Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Dalet · Mishná 4 de 10

O não especialista que erra: enterrar e pagar do próprio bolso — e a vaca de Rabi Tarfon

מִי שֶׁאֵינוֹ מֻמְחֶה וְרָאָה אֶת הַבְּכוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Não especialista que examina o primogênito e o faz abater por engano: o animal é enterrado, e ele paga do próprio bolso

Aquele que não é especialista, e examinou o primogênito, e ele foi abatido com base em sua palavra — este deve ser enterrado, e ele paga do seu próprio bolso.

— Se alguém sem autorização reconhecida (não “mumché”) examina um primogênito, declara-o com mácula permanente, e o dono o abate confiando nesse parecer, mas o parecer estava errado — o animal, por ter sido primogênito consagrado indevidamente abatido, precisa ser sepultado, sem qualquer aproveitamento; e quem deu o parecer errado deve indenizar o sacerdote pela perda, do seu próprio patrimônio, já que não tinha autoridade para emitir esse tipo de decisão.

מִי שֶׁאֵינוֹ מֻמְחֶה וְרָאָה אֶת הַבְּכוֹר וְנִשְׁחַט עַל פִּיו, הֲרֵי זֶה יִקָּבֵר, וִישַׁלֵּם מִבֵּיתוֹ.
Princípio geral do juiz que erra: o que fez está feito, mas paga do próprio bolso — salvo se era especialista reconhecido pelo tribunal, caso em que é isento

Quem julga um caso: absolveu o culpado e condenou o inocente, declarou impuro o puro e puro o impuro — o que fez está feito, e paga do seu próprio bolso. Mas, se era especialista reconhecido pelo tribunal, é isento de pagar.

— A mishná generaliza o princípio do caso anterior para qualquer juiz leigo que decide por conta própria e erra, causando prejuízo concreto às partes (como quando ele mesmo manuseou o objeto em disputa, ou contaminou algo puro, ou misturou algo impuro ao puro): sua decisão errada permanece válida — não se desfaz retroativamente o que já foi feito — mas ele deve indenizar o prejudicado do seu próprio bolso, por ter julgado sem autoridade para tanto. Já o juiz que é especialista devidamente reconhecido pelo tribunal está isento dessa indenização, mesmo quando erra, pois as partes que recorreram a ele assumiram o risco de uma decisão legítima, ainda que equivocada.

דָּן אֶת הַדִּין, זִכָּה אֶת הַחַיָּב וְחִיֵּב אֶת הַזַּכַּאי, טִמֵּא אֶת הַטָהוֹר וְטִהֵר אֶת הַטָּמֵא, מַה שֶּׁעָשָׂה עָשׂוּי וִישַׁלֵּם מִבֵּיתוֹ. וְאִם הָיָה מֻמְחֶה לְבֵית דִּין, פָּטוּר מִלְּשַׁלֵּם.
O caso da vaca com o útero removido: Rabi Tarfon a declarou tereifá e a deu aos cães; os sábios de Yavne a permitiram, com base no testemunho de Todos, o médico, sobre a prática em Alexandria

Houve um caso de uma vaca cujo útero foi removido, e Rabi Tarfon a deu de comer aos cães; e o caso veio perante os sábios, e eles a permitiram. Disse Todos, o médico: nenhuma vaca ou porca sai de Alexandria sem que lhe cortem o útero, para que não dê cria.

— Rabi Tarfon foi consultado sobre uma vaca a quem haviam removido cirurgicamente o útero, e a julgou tereifá — um animal com ferimento que a levaria à morte, proibido para consumo — determinando que fosse dada aos cães. O caso, porém, foi levado ao tribunal dos sábios em Yavne, que decidiram em sentido oposto: a remoção do útero não torna o animal tereifá, e sua carne era permitida. A prova veio do testemunho de Todos, o médico, sobre uma prática difundida no Egito: em Alexandria, vacas e porcas de raça excepcional tinham o útero removido cirurgicamente antes de serem exportadas, exatamente para impedir que se reproduzissem alhures — e, apesar disso, continuavam vivendo normalmente, prova de que a operação não é fatal nem as torna tereifot.

מַעֲשֶׂה בְפָרָה שֶׁנִּטְּלָה הָאֵם שֶׁלָּהּ, וְהֶאֱכִילָהּ רַבִּי טַרְפוֹן לַכְּלָבִים, וּבָא מַעֲשֶׂה לִפְנֵי חֲכָמִים וְהִתִּירוּהָ. אָמַר תוֹדוֹס הָרוֹפֵא, אֵין פָּרָה וַחֲזִירָה יוֹצְאָה מֵאֲלֶכְּסַנְדְּרִיָּא עַד שֶׁהֵם חוֹתְכִין אֶת הָאֵם שֶׁלָּהּ, בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא תֵלֵד.
“Foi-se teu jumento, Tarfon!” — mas Rabi Akiva o isenta de pagar, por ser especialista reconhecido pelo tribunal

Disse Rabi Tarfon: foi-se teu jumento, Tarfon! Disse-lhe Rabi Akiva: Rabi Tarfon, estás isento, pois és especialista reconhecido pelo tribunal, e todo especialista reconhecido pelo tribunal está isento de pagar.

