Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Alef · Mishná 2 de 7

A vaca que deu cria como burro, e o que sai do puro e do impuro

פָּרָה שֶׁיָּלְדָה כְּמִין חֲמוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Exigência de que mãe e cria sejam da mesma espécie, e o critério do que sai do puro e do impuro

A vaca que deu à luz algo semelhante a um burro, e a burra que deu à luz algo semelhante a um cavalo, estão isentas da primogenitura, pois foi dito “primogênito de burro”, “primogênito de burro”, duas vezes — até que quem dá à luz seja burra e o que nasce seja burro. E como ficam eles quanto à alimentação? O animal puro que deu à luz algo semelhante a um animal impuro é permitido para consumo; e o impuro que deu à luz algo semelhante a um animal puro é proibido para consumo, pois o que sai do impuro é impuro, e o que sai do puro é puro.

— A mishná exige, para a santidade do primogênito de burro, que tanto a mãe quanto a cria sejam efetivamente burros — não basta que um deles o seja. Essa exigência é derivada da repetição da expressão “primogênito de burro” duas vezes na Torá (Shemot 13:13 e 34:20): se bastasse um único versículo, poder-se-ia pensar que a semelhança externa da cria com um burro, ainda que nascida de outra espécie, já geraria a santidade; a repetição ensina que se exige burro dos dois lados. Já quanto à permissão de consumo, o critério muda completamente: não importa a espécie da mãe nem a aparência externa da cria, mas sim de qual progenitor ela efetivamente saiu — se do puro, é pura; se do impuro, é impura — ainda que sua aparência externa se pareça com a espécie oposta.

פָּרָה שֶׁיָּלְדָה כְּמִין חֲמוֹר, וַחֲמוֹר שֶׁיָּלְדָה כְּמִין סוּס, פָּטוּר מִן הַבְּכוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר פֶּטֶר חֲמוֹר פֶּטֶר חֲמוֹר, שְׁנֵי פְעָמִים, עַד שֶׁיְּהֵא הַיּוֹלֵד חֲמוֹר וְהַנּוֹלָד חֲמוֹר. וּמָה הֵם בַּאֲכִילָה. בְּהֵמָה טְהוֹרָה שֶׁיָּלְדָה כְּמִין בְּהֵמָה טְמֵאָה, מֻתָּר בַּאֲכִילָה. וּטְמֵאָה שֶׁיָּלְדָה כְּמִין בְּהֵמָה טְהוֹרָה, אָסוּר בַּאֲכִילָה, שֶׁהַיּוֹצֵא מֵהַטָּמֵא, טָמֵא. וְהַיּוֹצֵא מִן הַטָּהוֹר, טָהוֹר.
O peixe impuro que engoliu um peixe puro, e vice-versa

Peixe impuro que engoliu peixe puro é permitido para consumo; e o puro que engoliu peixe impuro é proibido para consumo, porque não é seu desenvolvimento.

— A mishná aplica o mesmo princípio do “que sai do puro é puro, e o que sai do impuro é impuro” a um caso distinto: não o de gestação, mas o de um peixe encontrado inteiro dentro de outro. Ali, o critério não é a origem, mas o desenvolvimento (gidulav): o peixe encontrado dentro de outro não é fruto do desenvolvimento deste, mas apenas foi por ele engolido, de modo que mantém seu próprio estatuto de pureza ou impureza, independente do peixe que o engoliu.

