Se não quis resgatá-lo, quebra-lhe a nuca por trás com um cutelo, e o sepulta. A mitzvá do resgate precede a mitzvá de quebrar a nuca, pois foi dito: “e, se não o resgatares, quebrar-lhe-ás a nuca”.
— Diante da recusa do dono em resgatar o primogênito de burro com um cordeiro, a Torá oferece uma alternativa: quebrar-lhe a nuca por trás com um instrumento cortante e sepultá-lo, já que, uma vez morto dessa forma, seu corpo permanece proibido a qualquer benefício. Mas a ordem das palavras do próprio versículo — primeiro o resgate, depois, apenas se ele faltar, o quebrar da nuca — ensina que o resgate é a opção preferencial, e o quebrar da nuca é apenas o recurso de quem se recusa a resgatá-lo.
A mitzvá da designação precede a mitzvá do resgate, pois foi dito: “a quem não a designou, então será resgatada”.
— A mishná passa a uma nova série de precedências entre mitzvot. A serva hebreia (amá ivriá), segundo a lei bíblica, pode ser designada (ye'idá) pelo próprio senhor, ou por seu filho, para o casamento; se isso não ocorre, ela tem direito a ser resgatada. A ordem do versículo (Shemot 21:8) — primeiro a possibilidade da designação, e só depois, na sua ausência, o resgate — ensina que a mitzvá de designá-la para casamento é preferível à de simplesmente resgatá-la com dinheiro.
A mitzvá do levirato precede a mitzvá da chalitzá, no início, quando tinham a intenção de cumprir a mitzvá. E agora que não têm a intenção de cumprir a mitzvá, disseram: a mitzvá da chalitzá precede a mitzvá do levirato.
— Quando o irmão de um homem falecido sem filhos toma para si a viúva, cumpre a mitzvá do levirato (yibum); se prefere não a tomar, ambos passam pelo rito da chalitzá, que os libera um do outro. Originalmente, quando os cunhados agiam com a intenção genuína de cumprir a mitzvá, o levirato era preferível. Mas a mishná registra uma mudança histórica: uma vez que essa intenção pura deixou de ser a norma — e outros motivos, como a beleza da viúva ou o interesse material, passaram a pesar mais — os sábios inverteram a preferência, e passaram a recomendar a chalitzá em vez do levirato.
A mitzvá da redenção pelo próprio dono precede a de qualquer outra pessoa, pois foi dito: “e, se não for resgatado, será vendido segundo a tua avaliação”.
— A mishná fecha com um último caso de precedência, agora fora do tema da primogenitura: quando um animal impuro é consagrado ao Templo (para ser vendido em benefício da manutenção do santuário), a Torá dá preferência a que o próprio dono o resgate, antes que qualquer outra pessoa o faça — e o dono, ao resgatá-lo, acrescenta um quinto ao valor, algo que nenhum outro comprador é obrigado a fazer. Apenas se o dono não o resgata é que se recorre à venda a qualquer outra pessoa pelo valor avaliado.
Rambam explica que “kofitz” é uma faca grande, semelhante a um machado, do tipo que os açougueiros usam para cortar carne; e que a menção de “e o sepulta” ensina que o primogênito de burro morto dessa forma fica proibido a qualquer benefício. O próprio verbo “quebrar a nuca” deriva da palavra “nuca” (oref), e indica que não é permitido abatê-lo pela garganta nem estrangulá-lo, mas apenas cortar-lhe a cabeça pela parte de trás do pescoço.
Sobre a inversão histórica entre levirato e chalitzá, Rambam observa que, segundo quem sustenta que a cunhada só é permitida ao cunhado quando ele tem em mente cumprir a mitzvá, mas que, se a toma por interesse ou por atração, seria como quem se relaciona com uma parente proibida — essa posição não é correta, pois, uma vez cessada a proibição de esposa de irmão quando o irmão morre sem filhos, ela lhe é permitida por completo, mesmo que sua intenção não seja voltada à mitzvá; por isso a lei segundo essa opinião é que o levirato precede a chalitzá em todo tempo.
Bartenura define “kofitz” como uma faca grande, semelhante a um pequeno machado, usada pelos açougueiros para cortar carne, e explica que “quebrar a nuca” consiste em cortar a cabeça do animal pela parte de trás do pescoço, sepultando-o em seguida porque fica proibido a qualquer benefício depois desse ato. Sobre “a mitzvá da designação”, esclarece que se refere à serva hebreia; e sobre “a mitzvá da redenção pelo próprio dono”, explica que se trata de quem consagra um animal impuro à manutenção do Templo — a mitzvá de resgatá-lo é preferencialmente do próprio dono, porque ele acrescenta um quinto ao valor no resgate.