na Terra.
Por que esta mishná registra uma opinião que a halachá final (segundo o Rambam) não segue? A Mishná preserva, com frequência, opiniões que foram posteriormente superadas na prática, porque seu valor não é apenas normativo, mas também de registro do debate — e porque, em muitos casos, gerações posteriores de decisores (como o próprio Rambam) chegam a conclusões diferentes com base em outras fontes talmúdicas, como o tratado de Berachot. O Bartenura sinaliza explicitamente essa tensão: cita a opinião da mishná como texto, mas informa ao leitor que o Rambam decide de modo oposto — um caso instrutivo de como o perush medieval funciona tanto como explicação do texto quanto como guia para a prática normativa vigente.
O Rambam, em Hilchot Bikurim, capítulo 4, halachá 3, decide contra a leitura simples desta mishná — o convertido traz e recita, com base na paternidade universal de Avraham.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, incluindo a nota do Bartenura sobre a decisão final do Rambam, que diverge do texto simples.
Tudo isto está claro, mas decidiu-se por halachá que o próprio convertido traz bikurim e recita (o Rambam sinaliza, já em seu comentário sobre a Mishná, que a decisão normativa final diverge do texto simples que acabou de explicar), e apoiaram isso no que disse o Nome, bendito seja, a Avraham: "pois pai de multidão de nações te fiz", disseram: "anteriormente eras pai de Aram, agora és pai de todo o mundo inteiro" (uma leitura que transforma a mudança de nome de Avram para Avraham em uma expansão de sua paternidade espiritual, de um povo específico — Aram — para toda a humanidade que aceita sua fé). E por isso todo convertido pode dizer "que juraste a nossos pais", porque Avraham era pai de todo o mundo, pois ele os ensinou a fé (o Rambam fecha o raciocínio: a paternidade de Avraham não é genética, mas pedagógica e espiritual — ele "gerou" seguidores ao ensinar a crença no Deus único, e por isso todo aquele que adere a essa fé por conversão é, em sentido pleno, seu descendente).
"Pois não pode dizer: que jurou a nossos pais nos dar": porque seus pais não são de Israel, e os convertidos não receberam parte na Terra (o Bartenura primeiro explica a lógica simples da mishná: a divisão original da Terra de Israel entre as tribos se deu por linhagem, e quem não descende dessas linhagens não tem, tecnicamente, "herança ancestral" na Terra). E o Rambam escreveu que não é a halachá segundo esta mishná, mas o convertido traz e recita, e pode dizer "a nossos pais nos dar", porque a terra foi dada a Avraham, e ele é pai dos convertidos assim como de Israel, pois está escrito "pois pai de multidão de nações te fiz", e explicamos: "anteriormente eras pai de Aram, agora és pai de todo o mundo" (o Bartenura, de forma incomum, interrompe sua explicação do texto simples da mishná para informar explicitamente ao leitor qual é a posição normativa final — um sinal de quão significativa e prática é esta questão, que afeta diretamente a experiência religiosa de todo convertido ao judaísmo). E do mesmo modo, quando ele reza, seja sozinho seja na sinagoga, diz "Deus de nossos pais", ainda que sua mãe não seja de Israel (o Bartenura estende a decisão do Rambam também à fórmula de oração cotidiana, unificando a prática do convertido em todos os contextos litúrgicos, e não apenas na declaração de bikurim).