דָּג טָמֵא שֶׁבָּלַע דָּג טָהוֹר, מֻתָּר בַּאֲכִילָה. וְטָהוֹר שֶׁבָּלַע דָּג טָמֵא, אָסוּר בַּאֲכִילָה, לְפִי שֶׁאֵינוֹ גִדּוּלָיו.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Shemot 13:13 — a primeira menção de “primogênito de burro”
וְכָל פֶּטֶר חֲמֹר תִּפְדֶּה בְשֶׂה וְאִם לֹא תִפְדֶּה וַעֲרַפְתּוֹ וְכֹל בְּכוֹר אָדָם בְּבָנֶיךָ תִּפְדֶּה׃
E todo primogênito de burro resgatarás com um cordeiro; e, se não o resgatares, quebrar-lhe-ás a nuca; e todo primogênito humano entre teus filhos resgatarás.
Shemot 34:20 — a segunda menção, que gera a exigência dupla
וּפֶטֶר חֲמוֹר תִּפְדֶּה בְשֶׂה וְאִם לֹא תִפְדֶּה וַעֲרַפְתּוֹ כֹּל בְּכוֹר בָּנֶיךָ תִּפְדֶּה וְלֹא יֵרָאוּ פָנַי רֵיקָם׃
E o primogênito de burro resgatarás com um cordeiro; e, se não o resgatares, quebrar-lhe-ás a nuca; todo primogênito de teus filhos resgatarás, e não se apresentarão diante de Mim de mãos vazias.
A mishná deriva da repetição de “primogênito de burro” nesses dois versículos — um em Shemot 13:13 e outro em Shemot 34:20 — a exigência de que tanto a mãe quanto a cria sejam efetivamente da espécie do burro para que se aplique a santidade da primogenitura.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 1:2
פרה שילדה כמין חמור וחמור שילדה כמין סוס כו': דג טמא שבלע דג טהור מותר באכילה וטהור כו': יש בין הפרה והחמור שינויים הרבה, שהיא מפרסת פרסה ולה קרנים, ולפיכך פטור מן הבכורה; אבל חמור שילדה כמין סוס, הואיל ושני המינים קרובים מאד לפי שהוולד יוצא משני אישים מאלו שני המינים, שמא יעלה על הדעת שמפני כן הוא חייב בבכורה, בא להשמיענו שהוא פטור.

Rambam observa que há muitas diferenças entre a vaca e o burro — ela tem casco fendido e chifres, e por isso é evidente que ela ficaria isenta da primogenitura ao dar cria semelhante a um burro. Mas quanto à burra que deu cria semelhante a um cavalo, como as duas espécies são muito próximas — a ponto de a cria poder nascer do cruzamento das duas —, poder-se-ia supor que por isso ficaria obrigada na primogenitura; a mishná vem ensinar que também nesse caso está isenta, pois deu à luz uma espécie que não carrega santidade alguma. Já a vaca que deu à luz algo semelhante a um burro, espécie que carrega santidade quando a mãe é efetivamente burra, a mishná nos ensina que não há santidade até que a mãe seja burra e a cria seja burro.

Bartenura · Bechorot 1:2
פֶּטֶר חֲמוֹר פֶּטֶר חֲמוֹר שְׁנֵי פְעָמִים. חַד בְּ“קַדֶּשׁ לִּי כָל בְּכוֹר”, וְחַד בְּ“רְאֵה אַתָּה אוֹמֵר אֵלַי”. — שֶׁהַיּוֹצֵא מֵהַטָּמֵא טָמֵא. וּדְבַשׁ דְּבוֹרִים וּצְרָעִין מֻתָּר, וְלֹא מִקְּרֵי יוֹצֵא מִן הַטָּמֵא, לְפִי שֶׁאֵין מְמַצּוֹת אוֹתוֹ מִבְּשָׂרָן אֶלָּא מַכְנִיסוֹת אוֹתוֹ לְגוּפָן, שֶׁאוֹכְלוֹת מִפִּרְחֵי הָאִילָנוֹת וּמֵהֶן נַעֲשֶׂה הַדְּבַשׁ.

Bartenura explica que a expressão “primogênito de burro” aparece duas vezes na Torá — uma vez na passagem “santifica para Mim todo primogênito”, e outra na passagem “vê, tu me dizes” — e é dessa repetição que se deriva a exigência de que mãe e cria sejam ambas burros.

Quanto a “o que sai do impuro é impuro”, Bartenura observa que o mel de abelhas e de vespas é permitido, e não se considera algo que “sai do impuro”, porque as abelhas não o extraem de seu próprio corpo, mas o introduzem em seu corpo depois de recolhê-lo das flores das árvores, e dali se faz o mel.