1 Menciona-se a saída do Egito também à noite.
2 Disse Rabi Elazar ben Azaria: "Eis que sou como um homem de setenta anos, e não obtive [razão suficiente] para que se dissesse que a saída do Egito deve ser mencionada à noite — até que Ben Zomá o expôs."
3 Pois está dito (Devarim 16): "para que te lembres do dia da tua saída da terra do Egito, todos os dias da tua vida."
4 "Os dias da tua vida" [refere-se aos] dias; "todos os dias da tua vida" [inclui também] as noites.
5 E os Sábios dizem: "os dias da tua vida" [refere-se a] este mundo; "todos os dias da tua vida" — para trazer também os dias do Messias.
Esta Mishná gira inteiramente em torno de uma única palavra excedente no versículo sobre a Páscoa — "todos" — da qual Ben Zomá extrai a obrigação de recordar a saída do Egito não apenas de dia, mas também à noite.
Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. Bastaria ao versículo dizer "os dias da tua vida" para ensinar que se deve recordar a saída do Egito enquanto se vive. Ben Zomá observa a palavra adicional "todos" ("kol yemê chayecha") e a interpreta como uma ampliação: "os dias da tua vida" bastaria para abranger apenas o dia; a palavra "todos" vem incluir também as noites. É por esta leitura minuciosa — um único vocábulo que parecia supérfluo — que se firma a prática de mencionar a saída do Egito na terceira seção do Shemá (a parashá do tzitzit) também na sua recitação noturna, ainda que o próprio mandamento do tzitzit não se aplique de noite.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelos grandes códigos halákicos.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná. Nesta Mishná, não foi localizado comentário de Rashi diretamente sobre a sua abertura na Guemará; optou-se por não forçar uma citação de passagem apenas tangencial.
"Menciona-se a saída do Egito também à noite...": "Saída do Egito" é uma designação para a parashá do tzitzit, pois nela está dito "que vos tirei da terra do Egito". E a lógica ditaria que não se lesse esta parashá à noite, pois o versículo diz "e o vereis" — no momento da visão — como veio pela tradição; não fosse a menção da saída do Egito que nela se encontra, e por causa dela devemos recitá-la.
Já quanto ao que disse Rabi Elazar ben Azaria, "eis que sou como um homem de setenta anos" — e não disse "sou um homem de setenta anos" — é porque ele não tinha, de fato, setenta anos, mas era jovem em idade; e ele se dedicava intensamente a estudar, aprender e recitar de dia e de noite, até que suas forças se enfraqueceram e lhe surgiram cabelos brancos, e ficou parecendo um ancião de setenta anos — sendo que o início dessa velhice precoce ocorreu por sua própria vontade, como se explica na Guemará.
E disse, em tom de espanto: "eis que eu, ainda que me esforcei e me associei com os homens de sabedoria, não obtive o conhecimento da alusão contida no versículo quanto à obrigação de ler a parashá do tzitzit à noite — até que Ben Zomá a expôs."
"Menciona-se a saída do Egito também à noite": a parashá do tzitzit se recita na Keriat Shemá da noite; e ainda que a noite não seja o horário do tzitzit — pois está escrito "e o vereis", excluindo a vestimenta noturna — recita-se à noite por causa da [menção à] saída do Egito que nela há.
"Como um homem de setenta anos": eu parecia um ancião — e não um ancião de fato, mas os seus cabelos embranqueceram no dia em que o nomearam nassi (presidente do Sinédrio), para que parecesse ancião e digno da presidência; e foi naquele mesmo dia que Ben Zomá expôs este versículo.
"E não obtive": não venci [em argumento] os Sábios.