— Ao ouvir a prova de Todos, o médico, e perceber que havia se equivocado, Rabi Tarfon lamentou — usando de autoironia com seu próprio nome — achando que teria de vender seu jumento para indenizar o dono da vaca que mandara dar aos cães. Rabi Akiva o tranquiliza: como Rabi Tarfon era um sábio de renome, especialista amplamente reconhecido, aplica-se a ele o princípio da mishná anterior — o especialista reconhecido pelo tribunal está isento de indenizar mesmo quando erra, pois seu julgamento tinha legitimidade plena no momento em que foi proferido.

אָמַר רַבִּי טַרְפוֹן, הָלְכָה חֲמוֹרְךָ טַרְפוֹן. אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא, רַבִּי טַרְפוֹן, פָּטוּר אַתָּה, שֶׁאַתָּה מֻמְחֶה לְבֵית דִּין, וְכָל הַמֻּמְחֶה לְבֵית דִּין פָּטוּר מִלְּשַׁלֵּם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 4:4
מי שאינו מומחה וראה את הבכור ונשחט על פיו כו': הטעות יהא בדיין בשני דברים, האחד במקובל הכתוב, כגון שישכח אותה הלכה או שלא ידע אותה, ועל זה נאמר טעה בדבר משנה; והשני שיטעה בענין הקושי... וזהו הנקרא טעה בשיקול הדעת. והעיקר האמיתי שכל הטועה בדבר משנה חוזר הדין ואינו חייב לשלם כל עיקר, בין שיהיה הדיין מומחה או דיין אחר... וזהו מה שאמר חדא ועוד קאמר, ר"ל חדא דטעה בדבר משנה, ועוד אי נמי בשיקול הדעת טעית מומחה לב"ד אתה. ואם הדיין טעה בשקול הדעת ולא נשא ונתן ולא ביד ולא אבד אותו דבר עד שאפשר לשלם, אינו חייב לשלם רק חוזר הדין; אבל אם נשא ונתן ביד... הרי בזה יש חילוק: אם היה הדיין מומחה ונטל רשות... אינו חייב לשלם, רק נאמר מה שעשה עשוי; ואם היה מומחה ולא נטל רשות ולא נתרצו בו בעלי הדין, או אינו מומחה אבל נתרצו בו בעלי הדין... נאמר עליהם מה שעשה עשוי וישלם מביתו. אבל מי שאינו מומחה ולא נתרצו בו בעלי הדין, זהו אנס... ומשלם הכל:

Rambam distingue dois tipos de erro judicial: o erro “numa lei já estabelecida” (quando o juiz esquece ou desconhece uma halachá conhecida) e o erro “de avaliação” (quando a questão comportava debate legítimo, mas o resultado se revelou equivocado). No primeiro caso, a decisão sempre se reverte, sem qualquer pagamento, seja o juiz especialista ou não. No segundo, se nada foi ainda consumido ou perdido, a decisão também se reverte sem pagamento; mas, se já houve prejuízo concreto (o juiz manuseou o objeto, ou o bem já se perdeu ou foi consumido por causa da decisão), há distinção: o juiz especialista devidamente autorizado pelo tribunal fica isento — vale o princípio “o que fez está feito”; mas quem não é especialista, ou é especialista sem autorização e sem que as partes o tivessem aceitado, deve indenizar do próprio bolso; e quem não é especialista nem foi aceito pelas partes é tratado como um mero usurpador, devendo pagar o valor integral.

Bartenura · Bechorot 4:4
מֻמְחֶה. הוּא שֶׁנָּטַל רְשׁוּת מִן הַנָּשִׂיא אוֹ מִבֵּית דִּין שֶׁל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל לְהַתִּיר בְּכוֹרוֹת... וִישַׁלֵּם מִבֵּיתוֹ. וּכְשֶׁהוּא מְשַׁלֵּם לַכֹּהֵן נוֹתֵן רְבִיעַ דָּמָיו אִם הִיא בְהֵמָה דַקָּה, וַחֲצִי דָמָיו אִם הִיא גַסָּה... זִכָּה אֶת הַחַיָּב. מַשְׁכַּחַת לַהּ כְּגוֹן שֶׁהָיָה לוֹ מַשְׁכּוֹן לַמַּלְוֶה וְזֶה פָּטַר אֶת הַלֹּוֶה וְנָטַל אֶת הַמַּשְׁכּוֹן בְּיָדוֹ מִיַּד הַמַּלְוֶה וְהֶחֱזִירוֹ לַלֹּוֶה: וְטִמֵּא אֶת הַטָּהוֹר. כְּגוֹן שֶׁהֵבִיאוּ לְפָנָיו טָהֳרוֹת... וְנָטַל שֶׁרֶץ אֶחָד וְהִגִּיעוֹ בָהֶן: וְטִהֵר אֶת הַטָּמֵא. כְּגוֹן שֶׁלָּקַח פֵּרוֹת טְהוֹרוֹת וְעֵרְבָן עִם פֵּרוֹת אֵלּוּ שֶׁטִּהֵר... וְאִם הָיָה מֻמְחֶה לְבֵית דִּין... פָּטוּר. דְּלֹא מָצֵי לְמֵימַר לֵיהּ אַמַּאי דָּיְנַת לֵיהּ הוֹאִיל וְלֹא בְקִיאַת בְּדִינֵי: הָאֵם שֶׁלָּהּ. רֶחֶם שֶׁלָּהּ: וְהֶאֱכִילָהּ רַבִּי טַרְפוֹן לִכְלָבִים. שֶׁשָּׁאֲלוּ לוֹ עָלֶיהָ וְאָמַר טְרֵפָה: שֶׁלֹּא תֵלֵד. מִפְּנֵי שֶׁפָּרוֹת וַחֲזִירוֹת שֶׁלָּהֶן מְעֻלִּין מְאֹד וּמוֹכְרִים אוֹתָן בְּיֹקֶר, וְרוֹצִים שֶׁלֹּא יֵלְדוּ בְּמַלְכוּת אַחֶרֶת... וְחוֹתְכִים הָאֵם שֶׁלָּהּ וְאֵינָהּ מֵתָה, הִלְכָּךְ לָאו טְרֵפָה הִיא: הָלְכָה חֲמוֹרְךָ טַרְפוֹן. הִפְסַדְתָּ חֲמוֹרְךָ, שֶׁאַתָּה צָרִיךְ לְמָכְרוֹ כְּדֵי לְשַׁלֵּם דְּמֵי הַפָּרָה לִבְעָלֶיהָ:

