1 O noivo está isento da recitação do Shemá na primeira noite, até a saída do Shabat, se não consumou [o casamento].
2 Aconteceu com Rabán Gamliel que ele recitou na primeira noite em que se casou.
3 Disseram-lhe seus discípulos: "Não nos ensinaste, nosso mestre, que o noivo está isento da recitação do Shemá na primeira noite?"
4 Disse-lhes: "Não vos escuto, para abrir mão de mim mesmo do Reino dos Céus nem por uma só hora."
A isenção do noivo é um caso do princípio geral "quem está ocupado com uma mitzvá está isento de outra mitzvá" — princípio que os Sábios derivam da própria descrição, na Torá, do momento em que se recita o Shemá.
Por que esta Mishná gira em torno destes versículos. A Guemará lê a expressão "e andando pelo caminho" como uma restrição: obriga-se ao Shemá apenas quem está livre para "andar o seu próprio caminho" — mas não quem está ocupado no caminho de uma mitzvá, cujo coração está tomado por essa outra obrigação. É este o mecanismo geral, "ha'osek bemitzvá patur min hamitzvá" — quem está ocupado com uma mitzvá está isento de outra —, que se aplica ao noivo na sua noite de núpcias: casar-se e gerar descendência é em si uma mitzvá (pirya vería), e o versículo de Devarim 24:5, que isenta o recém-casado até mesmo do serviço militar por um ano "para alegrar a sua mulher", mostra que a Torá reconhece a legitimidade dessa preocupação total do coração do noivo com o seu casamento — preocupação que, na primeira noite, é inteiramente ocupada com a apreensão sobre a consumação, e por isso o impede de alcançar a kavaná exigida no primeiro versículo do Shemá.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelos grandes códigos halákicos.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"O noivo está isento da recitação do Shemá na primeira noite...": a pessoa não se isenta da recitação do Shemá senão quando o seu coração está ocupado com um assunto de mitzvá — pois quem está ocupado com uma mitzvá está isento da [outra] mitzvá. E se desposar uma virgem, está isento do Shemá enquanto ele há de se unir a ela, por causa da ocupação do seu coração, temendo que talvez não a encontre virgem — sendo que, nesse caso, ele está ocupado com a mitzvá, isto é, a mitzvá de procriar. Mas se desposou uma viúva, é obrigado no Shemá, pois ainda que esteja ocupado com a mitzvá, não tem essa ocupação de pensamento. E do mesmo modo, se aguardar dias com a virgem sem se unir a ela, não tem então ocupação do coração, pois já passou dele a ocupação do casamento.
E este é o sentido do que disseram "se não consumou" — isto é, se não a desposou e permaneceu até depois do Shabat que a casou, já passou a ocupação do seu coração. E este ato que fez Rabán Gamliel foi um rigor que impôs a si mesmo.
"O noivo": que desposou uma virgem. "Está isento da recitação do Shemá na primeira noite": porque está ocupado, temendo que talvez não a encontre virgem. E eu ouvi que teme que talvez, ao consumar a união, ela sofra um ferimento [que a incapacite para a maternidade] — e é uma ocupação de mitzvá; e disse o Misericordioso "e andando pelo caminho" — apenas quando andas o teu próprio caminho és obrigado, mas quando estás ocupado com uma mitzvá, estás isento.
"Se não consumou": se não se uniu a ela até a saída do Shabat, que são quatro noites, está ocupado; e a partir dali, o seu coração já se acostumou com ela e não está mais ocupado — e ainda que não tenha consumado a união, torna-se obrigado na recitação do Shemá.