1 Veio-lhes vinho depois do alimento, e não há ali senão aquela taça — Beit Shamai dizem: Abençoa-se sobre o vinho, e depois abençoa-se sobre o alimento.
2 E Beit Hilel dizem: Abençoa-se sobre o alimento, e depois abençoa-se sobre o vinho.
3 Responde-se "amém" depois de um israelita que abençoa; mas não se responde "amém" depois de um samaritano que abençoa, até que se ouça toda a bênção.
Esta Mishná de encerramento retoma o mesmo tipo de disputa processual da abertura do capítulo (8:1) — agora entre o vinho e a própria Bênção do Alimento, que é, como vimos em 8:7, mandamento explícito da Torá.
Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. A Bênção do Alimento é o mandamento explícito de Devarim 8:10, e sua importância bíblica é justamente o que está em jogo nesta disputa final. Beit Shamai sustentam que a Bênção do Alimento requer taça de vinho para ser dita da forma mais completa e honrosa — por isso, o vinho deve vir primeiro, "consagrando" a taça para a bênção maior que virá depois. Beit Hilel sustentam o oposto: precisamente porque a Bênção do Alimento é mandamento da Torá e não depende de taça alguma, ela deve ser dita imediatamente, sem esperar pelo vinho, que é apenas costume secundário. O capítulo se encerra, assim, como começou — com uma disputa sobre a prioridade entre o vinho e uma bênção obrigatória — mas agora relembrando que a bênção em questão tem, ela mesma, raiz direta na Torá.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática — a halachá segue Beit Hilel: a Bênção do Alimento precede a bênção do vinho.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Veio-lhes vinho depois do alimento, se não há ali senão aquela taça...": Há quem leia "que ele leia" [a bênção] e há quem leia "que ele ouça" — mas o sentido é o mesmo: que não se responda "amém" enquanto o samaritano abençoa, até que quem responde ouça a bênção inteira.
E aqui explicarei o assunto dos samaritanos: o povo que Sancherive trouxe de Cutá e estabeleceu nas cidades de Samaria... Com o tempo, aprenderam a Torá e a aceitaram segundo o seu sentido literal, e eram cuidadosos com os mandamentos que abraçaram; e chegaram a ser tidos como fiéis à nossa religião e monoteístas, até que os Sábios investigaram e os encontraram reverenciando o Monte Guerizim... e desde então foram considerados idólatras completos para todos os efeitos.
"Abençoa-se sobre o vinho, e depois abençoa-se sobre o alimento" — [posição de Beit Shamai, pois entendem] que a Bênção do Alimento não requer taça [e por isso pode-se abençoar o vinho primeiro, à parte]. E Beit Hilel entendem que a Bênção do Alimento requer taça [e por isso deve vir primeiro, unida à bênção do alimento].
"Abençoa-se sobre o vinho" — a Guemará explica a razão da disputa entre ambos. "Responde-se amém depois de um israelita que abençoa" — mesmo que se tenha ouvido apenas o fim da bênção; mas não depois de um samaritano, para que não tenha, porventura, abençoado o Monte Guerizim [em vez de D'us].