Bartenura define “especialista” como aquele autorizado pelo Nassi ou pelo tribunal de Eretz Israel a declarar primogênitos aptos ao abate; e detalha a proporção do pagamento devido pelo não especialista — um quarto do valor no rebanho miúdo, metade no graúdo. Explica com exemplos concretos os casos de “absolveu o culpado”, “declarou impuro o puro” e “declarou puro o impuro”, todos envolvendo manuseio direto do objeto em disputa; e esclarece por que o especialista reconhecido pelo tribunal é isento — porque ninguém pode alegar contra ele que julgou sem ter competência. Sobre a vaca, identifica “o útero dela” como o próprio útero do animal, e explica, seguindo Todos, que em Alexandria removiam-se cirurgicamente os úteros de vacas e porcas de raça superior antes de exportá-las, justamente para impedir sua reprodução alhures, e que os animais sobreviviam normalmente ao procedimento — provando que não é uma ferida fatal. E explica a expressão de Rabi Tarfon: ele lamentava ter de vender seu próprio jumento para pagar o valor da vaca ao dono.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 28b
מתני' ואם היה מומחה לב"ד פטור — דלא מצי מימר ליה אמאי דיינת ליה הואיל ולא בקי בדיני: כשהוא משלם — לכהן נותן רביע דמיו משום בכור בהמה דקה ולבכור בהמה גסה חצי דמיו... דממון המוטל בספק הוא, דאיכא למימר אפסדיה כוליה... ואיכא למימר דלאו מידי אפסדיה, דדלמא לא הוה מומא, ומומחה גמור לא הוה שרי ליה: משום גזירת מגדלי בהמה דקה נגעו בה — משום טורח מגדלי בהמה דקה שיש בה טורח גדול לגדלה, וזה שהתיר הבכור הצילו לכהן מטורח גדול... להכי נגעו בו דלא משלם אלא רביע:

Rashi explica por que o especialista reconhecido pelo tribunal fica isento — porque ninguém pode alegar contra ele que julgou sem estar habilitado; e detalha o cálculo do pagamento devido pelo não especialista: como se trata de dinheiro em situação de dúvida (talvez a mácula fosse mesmo real, talvez não), o valor pago fica no meio-termo — um quarto do valor no rebanho miúdo, cujo cuidado é menos trabalhoso, e metade no graúdo, cujo cuidado é mais trabalhoso e cuja perda representa maior prejuízo ao sacerdote.

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 28b (o caso da vaca)
מתני' האם שלה — רחם שלה: והאכילה ר"ט לכלבים — ששאלו לו עליה אם טריפה היא והאכילה לכלבים: שלא תלד — מפני שפרות וחזירות שלהן מעולין מאד ומוכרין אותן ביוקר ורוצין שלא ילדו במלכות אחרת כדי שיהו צריכין להם, וחותכין האם שלה ואינה מתה, הילכך לאו טריפה היא: הלכה חמורך טרפון — הפסדת חמור שתשלמנו לבעל הפרה:

Rashi identifica “o útero dela” como o próprio útero da vaca, e explica que Rabi Tarfon foi consultado sobre se o animal era tereifá, e a mandou dar aos cães. Sobre o testemunho de Todos, esclarece que os alexandrinos removiam o útero das vacas e porcas de sua raça superior antes de exportá-las, para impedir a reprodução em outros reinos e manter a demanda pelos próprios animais — e, como o animal sobrevive à operação, ela prova que a ferida não é fatal. E explica o lamento de Rabi Tarfon: ele temia ter perdido seu jumento, tendo de vendê-lo para pagar o valor da vaca ao seu dono.