O nascido por cesariana e o que vem depois dele — nenhum dos dois é primogênito, nem para a herança nem para o sacerdote. Rabi Shimon diz: o primeiro é primogênito para a herança, e o segundo é primogênito para os cinco selaim.
— Esta mishná breve completa o quadro aberto na anterior com um quinto caso, o mais radical: quando o primeiro filho sai por corte no ventre (cesariana) e não pela via natural, e depois dele nasce um segundo filho, desta vez pela via normal. O primeiro não é primogênito para a herança — a Torá exige que a mulher “dê à luz” no sentido pleno, o que a maioria dos sábios não reconhece no parto cirúrgico — nem para o sacerdote, pois este exige “abertura da matriz”, que também não ocorreu pela via natural. E o segundo, ainda que tenha nascido normalmente, também não é primogênito para nada: para a herança, falta-lhe ser “a primícia do vigor” do pai, pois já houve um nascimento anterior; e para o sacerdote, embora ele seja o primeiro a sair pela matriz, a regra é que só se considera primogênito sacerdotal quem for também o primeiro parto da mulher em sentido absoluto — e aqui já houve um parto (ainda que cirúrgico) antes dele. Rabi Shimon discorda em ambos os pontos, mas a lei não segue sua opinião.
Rambam observa que o único cenário fisicamente plausível para esta mishná é o de uma mulher grávida de gêmeos, cujo ventre é aberto cirurgicamente para retirar um deles, enquanto o segundo nasce depois pela via natural — e a mulher morre logo em seguida, quando do parto do segundo. Já a versão que circulava entre alguns narradores, segundo a qual a mulher sobreviveria à cesariana, engravidaria de novo e desse novo parto nasceria o segundo filho, Rambam declara não compreender, chamando-a de “coisa muito estranha” sem fundamento médico conhecido. E confirma que a lei não segue Rabi Shimon.
Bartenura esclarece o cenário: uma mulher grávida de gêmeos tem o ventre aberto e o primeiro filho sai por ali, enquanto o segundo nasce depois pela via natural da matriz. Explica por que nenhum dos dois herda em dobro nem é resgatado pelo pai: o primeiro carece do requisito de ter nascido “normalmente” para a herança, e da abertura efetiva da matriz para o sacerdote; o segundo, embora tenha nascido normalmente e por ali, carece de ser a “primícia do vigor” (pois já houve um nascimento antes dele) e, quanto ao sacerdote, embora seja tecnicamente o primeiro a passar pela matriz, a regra tanaítica é que um primogênito “apenas para uma coisa” não é considerado primogênito. Rabi Shimon lê o versículo de forma mais ampla em ambos os pontos, mas sua opinião não prevalece.
Rashi, sobre a Guemará de Bechorot 47b, explica que a Torá exige, para a herança, uma expressão que pressupõe “e lhe deram à luz” no sentido pleno de um parto pela via da matriz — o que falta ao nascido por cesariana. Sobre o segundo filho, explica o princípio geral: um primogênito “para uma coisa apenas” — que é primogênito quanto à matriz, mas não quanto aos filhos anteriores do pai, pois já havia um irmão antes dele — não é considerado primogênito para nenhum efeito, salvo onde a Escritura o vincula exclusivamente à abertura da matriz, como no caso do sacerdote (segundo Rabi Shimon, que se apoia em seu próprio critério, discutido em Nidá, de que o “dar à luz” da Torá inclui também o parto por cesariana).