Por qual razão não traz (retomando o caso de mergulhia da mishná anterior)? Porque foi dito: "o princípio dos primeiros frutos da tua terra" (Shemot 23:19), até que todo o crescimento seja da tua terra. Os arrendatários (aricim — que trabalham a terra de outrem em troca de uma fração da colheita), e os locatários (chachorot — que pagam um valor fixo pelo uso da terra), e o ocupante de terra confiscada (sikarikon — quem recebeu terra sob coação, de um dono que não a cedeu de livre e espontânea vontade), e o ladrão, não trazem, pela mesma razão, porque foi dito: "o princípio dos primeiros frutos da tua terra".
A mishná repete, como fundamento explícito, o mesmo versículo que já embasava o caso da mergulhia — sinal de que se trata do princípio central que rege toda a primeira metade do capítulo.
Por que arrendatários e locatários — que trabalham a terra de modo legítimo e consentido — são equiparados a um ladrão quanto a esta lei? A distinção que a mishná traça não é moral, mas jurídica: mesmo quando o arrendamento é perfeitamente legal e consensual, a terra continua pertencendo, do ponto de vista da propriedade, ao proprietário original — o arrendatário tem apenas direito de uso e uma parte da colheita, não a "terra" em si no sentido exigido pelo versículo "a tua terra". Já o sikarikon e o ladrão têm ainda menos legitimidade: um obteve a terra por coação, o outro por furto direto. A mishná os agrupa porque, apesar da diferença moral entre eles, todos compartilham a mesma falha técnica: nenhum deles é o "dono" da terra no sentido pleno que "אַדְמָתְךָ" exige.
O Rambam codifica esta lei em Hilchot Bikurim, capítulo 2, halachá 12, acrescentando a condição de que a proibição vale mesmo se o dono legítimo já tiver desistido de reaver a terra.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que define os termos técnicos das quatro categorias de posse ilegítima ou incompleta.
"Aricin" são os que se associam apenas no trabalho da terra (recebem uma fração fixa da colheita como pagamento pelo trabalho, sem qualquer direito sobre a terra em si), e as "chachorot" são os que trabalham a terra pela metade, por um terço ou por um quarto, conforme o que combinam com o dono da terra (o Rambam distingue os dois termos por seu regime de pagamento: o aris trabalha em troca de uma fração da colheita fixada de antemão como salário, enquanto o chocher paga ao dono um valor ou proporção combinada pelo uso da terra). E "sikarikon" são homens que roubam terras e comem seus frutos sem a vontade dos donos (o Rambam remete a uma discussão mais ampla no tratado de Guitin sobre a origem histórica do termo, ligada a decretos de confisco de terras em períodos de perseguição).
"Os arrendatários": recebem o campo pela metade, por um terço ou por um quarto (uma parcela variável, proporcional à colheita real daquele ano). "Locatários": quem recebe o campo por um valor fixo, tantos e tantos coros por ano, quer produza muito quer produza pouco (o Bartenura marca a distinção central entre os dois regimes: o aris assume o risco da colheita junto com o dono, recebendo uma fração dela; o chocher paga um valor fixo independente do resultado da safra). "Sikarikon": alguém que mata pessoas, e [a vítima ou seus herdeiros] lhe dão terra para que não os mate. E a expressão "sikarikon" [deriva de] "toma a terra e me deixa" (o Bartenura oferece uma etimologia dramática e específica para este termo, distinta da explicação mais genérica do Rambam, situando-o no contexto de extorsão violenta). E ainda que lhe tenha dado por um momento [sob coação], não desiste dela de fato, pois pensa: "agora vou receber, e amanhã vou reclamá-la na justiça" (o Bartenura explica por que a entrega da terra sob a ameaça de morte não constitui uma renúncia genuína — o proprietário original nunca abandona verdadeiramente sua reivindicação, apenas cede temporariamente diante da coação).