Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Chet · Mishná 7 de 10

O peso da prata: o siclo de Tsor e os pagamentos fixos da Torá

חָמֵשׁ סְלָעִים שֶׁל בֵּן בְּמָנֶה צוֹרִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O peso da prata: o siclo de Tsor para todos os resgates da Torá

Os cinco selaim do filho são pesados na moeda de Tsor. Os trinta [siclos] do escravo, e os cinquenta do que violenta ou do que seduz, e os cem do que espalha má fama — todos no siclo sagrado, na moeda de Tsor. E todos [os que se resgatam] resgatam-se com prata, ou com o equivalente em prata, exceto os siclos [do templo].

— Depois de fixar as regras práticas do resgate, a mishná estabelece o padrão de peso e pureza da prata usada em cada um dos pagamentos fixos que a Torá exige: os cinco selaim do primogênito (Bamidbar 18:16), os trinta siclos pelo escravo morto por um boi (Shemot 21:32), os cinquenta siclos do que violenta ou seduz uma jovem (Devarim 22:29), e os cem siclos do marido que difama falsamente sua esposa recém-casada (Devarim 22:19). Todos esses valores, apesar de expressos originalmente em “siclos” ou “prata” de modo genérico, devem na prática ser pesados segundo o padrão da moeda de Tsor — considerada a prata mais pura disponível — e podem ser pagos tanto em moeda cunhada quanto em qualquer outro bem de valor equivalente em prata, com a única exceção dos siclos do templo, que exigem moeda cunhada específica.

חָמֵשׁ סְלָעִים שֶׁל בֵּן, בְּמָנֶה צוֹרִי. שְׁלשִׁים שֶׁל עֶבֶד, וַחֲמִשִּׁים שֶׁל אוֹנֵס וְשֶׁל מְפַתֶּה, וּמֵאָה שֶׁל מוֹצִיא שֵׁם רָע, כֻּלָּם בְּשֶׁקֶל הַקֹּדֶשׁ, בְּמָנֶה צוֹרִי. וְכֻלָּן נִפְדִּין בְּכֶסֶף, וּבְשָׁוֶה כֶסֶף, חוּץ מִן הַשְּׁקָלִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 8:7
חמש סלעים של בן במנה צורי שלשים של כו': כבר בארנו פעמים רבות שהסלע הנאמר בתורה קראו הי"ת שקל ונקרא ג"כ כסף... וקבלה בידי מאבא מרי זכרונו לברכה שקבל הוא מאביו ומזקנו איש מפי איש ז"ל שהגרגיר הזה שמשערין בו המשקל הזה הוא גרגיר שעורין... ודע לך זה שהעיקר בידינו בשל תורה שהוא במנה צורי וכל אלו הנזכרים בכאן הן כסף של תורה ושל דבריהם כגון כתובת אשה ולקנסות כסף מדינה... ומה שאמר שכולן נפדין כך סדורו וכל הנפדין נפדין בכסף או בשוה כסף זולתי מחצית השקל שהוא כסף מזוקק מצויר מטבע:

Rambam dedica esta explicação ao cálculo técnico do peso do “selá” bíblico, transmitido por tradição familiar de seu pai, avô e bisavô, medido em grãos de cevada de prata pura. Estabelece a distinção central entre o “dinheiro da Torá” — a moeda de Tsor, plenamente pura, exigida para os pagamentos aqui listados — e o “dinheiro da província”, uma liga de um oitavo de prata e sete oitavos de cobre, usada para obrigações de origem rabínica, como a ketubá da mulher ou as multas fixadas pelos Sábios. E confirma que todos esses pagamentos podem ser feitos em prata cunhada ou em qualquer bem de valor equivalente, exceto o meio-siclo do templo, que deve ser especificamente prata pura em moeda cunhada.

Bartenura · Bechorot 8:7
חָמֵשׁ סְלָעִים שֶׁל בֵּן. הַסֶּלַע הָאָמוּר בַּמִּשְׁנָה הוּא הַשֶּׁקֶל הָאָמוּר בַּתּוֹרָה בְּכָל מָקוֹם. וּפְעָמִים נִקְרָא בַּתּוֹרָה כֶּסֶף... בְּמָנֶה צוֹרִי. הַיּוֹצֵא בִּמְדִינַת צוֹר. וְכָל כֶּסֶף שֶׁל תּוֹרָה... כֻּלָּם בְּמָנֶה צוֹרִי שֶׁהוּא כֶּסֶף מְזֻקָּק. וְכָל כֶּסֶף שֶׁהוּא מִדִּבְרֵיהֶם כְּגוֹן הַקְּנָסוֹת וּכְתֻבַּת אִשָּׁה... כֶּסֶף מְדִינָה, שֶׁאֶחָד מִשְּׁמֹנָה חֲלָקִים שֶׁבָּהֶם כֶּסֶף וְשִׁבְעָה חֲלָקִים נְחֹשֶׁת: וְכֻלָּן נִפְדִּין. ... חוּץ מִן הַשְּׁקָלִים, שֶׁהַבָּא לִשְׁקֹל מַחֲצִית הַשֶּׁקֶל צָרִיךְ שֶׁיִּתֵּן אוֹתוֹ מִכֶּסֶף נָקִי מַטְבֵּעַ מְצֻיָּר וְלֹא שָׁוֶה כֶּסֶף:

Bartenura confirma que o “selá” da mishná equivale ao “siclo” bíblico, e explica “moeda de Tsor” como a prata cunhada na cidade de Tsor, tomada como padrão de pureza para todos os pagamentos exigidos diretamente pela Torá — os cinco selaim do filho, os trinta do escravo, os cinquenta do violador ou sedutor, e os cem do difamador. Contrapõe a isso o “dinheiro da província”, usado para obrigações de origem rabínica, como multas e a ketubá, composto de apenas um oitavo de prata para sete oitavos de cobre. E explica a exceção final: o meio-siclo anual do templo deve ser pago especificamente em moeda de prata cunhada e reconhecível, nunca em bens de valor equivalente.

Bartenura acrescenta ainda que alguns de seus mestres consideravam que a ketubá da virgem, por estar expressa na Torá como “o dote das virgens”, também segue o padrão pleno de prata da Torá.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 49b
מתני' מנה צורי — מפרש בגמרא: גמ' מנה של צורי — היוצא במדינת צורי דהסלע ד' זוזים והזוז במשקל זהב של משקל שני פשיטין ומחצה למשקל הברזל: רבי אמי אומר — סלע צורי היינו דינר ערבא ישמעאלי... איסתירא סוסריתא — סלעים מיושנים: דמזדבנא תמניא — מינייהו בדינרא:

Rashi, sobre a Guemará de Bechorot 49b, registra o debate amoraíta sobre a identidade exata da “moeda de Tsor”: para Rabi Assi, é simplesmente a moeda cunhada na cidade de Tsor; para Rabi Ami, equivale ao dinar árabe ismaelita; e Rabi Chanina a identifica com o antigo “istera sursita”, um selá desvalorizado do qual se vendiam oito por um dinar. Rashi conclui que, apesar das diferentes identificações históricas, todas apontam para um mesmo padrão prático de prata pura, reconhecido em toda a região.