1 O noivo, se quiser recitar o Shemá na primeira noite, recita.
2 Rabán Shimon ben Gamliel diz: nem todo aquele que quer tomar o Nome [para si] pode tomá-lo.
Esta Mishná fecha o círculo aberto em 2:5: se ali se estabeleceu que o noivo está isento porque o seu coração, na primeira noite, não pode alcançar a kavaná plena exigida no primeiro versículo do Shemá, aqui se pergunta se ele pode, ainda assim, optar por recitar — e sob qual risco.
Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. A Mishná 2:5 já ensinou que a isenção do noivo depende exatamente da kavaná que este versículo exige: "com todo o teu coração" — um coração inteiramente disponível, sem divisão. Um noivo cujo coração já está tranquilo pode, portanto, optar por recitar mesmo estando tecnicamente isento — pois se conseguir alcançar essa concentração plena, cumpre o mandamento como qualquer outra pessoa. Mas Rabán Shimon ben Gamliel introduz aqui uma advertência distinta, de ordem moral e não estritamente legal: mesmo que a lei permita a opção, tomar sobre si publicamente o "Nome" de quem recita numa hora de isenção — parecendo, assim, um homem de kavaná extraordinária — pode ser, para quem não tem esse costume estabelecido, mais um ato de aparência do que de sinceridade diante de D'us; e uma declaração de amor "com todo o coração" que nasce da vaidade não é a mesma declaração que a Torá pede.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelos grandes códigos halákicos.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que encerra o Perek Bet.
"O noivo, se quiser recitar o Shemá na primeira noite, recita. Rabán Shimon ben Gamliel diz: nem todo aquele que quer tomar o Nome pode tomá-lo...": o sentido das palavras de Rabi Shimon é que, quando ele recitar [nessa hora em que está isento], as pessoas o olharão com admiração e respeito, como alguém escrupuloso nos mandamentos — e é possível que o seu ato seja apenas aparência, e não por causa do Céu. E a halachá não segue Rabán Shimon ben Gamliel [pois a halachá segue a opinião do primeiro taná, de que o noivo pode recitar se quiser].
"Nem todo aquele que quer tomar o Nome pode tomá-lo": se não é reconhecido como sábio e como pessoa de vida recolhida nos demais assuntos, isto não é senão soberba, que mostra de si mesmo que é capaz de dirigir o coração [num grau que os outros não alcançam]. E a halachá não segue Rabán Shimon ben Gamliel.
E vimos que alguns dos nossos mestres dizem que, hoje em dia, todo homem deve recitar o Shemá na primeira noite — pois, visto que nestas gerações não se tem tanta kavaná nos demais dias, se não recitar na primeira noite parecerá ainda mais como soberba, mostrando de si mesmo que tem kavaná em todo momento, exceto agora, por estar ocupado com uma mitzvá.
Encerrando o Perek Bet. Ao longo destas oito Mishnayot, o tratado percorreu o arco completo da kavaná na recitação do Shemá: a intenção mínima exigida (2:1), a lógica da ordem das suas três parashiot (2:2), a precisão da própria voz e das letras (2:3), a flexibilidade da mitzvá diante das circunstâncias físicas do dia a dia (2:4), e por fim — através de três episódios pessoais de Rabán Gamliel — os limites entre o rigor genuíno e a aparência de piedade (2:5-2:8). O Perek Guimel, que se segue, passa das exceções físicas e circunstanciais às isenções formais da própria obrigação: quem está, por lei, dispensado de recitar o Shemá.