A vaca que deu à luz algo semelhante a um burro, e a burra que deu à luz algo semelhante a um cavalo, estão isentas da primogenitura, pois foi dito “primogênito de burro”, “primogênito de burro”, duas vezes — até que quem dá à luz seja burra e o que nasce seja burro. E como ficam eles quanto à alimentação? O animal puro que deu à luz algo semelhante a um animal impuro é permitido para consumo; e o impuro que deu à luz algo semelhante a um animal puro é proibido para consumo, pois o que sai do impuro é impuro, e o que sai do puro é puro.
— A mishná exige, para a santidade do primogênito de burro, que tanto a mãe quanto a cria sejam efetivamente burros — não basta que um deles o seja. Essa exigência é derivada da repetição da expressão “primogênito de burro” duas vezes na Torá (Shemot 13:13 e 34:20): se bastasse um único versículo, poder-se-ia pensar que a semelhança externa da cria com um burro, ainda que nascida de outra espécie, já geraria a santidade; a repetição ensina que se exige burro dos dois lados. Já quanto à permissão de consumo, o critério muda completamente: não importa a espécie da mãe nem a aparência externa da cria, mas sim de qual progenitor ela efetivamente saiu — se do puro, é pura; se do impuro, é impura — ainda que sua aparência externa se pareça com a espécie oposta.
Peixe impuro que engoliu peixe puro é permitido para consumo; e o puro que engoliu peixe impuro é proibido para consumo, porque não é seu desenvolvimento.
— A mishná aplica o mesmo princípio do “que sai do puro é puro, e o que sai do impuro é impuro” a um caso distinto: não o de gestação, mas o de um peixe encontrado inteiro dentro de outro. Ali, o critério não é a origem, mas o desenvolvimento (gidulav): o peixe encontrado dentro de outro não é fruto do desenvolvimento deste, mas apenas foi por ele engolido, de modo que mantém seu próprio estatuto de pureza ou impureza, independente do peixe que o engoliu.
Rambam observa que há muitas diferenças entre a vaca e o burro — ela tem casco fendido e chifres, e por isso é evidente que ela ficaria isenta da primogenitura ao dar cria semelhante a um burro. Mas quanto à burra que deu cria semelhante a um cavalo, como as duas espécies são muito próximas — a ponto de a cria poder nascer do cruzamento das duas —, poder-se-ia supor que por isso ficaria obrigada na primogenitura; a mishná vem ensinar que também nesse caso está isenta, pois deu à luz uma espécie que não carrega santidade alguma. Já a vaca que deu à luz algo semelhante a um burro, espécie que carrega santidade quando a mãe é efetivamente burra, a mishná nos ensina que não há santidade até que a mãe seja burra e a cria seja burro.
Bartenura explica que a expressão “primogênito de burro” aparece duas vezes na Torá — uma vez na passagem “santifica para Mim todo primogênito”, e outra na passagem “vê, tu me dizes” — e é dessa repetição que se deriva a exigência de que mãe e cria sejam ambas burros.
Quanto a “o que sai do impuro é impuro”, Bartenura observa que o mel de abelhas e de vespas é permitido, e não se considera algo que “sai do impuro”, porque as abelhas não o extraem de seu próprio corpo, mas o introduzem em seu corpo depois de recolhê-lo das flores das árvores, e dali se faz o mel.